ACOLHER OS SONS, COMPREENDER AS PESSOAS: ENTENDENDO A HIPERSENSIBILIDADE AUDITIVA.

Por 04/08/2026No Comments8 min de leitura
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Gritos no pátio da escola, o som estridente da sirene do recreio, palmas empolgadas ou o ruído constante de um eletrodoméstico em casa. Para a maioria de nós, esses sons fazem parte da paisagem comum do dia a dia. Contudo, para muitas crianças e adultos com hipersensibilidade auditiva, esses mesmos estímulos representam desconforto intenso, medo, ansiedade e até dor física real.

Como a escola pode se adaptar sem isolar esse estudante? Qual é o papel da família na regulação sensorial? E de que maneira a ciência nos ajuda a desmistificar práticas do cotidiano, como o uso contínuo de abafadores de ruído?

Para nos guiar nessa reflexão fundamental sobre inclusão, convidamos a Dra. Claudiane Santana Ribeiro — fonoaudióloga formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em Linguagem e Audiologia, mestre em Ciências da Motricidade Humana, doutora em Distúrbios do Desenvolvimento e docente do curso de Fonoaudiologia da Universidade Vale do Rio Doce (Univale). Em um bate-papo esclarecedor, a especialista compartilha sua bagagem científica e prática clínica para transformar a forma como olhamos para a sensibilidade sensorial no ambiente escolar e familiar.

1.                  Dra. Claudiane, para começar: na prática do dia a dia, como podemos definir a hipersensibilidade auditiva? Existe diferença entre ela, a hiperacusia, a misofonia e o Processamento Auditivo Central (PAC)?

A hipersensibilidade auditiva configura como uma percepção anormal do som, que pode causar impacto em diferentes situações do cotidiano, como nas atividades sociais e de lazer. É um conjunto de reações ao som que podem provocar aborrecimento, medo ou dor e que pode afetar o bem-estar emocional, o sono e a concentração, além de poder causar ansiedade. No entanto, é importante ressaltar que tal condição pode ser manifestada e definida de diferentes formas. Na literatura, há três principais nomenclaturas descritas são: a misofonia, uma irritabilidade a sons específicos; fonofobia, medo a determinados sons; e, ainda, a hiperacusia, caracterizada pelo aumento anormal da sensibilidade do som.

Já o Processamento Auditivo Central é a capacidade do sistema nervoso auditivo central compreender a informação auditiva, ou seja, são habilidades específicas (localização e lateralização sonora; discriminação; reconhecimento auditivo e dos aspectos temporais da audição) que o indivíduo depende para compreender o que ouve. E quando estas habilidades auditivas apresentam algum déficit, denomina-se como Transtorno do Processamento Auditivo Central – TPAC.

2.                  Identificação Precoce: Quais são os primeiros sinais de alerta de que uma criança ou adulto atípico possui hipersensibilidade auditiva, e não apenas um “incômodo passageiro” ou comportamento de esquiva?

Quando um indivíduo apresenta respostas desproporcionais ao som com frequência e intensidade, é importante investigar, procurar ajuda profissional. Algo passageiro não configura hipersensibilidade auditiva. No entanto, atualmente a avaliação da hipersensibilidade auditiva é clínica, não existindo protocolos específicos para esta identificação.

3.                  Mitos e Verdades: Quais são os maiores equívocos que a sociedade — e até mesmo as escolas — ainda cometem ao lidar com alguém que tem sensibilidade a sons?

O principal mito é privar o indivíduo da presença do som. Treinamentos progressivos e graduais precisam ser realizados, para que o sistema nervoso auditivo desenvolva estratégias para aprender a responder de maneira mais proporcional aos estímulos sonoros incômodos.

4.                  Sua Pesquisa: O que motivou o desenvolvimento deste projeto de pesquisa sobre hipersensibilidade auditiva e quais são os principais objetivos que a senhora busca alcançar?

O principal objetivo da minha pesquisa de doutora intitulada: Elaboração e busca de evidências de validade de um Questionário de Handicap de Hipersensibilidade Auditiva para avaliar

indivíduos com Transtorno do Espectro do Autismo, foi justamente desenvolver um instrumento que permita aos profissionais avaliar e identificar de maneira mais fácil e simples a hipersensibilidade auditiva.

5.                  A visão dos futuros profissionais: Como docente universitária, como você avalia o preparo dos novos profissionais da saúde e da educação para identificar e manejar o processamento sensorial no ambiente escolar e clínico?

Acredito que os profissionais clínicos da área da saúde tenham mais facilidade na realização deste manejo, já que o período de intervenção é menor, o atendimento é mais individualizado e a formação é mais direcionada. No entanto, acredito que o manejo no ambiente educacional é muito mais desafiador, necessitando de mais recursos, ambientes e capacitações.

6.                  Desafios na Escola: O ambiente escolar é naturalmente barulhento (sinal de recreio, conversas paralelas, quadra de esportes). Como a escola pode se adaptar estruturalmente e pedagogicamente sem isolar o estudante atípico?

Para que isto aconteça de forma eficiente todos precisam estar envolvidos no processo, a escola, os professores, os outros alunos, o ambiente físico, e o próprio aluno. E cada caso precisa ser analisado individualmente, e as medidas adotadas tem que atender as demandas individuais.

7.                  O uso de abafadores: O uso de fones e abafadores de ruído se tornou bastante comum. Qual é a orientação fonoaudiológica correta sobre quando e como utilizá-los para não gerar dependência sensorial ou “superproteção”?

Os abafadores precisam ser usados com cautela e orientação. Além disso, precisam estar acompanhados de treinamentos graduais para que o sistema nervoso auditivo desenvolva estratégias para aprender a responder de maneira mais proporcional aos estímulos sonoros incômodos.

8.                  Parceria família + saúde: Como as famílias podem apoiar o desenvolvimento da regulação auditiva em casa, e como deve ser a ponte entre o fonoaudiólogo, a equipe multidisciplinar e a equipe pedagógica?

A intervenção terapêutica só terá sucesso se a família, o paciente, o terapeuta e a escola estiverem juntos no processo. É importante saber ouvir, buscar e implementar as estratégias certas em todos os ambientes que o indivíduo está inserido, em casa, na escola, na clínica…

A entrevista com a Dra. Claudiane Santana Ribeiro nos deixa uma lição valiosa: a inclusão verdadeira não acontece pelo afastamento, mas pela empatia, pelo conhecimento e pelo

acompanhamento gradual. Privar a criança do mundo sonoro pode parecer uma solução rápida para amenizar a dor imediata, mas é o apoio técnico e multidisciplinar que desenvolve sua autonomia para a vida.

Agradecemos à Dra. Claudiane por abrilhantar nossa coluna com sua generosidade e saber acadêmico, trazendo luz a um tema urgente para toda a comunidade escolar e família.

Como acompanhar o trabalho da especialista: O artigo fruto de sua pesquisa de doutorado sobre o instrumento de avaliação no Autismo estará disponível em breve nos portais acadêmicos e no Google. Para acompanhar novidades e orientações sobre a prática fonoaudiológica, siga no Instagram: @clausantanafono.

E assim encerramos o nosso encontro de hoje, com o coração aquecido e a mente cheia de novas ideias para construir uma educação cada vez mais inclusiva, acolhedora e consciente.A inclusão não é um destino onde a gente chega sozinho, mas um caminho que percorremos juntos — família, escola e sociedade. Espero que essas reflexões tenham tocado você tanto quanto tocaram a mim.

Muito obrigada pela sua companhia carinhosa nesta leitura! Deixe seu comentário, compartilhe este texto com aquele professor ou mãe que precisa dessa orientação e vamos continuar essa corrente do bem.

Um abraço profundamente caloroso, cheio de carinho e afeto, e até a nossa próxima semana!

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