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ALÉM DA “MANIA”: O DESAFIO SILENCIOSO DO TOC NA ESCOLA E EM CASA.

Por 15/06/2026No Comments7 min de leitura
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Quando o assunto é inclusão e neurodiversidade, nossa atenção costuma se voltar rapidamente para os diagnósticos mais debatidos na atualidade. No entanto, existe um sofrimento silencioso que atravessa a vida de muitos adultos, jovens e, especialmente, das nossas crianças. Por isso, hoje vamos falar sobre o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

O TOC é um transtorno caracterizado por pensamentos intrusivos e indesejados (obsessões) que levam a comportamentos repetitivos e rituais (compulsões) para aliviar a angústia. É comum ouvirmos frases como “Eu tenho um pouco de TOC com a minha mesa” ou “Sou muito TOC com horários”. No senso comum, o transtorno foi banalizado. Mas, na realidade de quem convive com o quadro, o TOC não tem nada a ver com preferência por organização ou limpeza. Tem a ver com extrema ansiedade e com uma necessidade incontrolável de evitar que algo ruim aconteça. O alívio trazido pela compulsão, infelizmente, é apenas temporário, e logo o ciclo aprisionante recomeça.

TOC ou Estereotipia? Compreendendo a diferença
No cotidiano escolar, é comum que comportamentos repetitivos gerem dúvidas. Afinal, aquela ação contínua do aluno é uma compulsão do TOC ou uma estereotipia (muito frequente, por exemplo, no Transtorno do Espectro Autista — TEA)? A diferença fundamental está na motivação e no sentimento que acompanham a ação:

Estereotipias (Movimentos autorregulatórios): têm a função de regulação sensorial e emocional. A criança repete a ação (como balançar as mãos ou enfileirar objetos) porque isso a ajuda a se organizar internamente, trazendo conforto e foco.
Compulsões (TOC): são motivadas por medo severo. A criança repete a ação não porque gosta ou se acalma, mas porque sua mente diz que ela é “obrigada” a fazer aquilo para evitar uma tragédia. O TOC aprisiona e causa profunda exaustão.
O paradoxo: Quando o TOC e o TDAH se encontram
Uma dúvida frequente nas salas de aula e nos consultórios é: alunos com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) também podem ter TOC? A resposta é sim. Essa comorbidade é muito real e cria um verdadeiro “cabo de guerra” interno.

De um lado, o TDAH traz a mente acelerada, a desorganização e a dificuldade de manter o foco. Do outro, o TOC traz a rigidez extrema e a mente “travada” em um único pensamento obsessivo. O aluno pode ser extremamente desorganizado com sua mochila (TDAH), mas entrar em desespero se a letra do caderno não ficar perfeitamente simétrica (TOC). Em muitos casos, o estudante parece estar “no mundo da lua” pela desatenção quando, na verdade, está paralisado mentalmente, refazendo uma contagem silenciosa. Identificar essa dupla sobrecarga é fundamental para não rotular a criança como desinteressada.

Já dentro de casa, a rotina pode se tornar exaustiva. A família muitas vezes se vê refém dos rituais da criança, sem saber se deve impedir o comportamento ou ceder para evitar uma crise de pânico. O tempo gasto com rituais de verificação e limpeza acaba roubando horas preciosas de sono e a leveza das interações familiares.

Nas esferas social e educacional, o impacto é doloroso. A escola, que deveria ser um ambiente de descoberta, pode se tornar um campo minado de gatilhos de ansiedade. O medo do julgamento faz com que muitos jovens tentem esconder seus rituais, o que exige um esforço mental gigantesco e os empurra, muitas vezes, para o isolamento social.

O TOC na sala de aula: Como perceber os sinais?

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No ambiente escolar, o TOC mascara o verdadeiro potencial do aluno. A queda no rendimento não ocorre por falta de capacidade, mas porque a energia mental daquela criança está sendo drenada pela luta contra os pensamentos intrusivos. Fique atento se o aluno:

• Apaga o caderno até rasgar a folha porque sente que precisa reescrever a palavra um número específico de vezes;
• Demora um tempo irreal para concluir tarefas simples, preso em rituais de checagem (relendo a mesma questão de prova cinco vezes para ter certeza de que entendeu);
• Faz perguntas repetitivas buscando reasseguramento (ex: “Professora, você tem certeza que eu não errei?”);
• Apresenta crises de choro súbitas quando seu ritual é interrompido;
• Chega constantemente atrasado porque seu ritual matinal exigiu horas de preparação.

Educação com empatia: O manejo no dia -a- dia.

A sala de aula regular precisa ser um porto seguro. O pior caminho é o julgamento e a punição. Chamar a atenção do aluno ou puni-lo por realizar uma compulsão apenas aumenta sua ansiedade, o que piora o TOC. A validação do sofrimento (“Eu vejo que isso está sendo difícil para você”) é muito mais eficaz.

1. Adaptações razoáveis: se o aluno tem rituais de checagem ou perfeccionismo excessivo, oferecer tempo extra para provas ou permitir que ele faça exames oralmente pode ser um divisor de águas;

2. Flexibilidade nas saídas: permitir que o aluno saia da sala brevemente para se acalmar ou realizar um ritual em um local privado reduz o constrangimento e a ansiedade social;

3. Evite gatilhos desnecessários: se ler em voz alta para a turma desencadeia rituais paralisantes, encontre outras formas de avaliar a leitura até que o aluno esteja emocionalmente fortalecido;

4. Parceria com a rede de apoio: o trabalho conjunto entre escola, família e os profissionais de saúde mental (psicólogos e psiquiatras) é o que garante que as abordagens educacionais estejam alinhadas ao tratamento.

Conviver com o TOC, especialmente com outras neurodivergências associadas, é como carregar uma mochila pesada e invisível todos os dias. O diagnóstico de TOC, no entanto, não define o limite da capacidade de aprendizagem de ninguém. Com o tratamento adequado e uma rede de apoio sólida, crianças e adolescentes podem ter uma vida acadêmica plena e bem-sucedida. Afinal, a ferramenta mais poderosa para a inclusão não é um material didático especial, mas sim a empatia e o acolhimento.

E você que está lendo esta coluna hoje? Já percebeu algum desses sinais em casa ou na sua sala de aula? Como tem lidado com os desafios silenciosos da ansiedade na infância e juventude? Deixe seu comentário, compartilhe sua vivência e vamos continuar construindo juntos nossa ponte de comunicação. Já já vamos inciar um novo projeto: “Rodas de conversas entre pais e amigos.” Até a próxima semana, com mais laços & abraços para vocês.

Ligiane Santos – Psicopedagoga.

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