
Dando continuidade à nossa série de textos sobre síndromes, transtornos e diversidade, hoje vamos falar sobre um tema complexo e ainda muito cercado de estigmas: o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Compreender essa condição exige de nós um olhar profundamente humano e empático — qualidades que são a base de qualquer trabalho verdadeiro de inclusão.
Uma dúvida muito comum que surge entre famílias e educadores é: essa condição afeta crianças, adolescentes e jovens no ambiente escolar? A resposta é direta: sim, afeta profundamente. No entanto, há um detalhe clínico muito importante, principalmente ao falarmos da infância.
Convido você a acompanhar este panorama sobre como o transtorno se manifesta e como a escola e a família podem atuar em rede para oferecer o suporte necessário.
O TPB em crianças, adolescentes e jovens.
Do ponto de vista clínico e psiquiátrico, o diagnóstico de TPB raramente é fechado na infância. Como a personalidade da criança ainda está em formação, os especialistas evitam rotular comportamentos infantis como um transtorno de personalidade. Na infância, os sinais costumam ser lidos como desregulação emocional grave.
O diagnóstico costuma ocorrer no final da adolescência ou no início da vida adulta (a partir dos 18 anos), quando os traços de personalidade se consolidam. No entanto, os sinais e o sofrimento já estão presentes no ambiente escolar muito antes disso.
Principais sinais na escola.
O aluno com traços ou diagnóstico de TPB sente as emoções em uma intensidade muito maior (“sem pele emocional”) e demora muito mais para voltar ao estado de calma. Na escola, isso se manifesta de várias formas:
- Intensidade e instabilidade nas relações: os vínculos (com colegas e professores) alternam rapidamente entre a idealização profunda e a desvalorização repentina;
- Medo do abandono ou rejeição: uma simples nota baixa, uma advertência ou um amigo que senta longe podem ser interpretados como rejeição total, gerando crises de choro ou raiva desproporcionais;
- Impulsividade: comportamentos de risco, reações explosivas ou abandono de atividades por frustração;
- Autoimagem instável: o jovem muda constantemente de interesses e grupos sociais, sentindo um grande vazio crônico;
- Automutilação e ideação suicida: é muito comum na adolescência o uso de cortes (autolesão não suicida) como uma tentativa de aliviar a dor emocional. É um sinal de alerta máximo para a escola.
Como educadores e familiares devem lidar?
O manejo exige uma parceria muito estreita entre a família, a escola e os profissionais de saúde. O papel da escola não é tratar, mas sim acolher e criar um ambiente seguro.
Estratégias para educadores:
- Validação emocional sem validar o comportamento: reconheça a dor do aluno (“Vejo que você está sentindo muita raiva e entendo que isso dói”), mas mantenha o limite (“No entanto, não podemos quebrar regras ou agir com agressividade”);
- Limites claros e afetuosos: o aluno precisa de contornos. As regras devem ser claras, aplicadas sem tom de rejeição. A consistência transmite segurança;
Evitar o Confronto em Momentos de Crise: Quando o aluno está no pico da desregulação, a área racional do cérebro está “desligada”. Ofereça um espaço seguro para que ele se acalme primeiro, sem dar lições de moral na hora da crise. - Buscar apoio terapêutico especializado: terapias focadas em regulação emocional (como a DBT) são fundamentais. A família também precisa de psicoeducação;
- Não minimizar o sofrimento: evite frases como “isso é drama”. A dor que o jovem sente é extremamente real para ele;
- Estabelecer protocolos de segurança: em casos de risco, a família deve ter um plano de crise alinhado com o terapeuta e compartilhado com a escola de forma sigilosa.
A inclusão não se faz com fórmulas mágicas, mas com escuta, paciência e disposição para enxergar além do comportamento desafiador. Acolher a dor do outro é o primeiro passo para transformar o ambiente escolar em um verdadeiro espaço de pertencimento e segurança. Logo, logo deixaremos o contato do nosso grupo de pais e responsáveis para darmos início às nossas Rodas de Conversa. Esse grupo dará toda assistência e suporte às famílias atípicas, educadores e profissionais da área.
E você, como enxerga o papel da comunidade escolar nesses momentos de crise? Já vivenciou ou acompanhou alguma situação parecida? Compartilhe suas percepções aqui nos comentários, vamos continuar construindo essa rede de apoio e conhecimento juntos.
Um abraço carinhoso a todos, e nos encontramos aqui na próxima semana com mais uma reflexão sobre educação, inclusão e humanidade!
Ligiane Santos – Psicopedagoga.
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