O TURISMO ESTÁ MUDANDO, E O VIAJANTE TAMBÉM

Por 28/10/2026No Comments17 min de leitura

Do “conhecer” ao “viver”: as grandes tendências do turismo apontam para um viajante mais consciente, conectado ao território e em busca de experiências que façam sentido.

Há uma transformação acontecendo no turismo mundial, e ela está diretamente relacionada à maneira como as pessoas passaram a escolher, vivenciar e compartilhar suas viagens. Durante muito tempo, viajar significava conhecer lugares famosos, cumprir roteiros previamente estabelecidos e colecionar fotografias que comprovassem a passagem por determinado destino. Hoje, cada vez mais, viajar significa sentir, experimentar, aprender, participar e estabelecer conexões com os lugares e com as pessoas que fazem parte deles.

O novo viajante tornou-se mais consciente e exigente, valorizando experiências autênticas, identidade local, diversidade cultural e sustentabilidade em suas dimensões ambiental, sociocultural e econômica. Essa transformação aparece tanto nos movimentos internacionais do setor quanto nos documentos que orientam o turismo brasileiro e revela uma mudança importante na própria compreensão do que significa ser um destino turístico. Não se trata mais apenas de atrair visitantes, mas de criar experiências capazes de gerar valor para o território e para aqueles que vivem nele.

A Revista de Tendências do Turismo 2026 evidencia justamente essa valorização do patrimônio cultural, dos modos de vida das comunidades e da aproximação entre turismo, cultura e economia criativa. Nesse novo contexto, o patrimônio de um destino não está restrito aos seus prédios históricos, monumentos ou paisagens, mas também está presente nas pessoas, nos saberes transmitidos entre gerações, na gastronomia, no artesanato, nas festas tradicionais, nas manifestações culturais, nas histórias de família e nos modos de produzir e viver.

O que antes poderia ser percebido apenas como cotidiano passa a adquirir uma nova dimensão e pode se transformar em experiência turística. É justamente nesse ponto que destinos menores e regiões ainda pouco conhecidas encontram uma oportunidade extraordinária, porque o turista contemporâneo quer saber de onde vem a comida que está consumindo, deseja conversar com quem produz, conhecer uma história contada por quem a viveu, caminhar pela paisagem, aprender um fazer tradicional, experimentar uma receita e conhecer uma comunidade. O turismo de experiência ganha espaço justamente porque transforma o visitante de espectador em participante e faz com que a própria experiência deixe de ser um complemento da viagem para se tornar, muitas vezes, o principal motivo para realizá-la.

Um dos exemplos mais interessantes dessa transformação pode ser encontrado na Colômbia, especialmente na Paisagem Cultural Cafeeira, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial, onde o café deixou de ser apresentado apenas como um produto agrícola e passou a ser compreendido também como expressão de cultura, paisagem, arquitetura, gastronomia, memória e modo de vida.

Ao visitar essa região, o turista pode conhecer propriedades produtoras, percorrer plantações, compreender as etapas do cultivo e do beneficiamento, participar de experiências relacionadas à produção e degustar o café próximo ao lugar onde ele é cultivado. A experiência, entretanto, não termina na xícara, porque envolve também as antigas fazendas, os pequenos vilarejos, a arquitetura tradicional, a gastronomia, as histórias das famílias produtoras e as paisagens das montanhas colombianas.

Em destinos como Salento, na região de Quindío na Colômbia por exemplo, a experiência do café permite ao visitante compreender que existe muito mais por trás de uma bebida consumida diariamente. O café passa a ser uma porta de entrada para conhecer um território e, por meio dele, compreender uma cultura, uma paisagem e uma forma de viver.

Essa experiência colombiana oferece uma lição especialmente interessante para regiões brasileiras: não foi necessário criar artificialmente um produto turístico desconectado da realidade local, porque o próprio território já possuía os elementos capazes de despertar o interesse do visitante. As montanhas já estavam ali, as plantações já faziam parte da paisagem, as famílias já produziam café e os saberes já eram transmitidos entre gerações; o turismo encontrou uma maneira de organizar, interpretar e compartilhar tudo isso.

No Brasil, movimentos semelhantes podem ser observados em diferentes regiões produtoras de café. Em Minas Gerais, por exemplo, propriedades de regiões como o Cerrado Mineiro e Caparaó Mineiro oferecem experiências que aproximam o visitante dos cafezais, dos processos de produção e da gastronomia associada ao café, enquanto na Serra de Baturité, no Ceará, o chamado café de sombra reúne paisagem, história, produção, torrefação, gastronomia e contato com os produtores.

A lógica é semelhante: o produto é apenas a porta de entrada, enquanto a experiência é aquilo que dá significado à viagem e permanece na memória do visitante.

A mesma transformação pode ser percebida em outros territórios onde a produção tradicional passou a integrar a oferta turística. Em Portugal, o enoturismo transformou regiões produtoras de vinho em espaços de visitação, aprendizagem e convivência, nos quais conhecer uma vinícola significa também compreender a paisagem, a história, as aldeias, as tradições e as pessoas que participam daquela cadeia produtiva.

Durante o período da vindima, por exemplo, o visitante pode acompanhar atividades relacionadas à colheita e compreender um ciclo de produção que, para quem vive naquele território, faz parte do calendário anual, mas que para o turista representa uma experiência de descoberta e participação. O Douro talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos, algumas propriedades recebem visitantes para participar da colheita das uvas, acompanhar o processo de produção do vinho e, em determinadas experiências, até participar da tradicional pisa das uvas. A proposta oficial de turismo de Portugal apresenta a vindima justamente como uma oportunidade para o visitante viver a experiência “como um local”, aproximando-se das pessoas, das paisagens e das tradições que fazem parte da produção vinícola.

A mesma lógica aparece nas experiências relacionadas ao azeite, nas quais propriedades e produtores aproximam o visitante do cultivo das oliveiras, dos processos de produção e da degustação, conectando agricultura, gastronomia, paisagem e cultura.

O alimento, nesses casos, deixa de ser apenas aquilo que chega à mesa e passa a contar uma história sobre o território, sobre o trabalho, sobre o conhecimento acumulado e sobre as pessoas que fazem aquela produção acontecer.

O Japão oferece outra inspiração interessante por meio das experiências de turismo rural que aproximam visitantes da vida cotidiana de comunidades agrícolas, montanhosas e pesqueiras. Em algumas dessas propostas, o turista se hospeda em propriedades locais, conhece os alimentos produzidos na região, acompanha atividades rurais, participa do preparo de refeições e estabelece contato direto com as famílias anfitriãs. Na Península de Noto, em Ishikawa, uma comunidade rural formada por mais de 40 hospedagens tradicionais, o visitante pode participar de atividades sazonais como o plantio de arroz, a coleta de cogumelos e a produção de carvão, além de compartilhar refeições preparadas coletivamente. O interessante é perceber que o produto turístico não foi construído sobre uma atração extraordinária, mas sobre a relação entre paisagem, agricultura, alimentação, arquitetura e conhecimento tradicional.

O que chama atenção nesse modelo é justamente a valorização daquilo que, à primeira vista, poderia parecer simples demais para ser considerado uma atração turística. A rotina de uma família, o preparo de uma refeição, o trabalho na propriedade ou o conhecimento sobre determinado alimento tornam-se elementos capazes de despertar interesse porque permitem ao visitante experimentar uma realidade diferente daquela que encontra em seu cotidiano.

Essa mudança ajuda a explicar uma pergunta que vem ganhando importância no turismo contemporâneo: em vez de perguntar apenas “o que há para visitar?”, o viajante começa a perguntar “como as pessoas vivem aqui?”. E essa pergunta abre um universo de possibilidades para destinos que possuem identidade, cultura e modos de vida próprios.

Nesse contexto, ganha força o desejo de viajar e retornar melhor do que se chegou, o que ajuda a explicar o interesse crescente por lugares com natureza preservada, gastronomia, hospitalidade e ritmos mais tranquilos.

A transformação do turismo também envolve a maneira como o visitante percebe toda a jornada. A experiência começa antes mesmo de sair de casa, quando ele pesquisa o destino, procura informações, lê avaliações, tenta localizar um endereço, busca hospedagem, compra um ingresso ou pergunta nas redes sociais, e continua durante a chegada, o deslocamento, o atendimento, a visita, a alimentação e o retorno para casa.

Por isso, a digitalização deixou de ser apenas uma tendência tecnológica e passou a fazer parte da própria experiência turística. O visitante espera encontrar informações claras, atualizadas e acessíveis e deseja facilidade para planejar, reservar, chegar e circular pelo destino. Ao mesmo tempo, uma boa experiência digital precisa encontrar uma experiência presencial igualmente qualificada, porque nenhuma tecnologia consegue compensar uma recepção inadequada, uma informação desatualizada ou uma experiência mal estruturada.

Talvez seja nesse contexto que o turismo encontre uma de suas maiores oportunidades. Os locais deixaram de ser apenas um cenário bonito para fotografar e passaram a ser compreendidos como espaço de produção, conhecimento, cultura, memória e histórias. Uma propriedade rural pode oferecer uma experiência gastronômica, um produtor pode contar a história de um alimento, uma comunidade pode apresentar uma manifestação cultural, uma trilha pode revelar uma paisagem, uma oficina pode transformar o visitante em participante e uma conversa pode revelar aquilo que nenhum folder consegue explicar.

O desafio está em reconhecer esses elementos, qualificá-los, organizá-los, criar narrativas e preparar o território para receber o visitante sem perder aquilo que torna a experiência verdadeira.

A inteligência artificial, a digitalização e as novas tecnologias continuarão transformando a maneira como planejamos e realizamos viagens, mas, quanto mais tecnologia estiver presente na jornada do visitante, maior poderá ser o valor daquilo que permanece genuinamente humano: uma boa conversa, uma história contada por quem viveu, uma receita preparada por uma família, um sabor associado à memória, uma caminhada pela paisagem ou um encontro inesperado.

O futuro do turismo não será apenas sobre destinos inteligentes, mas sobre destinos que sabem quem são, porque não basta estar conectado digitalmente quando não existe conexão com o próprio território. Também não basta atrair visitantes se o turismo não for capaz de gerar benefícios para quem vive no destino, assim como não basta falar de sustentabilidade sem criar condições para que o turismo contribua efetivamente para preservar a natureza, valorizar a cultura, fortalecer as comunidades e movimentar a economia local.

Talvez seja justamente por isso que o Vale do Aço tenha diante de si uma grande oportunidade. A região não precisa escolher entre sua identidade industrial e sua vocação turística, porque pode contar as duas histórias e mostrar ao visitante um território onde indústria e Mata Atlântica, inovação e tradição, eventos e comunidades, o urbano e o rural, passado e futuro convivem e podem formar uma experiência singular.

É impossível olhar para essas tendências sem pensar nas oportunidades existentes no Vale do Aço, mas talvez seja necessário mudar a pergunta. Em vez de perguntar apenas o que existe para visitar em cada município, é preciso perguntar que experiências o Vale do Aço pode oferecer como território.

A resposta é muito mais ampla, porque a região reúne natureza, cultura, gastronomia, patrimônio, comunidades rurais, manifestações tradicionais, eventos, esporte, aventura, história e diferentes modos de vida, além de iniciativas que já começam a transformar esses elementos em produtos e experiências turísticas.

Há experiências que nascem do contato com a produção rural, da gastronomia e dos saberes tradicionais, aproximando o visitante de produtores, cozinhas, ingredientes, histórias e formas de viver que fazem parte do cotidiano das comunidades.

Nesse mesmo território, manifestações culturais como o congado revelam outra dimensão do turismo de experiência. Não se trata simplesmente de apresentar uma manifestação ao visitante, mas de permitir que ele compreenda a história, os símbolos, os saberes e a identidade de uma comunidade, reconhecendo a cultura como patrimônio vivo e não como um espetáculo isolado.

Há também experiências que nascem da própria natureza e das histórias de conservação. A relação com a Mata Atlântica, as trilhas, as cachoeiras, as montanhas, os rios e as áreas protegidas oferecem possibilidades para caminhadas, contemplação, aventura, educação ambiental e interpretação da paisagem.

A paisagem de montanha acrescenta outra camada a esse território. As serras, comunidades rurais, pequenas propriedades, artesanato, gastronomia e modos de vida podem ser articulados em experiências nas quais o visitante não apenas contempla a paisagem, mas aprende a reconhecê-la e interpretá-la.

E quando a paisagem se encontra com a história, surgem ainda outras possibilidades. Os antigos caminhos associados ao tropeirismo podem ser percorridos novamente por quem busca cicloturismo, caminhada e aventura, mas também por quem deseja conhecer as histórias da ocupação do território, suas fazendas, igrejas, estradas rurais, sabores e modos de vida. O turismo não precisa inventar novas histórias para criar produtos; muitas vezes, precisa redescobrir, interpretar e organizar as histórias que já existem.

O território também guarda possibilidades relacionadas à cultura afro-brasileira. Em comunidades tradicionais, festas, religiosidade, oralidade, música, culinária, artesanato e memória podem formar experiências de afroturismo baseadas no protagonismo das próprias comunidades. A presença de comunidades quilombolas e de manifestações como o congado e a capoeira revela um patrimônio que ainda pode ser mais conhecido, valorizado e integrado à oferta turística regional.

Essa possibilidade ganha ainda mais força diante do movimento que Minas Gerais vem fazendo para estruturar o afroturismo como instrumento de valorização das narrativas, territórios e agentes ligados à cultura negra, inclusive por meio de iniciativas voltadas ao turismo de base comunitária. O que está em jogo, nesse caso, não é transformar a cultura em produto, mas criar condições para que histórias, memórias, saberes e identidades possam ser compartilhados com respeito, protagonismo comunitário e geração de oportunidades.

Há ainda experiências ligadas à água, à floresta e à conservação ambiental, especialmente no entorno do Parque Estadual do Rio Doce. Lagoas, rios, matas, fauna, trilhas e paisagens podem ser combinadas com interpretação ambiental, observação da natureza, educação e vivências que permitam ao visitante compreender a importância daquele patrimônio natural.

Em outros pontos do território, a experiência pode nascer dos sabores. Rapadura, doces, queijos, quitandas, produtos da agricultura familiar, gastronomia rural e outras formas de produção local carregam histórias que podem ser contadas ao visitante por meio de oficinas, degustações, visitas, almoços e encontros com quem produz. A comida deixa, assim, de ser apenas parte da viagem e passa a ser uma forma de conhecer o território.

Também existem possibilidades relacionadas à memória, à arquitetura, às festas religiosas, às tradições populares, ao artesanato e às histórias das comunidades, mostrando que o patrimônio cultural do Vale do Aço está nos saberes, nas celebrações, nos objetos, nas receitas, nos caminhos e nas pessoas que mantêm essas referências vivas.

É justamente essa diversidade que permite pensar em um Vale do Aço de experiências.

A região pode reunir, em uma mesma jornada, experiências de negócios e eventos, gastronomia, cultura, natureza, aventura, turismo rural, cicloturismo, patrimônio, conservação ambiental e afroturismo.

Quando essas possibilidades são conectadas, deixa de existir apenas uma coleção de atrativos espalhados pelo território e começa a surgir a possibilidade de construção de uma verdadeira jornada regional.

O evento pode ser a porta de entrada. A gastronomia pode ser o convite para permanecer. A natureza pode ampliar o percurso. A cultura pode criar vínculo. A história pode dar significado à paisagem. O encontro com as comunidades pode transformar uma visita em memória.

É nesse movimento que o Vale do Aço pode encontrar uma de suas maiores oportunidades: não necessariamente criar algo completamente novo, mas aprender a olhar de outra maneira para aquilo que já possui.

Porque o turismo de experiência começa justamente quando aquilo que para quem vive no território parece cotidiano passa a ser percebido pelo visitante como algo que merece ser conhecido, compreendido, vivido e lembrado.

Talvez essa seja a grande mudança de perspectiva que o novo turismo propõe: o futuro turístico do Vale do Aço não está apenas em criar novos lugares para visitar, mas em transformar aquilo que já existe em experiências capazes de fazer sentido para quem chega e, ao mesmo tempo, gerar orgulho e oportunidades para quem vive aqui.

Porque o turismo mudou e, diante dessa mudança, o desafio dos destinos não é simplesmente acompanhar uma nova tendência de mercado, mas reconhecer o valor existente em seus próprios territórios e encontrar maneiras de compartilhá-lo com o mundo sem perder sua essência.

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