POR QUE TANTOS HOMENS TEM DIFICULDADE DE FALAR SOBRE A CIRURGIA DE PRÓSTATA COM OUTROS HOMENS?

Por 02/10/2026No Comments10 min de leitura
CIRURGIA DE PRÓSTATA

Por que tantos homens tem dificuldade de falar sobre a cirurgia de próstata com outros homens?

O medo de julgamentos, o constrangimento com as mudanças na sexualidade e a dificuldade de demonstrar vulnerabilidade podem transformar a recuperação em uma experiência silenciosa.

Falar sobre futebol, trabalho, família e até problemas financeiros costuma fazer parte das conversas entre amigos. Mas, quando o assunto é uma cirurgia de próstata, muitos homens preferem mudar de tema. Mesmo entre aqueles que passaram pela mesma experiência, falar sobre as consequências do tratamento pode ser difícil.

A cirurgia para retirada da próstata, conhecida como prostatectomia radical, é uma das possibilidades de tratamento do câncer de próstata. Embora possa representar um passo importante no enfrentamento da doença, o procedimento também pode trazer mudanças na continência urinária e na função sexual, com impactos que vão além do aspecto físico.

Para alguns homens, o desafio não termina na sala de cirurgia. Ele continua no cotidiano, na intimidade do relacionamento e nas conversas que deixam de acontecer.

Quando a saúde masculina esbarra na ideia de masculinidade

Desde cedo, muitos homens aprendem que precisam demonstrar força, independência e autocontrole. Em determinados contextos, expressar medo, insegurança ou tristeza pode ser interpretado como sinal de fraqueza.

Essa construção social pode dificultar a procura por ajuda e a expressão de sentimentos, principalmente quando uma condição de saúde afeta aspectos associados à identidade masculina.

Após a cirurgia de próstata, por exemplo, alguns homens enfrentam dificuldades para controlar a urina ou recuperar a ereção. Essas mudanças podem gerar frustração, insegurança e questionamentos sobre a própria masculinidade.

Uma pesquisa brasileira que entrevistou homens submetidos à prostatectomia radical identificou repercussões da incontinência urinária e da disfunção erétil sobre a autoestima, a sexualidade e a percepção que os participantes tinham de si mesmos.

Nesse contexto, falar sobre a recuperação pode significar expor algo que o homem preferiria manter em segredo — especialmente diante de outros homens.

O medo de ser julgado ou tratado de maneira diferente

Uma das razões que podem levar ao silêncio é o receio de se tornar alvo de brincadeiras inconvenientes, comentários constrangedores ou julgamentos.

A perda involuntária de urina, por exemplo, pode ser associada equivocadamente à falta de controle do próprio corpo. Já as dificuldades de ereção podem ser interpretadas, de maneira preconceituosa, como uma perda da virilidade.

Essas interpretações não correspondem à realidade médica, mas podem influenciar a forma como o homem vivencia o período pós-operatório.

Em vez de compartilhar suas dificuldades, alguns preferem esconder o uso de absorventes, evitar determinados passeios ou deixar de participar de atividades sociais por medo de que alguém perceba sua condição.

Estudos qualitativos sobre homens que apresentam incontinência urinária após o tratamento do câncer de próstata descrevem justamente esse esforço para esconder os sintomas e preservar a imagem que desejam transmitir aos outros.

O silêncio, nesse caso, funciona como uma tentativa de evitar o constrangimento. Entretanto, também pode tornar a experiência mais solitária.

Por que conversar com outro homem pode ser tão difícil?

Compartilhar uma experiência de saúde com alguém que passou pela mesma situação poderia facilitar a troca de informações e o apoio emocional. Ainda assim, essa aproximação nem sempre acontece.

Isso ocorre porque a identificação entre duas pessoas não elimina, necessariamente, o medo de julgamento.

Alguns homens podem sentir vergonha de admitir que estão usando fraldas ou absorventes. Outros podem evitar falar sobre a vida sexual por considerarem o assunto íntimo demais. Há também aqueles que preferem demonstrar que estão bem, mesmo quando enfrentam dificuldades.

Em determinadas amizades, existe espaço para falar sobre quase tudo, menos sobre vulnerabilidades físicas e emocionais.

É importante, porém, não generalizar: muitos homens encontram apoio em amigos, familiares e grupos de pacientes. O que determina a abertura para conversar varia de acordo com a personalidade, a história de vida, o ambiente social e a qualidade dos vínculos.

Uma revisão de estudos sobre as experiências de homens com câncer de próstata identificou o apoio de outros pacientes e dos parceiros como fontes importantes de suporte durante o tratamento e a adaptação às mudanças.

As consequências do silêncio durante a recuperação

A dificuldade de conversar não significa que todos os homens terão problemas emocionais ou que deixarão de procurar tratamento. Entretanto, quando o constrangimento impede alguém de compartilhar suas dificuldades ou buscar orientação, a recuperação pode se tornar mais difícil.

Entre as possíveis consequências estão:

  • Isolamento social: evitar encontros, viagens, atividades físicas ou situações em que a perda urinária possa ser percebida.
  • Insegurança na vida sexual: receio de iniciar relações íntimas ou de conversar com a parceria sobre mudanças na ereção.
  • Desgaste emocional: lidar sozinho com frustrações, dúvidas e expectativas sobre a recuperação.
  • Desinformação: acreditar que determinadas alterações são inevitáveis ou que não existem possibilidades de tratamento.

É fundamental compreender que a recuperação após uma cirurgia de próstata não é igual para todos. A evolução depende de diversos fatores, incluindo as características do tratamento, as condições clínicas e a resposta individual.

Por isso, dificuldades persistentes devem ser discutidas com a equipe de saúde, em vez de serem encaradas como algo que o homem precisa simplesmente aceitar ou esconder.

Incontinência urinária e disfunção erétil: assuntos que precisam sair do silêncio

A incontinência urinária e a disfunção erétil estão entre as alterações que podem ocorrer após o tratamento do câncer de próstata.

A perda urinária pode interferir na rotina, no trabalho, nas atividades sociais, conjugais e na prática de exercícios. Já as mudanças na função sexual podem afetar a intimidade, a autoestima e a dinâmica dos relacionamentos.

Apesar disso, essas condições não devem ser tratadas como sinônimos de incapacidade ou perda da masculinidade.

A disfunção erétil, por exemplo, é uma condição de saúde que pode ter diferentes abordagens terapêuticas. Da mesma forma, a incontinência urinária após a cirurgia merece avaliação individualizada e acompanhamento adequado.

O primeiro passo é reconhecer que essas dificuldades existem e que falar sobre elas não diminui ninguém.

Como a fisioterapia pélvica pode ajudar?

A fisioterapia pélvica é uma das possibilidades de tratamento para homens que apresentam alterações urinárias após a cirurgia de próstata.

O acompanhamento começa com uma avaliação individualizada e personalizada que considera as queixas, o histórico clínico, o funcionamento da musculatura do assoalho pélvico e as necessidades de cada paciente, de forma humanizada.

A partir dessa avaliação, o fisioterapeuta pode estabelecer estratégias que incluem:

  • Treinamento dos músculos do assoalho pélvico, para melhorar a coordenação e a função muscular.
  • Orientações sobre o controle urinário e os hábitos miccionais.
  • Biofeedback, quando pertinente, para auxiliar na percepção e no treinamento muscular.
  • Acompanhamento da evolução dos sintomas e ajustes no plano terapêutico.

O tratamento não se resume a realizar exercícios de contração. É necessário compreender as características da disfunção e definir uma abordagem adequada para cada caso.

Em relação à função erétil, a avaliação e o tratamento também devem considerar as particularidades de cada paciente, podendo exigir uma abordagem multidisciplinar em conjunto com o urologista e psicólogo.

Sempre que possível, a preparação fisioterapêutica antes da cirurgia e o acompanhamento no pós-operatório devem ser discutidos com a equipe responsável pelo tratamento.

Falar sobre a experiência também pode fazer parte da recuperação

Não é necessário transformar uma experiência íntima em um assunto público. Cada homem tem o direito de decidir com quem deseja compartilhar sua história.

Entretanto, encontrar alguém de confiança para conversar pode ajudar a diminuir a sensação de isolamento e facilitar o acesso a informações relevantes.

Um amigo que passou pela mesma cirurgia, um familiar, o parceiro ou a parceira, um grupo de apoio ou um profissional de saúde podem oferecer espaços diferentes de acolhimento.

Para quem deseja apoiar um homem que passou pela cirurgia, algumas atitudes fazem diferença: ouvir sem pressionar, não fazer brincadeiras sobre suas dificuldades, respeitar sua privacidade e não minimizar o que ele está sentindo.

Às vezes, uma pergunta simples — “Como você está se sentindo depois da cirurgia?” — pode abrir espaço para uma conversa que ele ainda não conseguiu iniciar.

Cuidar da saúde também é uma forma de exercer a masculinidade

A cirurgia de próstata pode provocar mudanças importantes, mas essas mudanças não definem o valor de um homem, sua identidade ou sua capacidade de manter relacionamentos e uma vida significativa.

A recuperação envolve aspectos físicos, emocionais e sociais. Por isso, o cuidado não deve se limitar ao procedimento cirúrgico: é importante olhar também para as dificuldades que surgem depois dele.

Falar sobre a perda urinária, a função sexual e os desafios do pós-operatório não é sinal de fraqueza. É uma maneira de reconhecer as próprias necessidades e buscar caminhos para recuperar a qualidade de vida.

O homem não precisa enfrentar a recuperação sozinho.

Se você passou por uma cirurgia de próstata e apresenta perda urinária ou outras dificuldades relacionadas à recuperação, procure orientação profissional. Existem estratégias de cuidado que podem ajudar você a retomar sua rotina com mais segurança e confiança.

Henrique Ferrarezi – Fisioterapeuta Pélvico

Crefito 4/311271-F

Centro de Fisioterapia Pélvica do Vale do Aço – Ipatinga

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