
Quando uma dor no “pé da barriga” pode ter outra origem — por que diferenciar as causas é tão importante
“Doutora, estou sentindo uma dor aqui no pé da barriga.”
Essa é uma frase bastante comum no meu consultório ginecológico. Quando uma mulher sente uma dor na parte inferior do abdômen, é natural que pense primeiro em algum problema relacionado ao útero, aos ovários ou ao próprio ciclo menstrual.
Mas existe um detalhe importante: a região pélvica reúne diferentes órgãos, de diferentes sistemas. Por isso, uma dor sentida no mesmo lugar pode ter origens completamente distintas.
Pode ser ginecológica, mas também pode ser urinária, intestinal, relacionada à musculatura do assoalho pélvico ou, ainda, ter mais de uma causa ao mesmo tempo!
É justamente por isso que nem toda dor no “pé da barriga” significa um problema ginecológico. E a parte mais difícil é convencer a mulher disso! (risos)
Sabe qual é o fator mais comum diagnosticado quando eu excluo as causas ginecológicas? O intestino. Constipação intestinal, excesso de gases, distensão abdominal e alterações no funcionamento intestinal podem provocar desconforto e dor na parte inferior do abdômen.
Quando o trânsito intestinal fica mais lento, as fezes permanecem por mais tempo no cólon e podem ficar mais ressecadas e difíceis de eliminar. Além disso, o acúmulo de gases também pode provocar distensão, sensação de pressão, cólicas e desconforto.
Algumas mulheres percebem que a dor melhora depois de evacuar ou eliminar gases. Outras relatam barriga estufada, sensação de evacuação incompleta ou períodos alternados de prisão de ventre e diarreia.
A Síndrome do Intestino Irritável é outro exemplo de condição que pode provocar dor abdominal associada a alterações do hábito intestinal, gases e distensão.
Mas isso não significa que toda mulher que sente dor pélvica e está com o intestino preso tenha uma doença intestinal. Significa que o intestino, assim como outros órgãos e patologias, precisa fazer parte do raciocínio quando se busca a origem daquela dor.
Mas como saber se a dor é ginecológica ou não?
Uma anamnese detalhada consegue responder. Perguntas sobre se a dor aparece ou piora durante a menstruação, se existe relação com as evacuações ou se a dor melhora depois de ir ao banheiro são fundamentais, entre tantas outras. Além disso, sintomas como febre, vômitos e sangramento anormal devem ser investigados.
Essas informações ajudam o médico a construir o chamado diagnóstico diferencial — ou seja, considerar diferentes possibilidades antes de definir qual é a causa mais provável.
A avaliação da dor pélvica envolve história clínica detalhada, exame físico e, quando necessário, exames complementares. Dependendo dos sintomas, pode ser necessária a participação de profissionais de outras áreas, como gastroenterologia, urologia ou fisioterapia pélvica.
E quando a causa é realmente ginecológica?
Também são muitas as possibilidades, e precisamos fazer o diagnóstico diferencial entre endometriose, miomas, adenomiose, doença inflamatória pélvica e alterações ovarianas, entre outras condições que podem provocar dor pélvica.
A endometriose merece atenção especial porque pode apresentar sintomas intestinais e urinários, principalmente quando relacionados ao período menstrual. Ou seja, uma mulher com endometriose pode ter sintomas que parecem “do intestino”, o que mostra como nem sempre é simples separar completamente uma causa da outra.
Da mesma forma, uma mulher pode ter uma condição ginecológica e também apresentar alterações urinárias, constipação ou Síndrome do Intestino Irritável.
A localização da dor não determina, sozinha, a sua origem. Antes de concluir que “é apenas cólica”, “é o intestino preso” ou “é alguma coisa no ovário”, vale observar o próprio corpo e procurar avaliação médica quando a dor persiste, se repete ou foge do padrão habitual.
Cuidar da saúde também é aprender a ouvir os sinais do corpo sem tentar, sozinha, encontrar todas as respostas.
Afinal, na medicina, entender de onde vem a dor é tão importante quanto tratá-la.
Autoconhecimento é um ato de amor e cuidado.
Referências científicas
American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). (2020). Chronic pelvic pain: ACOG Practice Bulletin No. 218. Obstetrics & Gynecology.
American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). (2025). Chronic pelvic pain. ACOG Patient Education.
American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). (2025). Problems of the digestive system. ACOG Patient Education.
American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). (2026). Diagnosis of endometriosis: ACOG Clinical Practice Guideline No. 11. Obstetrics & Gynecology.
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