
No dia 22 de maio de 2023, perdi o meu maior referencial profissional, professor e mentor: meu amado e saudoso pai, o Sr. José Roberto Barbosa. Como o calendário marca o período de sua partida, não posso deixar de usar este espaço para prestar uma justa homenagem póstuma àquele que fez a liderança parecer algo possível, humanizado e fácil, provando que o homem dito comum é também extraordinário se olhamos sua trajetória de vida.
Há quem diga no meio corporativo que tudo na vida pode ser treinado. Eu acredito nisso. Mas a maestria que meu pai alcançava na sua atividade não vinha de manuais ou de treinamentos de recursos humanos; vinha de uma atitude antifrágil, de uma decisão inabalável de fazer melhor e de mantras que ele carregava como estilo de vida. Ele sempre repetia: “Só existe uma forma de se fazer algo: é fazer certo”. E complementava: “Se você não consegue fazer bem-feito com pouco, não fará com eficiência quando tiver muito”.
Meu pai atuou a vida inteira em um único setor: a indústria de impressos gráficos. Começou no nível mais baixo e chegou à gerência. Eu cresci entre máquinas de impressão antigas e novas; aquele ambiente, para mim, era um parque de diversões. Até hoje, nas tantas cidades que visito na minha rota, quando passo perto de uma pequena gráfica e ouço o barulho das máquinas combinado ao cheiro da tinta, sinto uma sensação de bem-estar e saudade. Ali, eu vi a administração de empresas acontecer na prática — uma aula que faculdade nenhuma é capaz de me ensinar.
A Escola dos Bastidores e a Arte de Observar
O Sr. José Roberto era um homem profundamente observador e inteligente. Desde pequeno teve que trabalhar duro para ajudar em casa, pois perdera o pai na pré-adolescência, época em que os sonhos começam a surgir na mente. Esta dificuldade precoce o impossibilitou de seguir estudando formalmente na escola por longos períodos, atividade que era seu grande desejo. O mais interessante é que ele nunca reclamou; fez do seu trabalho seu ensino médio, sua faculdade e seu mestrado.
Lembro-me de que, quando eu o acompanhava até a empresa, ele estava sempre lendo um jornal ou uma revista. Mais tarde, ele me confessou que, na juventude, era muito tímido. Sua virada de chave veio da capacidade de observar os patrões e os vendedores das empresas pelas quais passou. Ele percebeu que todos os homens de sucesso que conhecia compartilhavam pontos em comum: domínio do relacionamento interpessoal, comunicação assertiva e saber negociar. Resumindo: todos eles eram, essencialmente, vendedores.
Nessa jornada de observação, ele conviveu de perto com dois perfis de vendedores natos que moldaram sua visão de mercado: o Vitor e o Rezende.
O Vitor era o vendedor “raiz”. Alto, falante, agressivo nas vendas. Quando entrava em um recinto, todos sabiam que ele havia chegado. Tinha uma capacidade ímpar de ler situações e pessoas: captava as reais intenções dos compradores num piscar de olhos, criava propostas personalizadas e dominava o ambiente.
Já o Rezende era o oposto complementar: técnico, refinado, mas igualmente letal nas vendas. Ele se portava com tanta postura de dono que muitos clientes de grandes corporações achavam que ele era o proprietário da empresa. Foi com o Rezende que meu pai aprendeu que venda é relacionamento, escuta ativa, posicionamento e visão de ganha-ganha.
O Rezende indicou ao meu pai um livro que mudaria sua forma de interagir com o mundo: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie. Meu pai leu aquela obra várias vezes quando jovem e pôde absorver na prática, com seus amigos e colegas, o que a teoria acadêmica muitas vezes falha em traduzir. Ele descobriu cedo que as empresas são escolas altamente eficientes para quem tem olhos para ver e disposição para aprender.
O Maestro da Sinfonia
Munido desse repertório humano, vi meu pai liderar no chão de fábrica sem grandes esforços, sempre próximo à equipe e nunca atrás de uma mesa. Tudo o que ele pedia e orientava, ele era capaz de realizar. Pensava sempre na forma mais eficiente possível, focando na satisfação do cliente e extraindo o melhor do funcionário com respeito, olho no olho e exemplo.
Ele sabia se relacionar com a diversidade real. E quando digo diversa, era de verdade: sua equipe unia desde jovens aprendizes que estavam descobrindo a vida a profissionais sessentões, já aposentados, mas na ativa. Sob a batuta dele, todos produziam dando o seu melhor, operando em harmonia, como uma verdadeira família.
Ele liderava com firmeza, mas com um respeito inegociável ao próximo. Seu papel como gestor era provocar o ambiente favorável, convencer pelo argumento, esclarecer as dúvidas, ensinar com paciência e desenvolver todos à sua volta. Meu pai geria recursos e pessoas como o maestro de uma sinfonia, onde cada instrumento tinha seu valor único.
Quando voltávamos para casa, ou quando os comerciantes iam até a gráfica, eu via aqueles homens falando descontraidamente com ele. Nem parecia que estavam negociando. A discussão de valores, prazos e quantidades fluía com leveza, porque era fruto do ambiente confiável que meu pai e sua equipe produziam. Por conta disso, ele era, informalmente, o conselheiro de seus amigos, patrões e colegas de trabalho. Era o verdadeiro “guru” da turma, sempre com uma orientação boa para dar sem pedir nada em troca.
O aprendizado de pai para filho
Pude ver um lado dele que poucos filhos têm a oportunidade de testemunhar. Trabalhar ao lado do meu pai foi uma honra, um privilégio e um ensinamento diário. Como pai, eu já o admirava e me espelhava nele, mas conhecer o profissional foi motivo de ainda mais orgulho. Sou profundamente grato por esses anos em que pude viver essa experiência.
O mais interessante é que, ainda pequeno, percebi exatamente o mesmo que ele: ao conviver com seus amigos e observá-lo negociando e convencendo sua equipe com uma habilidade ímpar, entendi que tanto ele quanto seus pares eram bem-sucedidos porque, antes de tudo, vendiam com eficiência. Eles faziam o complexo parecer simples e natural.
Sempre admirei essa característica das pessoas de sucesso. E foi olhando para o meu pai, o maestro do chão de fábrica, que o meu próprio destino se desenhou. Desde pequeno, vendo a naturalidade com que ele transformava relações em valor, eu já sabia o que queria ser: eu seria um vendedor.
Aprender com quem faz, faz bem-feito e com amor, sem a necessidade moderna de “sinalizar virtudes” ou buscar aplausos vazios, foi a maior herança que ele me deixou. Suas lições continuam vivas em cada rota que faço, em cada cliente que atendo, na minha vida pessoal e em cada linha que escrevo.
Obrigado por tudo, meu pai.
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