
TRANSTORNO DE APEGO DIGITAL
Agora já tem nome o relacionamento com as máquinas que possuem um coração que hoje chamamos de IA: transtorno de apego digital.
Lembro-me de um filme de 2014, Her (Ela, em português), no qual o solitário escritor Theodore desenvolve uma relação de amor com o novo sistema operacional do seu computador. Ele se apaixona pela voz do programa, uma entidade intuitiva e sensível chamada Samantha, mas se frustra profundamente no final ao perceber o que o seu apego infantilizado o impedia de enxergar: ela mantinha milhões de outros relacionamentos simultâneos. Ele se sentiu traído, ferido e descartável.
O filme era uma crítica ao isolamento — um isolamento que, contudo, tem aumentado continuamente. A inteligência artificial é apenas um sistema operacional, mas prevalece, hoje é aceita e, muitas vezes, estimulada. Pessoas estão se relacionando e firmando alianças emocionais como se a máquina fosse outra pessoa. Onde vamos chegar?
Além de denunciar o isolamento social na era da informação, o texto faz a denúncia de um desejo irracional do nosso coração: a busca por um parceiro perfeito. Quando crianças, acreditávamos por um tempo que nossos pais eram perfeitos. Nós nos frustramos, mas não amadurecemos. Crescemos em busca de um par idealizado — e a IA oferece exatamente isso.
A crítica não é à tecnologia, mas ao (mau) uso que fazemos dela desde o princípio e à nossa fuga da necessidade de abandonar as fantasias infantis e os esquemas desadaptativos originados na infância. É a recusa em encarar as frustrações para viver como adulto e pagar o preço real de um relacionamento e de uma vida social.
Sim, toda relação tem um custo, inclusive a digital. Afinal, sem internet, sem energia elétrica e sem um ambiente planejado, essa relação nem sequer acontece. Mas convenhamos: é muito “barato” se relacionar com uma máquina que você mesmo treinou segundo as suas carências e necessidades emocionais infantis.
Vale lembrar que essa é uma escalada. O degrau anterior — ainda muito frequente — são os relacionamentos virtuais, nos quais o envolvido insiste em convencer o cônjuge de que não há traição, argumentando: “Eu nunca estive com essa pessoa pessoalmente, logo você é quem é doente de ciúmes e insegurança”. Segue assim virando o jogo, como uma criança pega depois de derramar o leite no tapete, mas que insiste que não foi ela.
Acreditem em mim: hoje chamam de transtorno o fato de você se relacionar afetivamente com uma máquina. A orientação é buscar tratamento, considerar a importância do convívio social e tentar se relacionar com uma pessoa de carne e osso, com todas as naturais diferenças biológicas e culturais que vêm com isso, aprendendo a dialogar sem a intenção de ganhar ou perder. No entanto, daqui a poucos anos, será proibido chamar essa “escolha” de transtorno. Se você está passando por isso, aproveite para se tratar agora, porque daqui a pouco será proibido enxergar isso como um problema — e quem insistir será rotulado de preconceituoso.
A relação humana é cara, mas vale a pena. Com o pai, com a mãe, com o cônjuge e com os filhos. O relacionamento leva tempo para se tornar prazeroso no sentido emocional e de continuidade. Porém, sem esse custo investido, estaremos sempre em fuga da nossa própria solidão, culpando os outros por nossa frustração.
O transtorno é de apego. O apego é humano. O humano é imperfeito. Se a imperfeição declarada me conduzir à humildade, poderei buscar saúde nesse apego — oferecendo em vez de exigindo, compartilhando em vez de competindo.
Tenha saúde na sua alma. Tenha saúde nos seus relacionamentos.
“Onde está o seu tesouro, ali também estará o seu coração.”
Cleydemir Santos é Psicólogo Sistêmico, terapeuta de casais, especialista em Psicodrama e Terapia do Esquema.
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