O AMOR E SUAS SOBRAS

Por 01/10/2025No Comments4 min de leitura
O que e familia para voce Projeto Criancas Musica e Valores

Sou terapeuta de casais e, a cada dia, me surpreendo com o quanto o mundo das relações humanas — especialmente as amorosas — é enigmático. Cada vez mais pessoas estão abandonando suas escolhas e buscando novas possibilidades de ser feliz. Raramente, muito raramente, alguém termina um casamento e permanece só. Normalmente, termina e já parte, quase desesperadamente, em busca do par ideal, a quem novamente prometerá amar para sempre.

Amo um texto de Stephen Kanitz quando comemora 30 anos de casamento – hoje ele tem 51 anos com a mesma esposa – quando ele diz:

Eu sei que fatalmente encontrarei dezenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em meu futuro”.

FAMILIA

É muito importante compreender isso. Precisamos fazer o melhor com o relacionamento real que temos, em vez de sair em busca da fantasia de uma pessoa perfeita. Quero refletir sobre duas coisas que contribuem para que esse amor — tão desejado e carregado de emoções — perdure.

Em primeiro lugar, é necessário investir mais nas pessoas do que nas coisas. Vivemos uma época em que somos constantemente cobrados a amar nossa profissão, ter alta performance e manter uma excelente reputação. Para isso, nos desdobramos entre redes sociais, academias e compromissos, enquanto esquecemos de cuidar de quem realmente importa: nosso cônjuge. Muitas vezes, acabamos atendendo a demandas sociais e culturais que nos enxergam apenas como consumidores, prontos para comprar mais um pacote milagroso de felicidade.

Ame a pessoa que você escolheu como prioridade — não com o que sobra do seu tempo, mas com intenção e presença. Ame-a mais do que ama as coisas que vocês conquistaram juntos.

Em segundo lugar, vejo muitos pais excessivamente apegados aos filhos, muitas vezes porque estão frustrados com o cônjuge. Quero afirmar com toda certeza: os filhos vivem muito melhor com as “sobras” do amor que veem entre os pais do que com todo o amor que uma mãe ou um pai dedica apenas a eles.

Você precisa amar seu cônjuge mais do que ama seu filho. Não estou defendendo o abandono — longe disso. Estou dizendo que, às vezes, você pode estar distribuindo mal sua energia afetiva. Quem direciona mais amor ao filho do que ao cônjuge corre o risco de dificultar o caminho da maturidade desse ser humano. Isso porque amadurecer envolve enfrentar a frustração de descobrir que não somos o centro do mundo — e, de fato, não somos.

A criança que cresce sendo tratada como o centro de tudo, um dia percebe que esse “tudo” era apenas a projeção da carência emocional de uma mãe ou de um pai que não conseguiu se alinhar afetivamente em seu relacionamento. E convenhamos: amar uma criança é muito mais fácil do que amar um adulto.

Amor não é algo que deve sobrar. Amor precisa ser direcionado com carinho e bom senso — tanto nos momentos de prazer quanto nos dias em que a relação parece mais pesada. Não desista da sua família. Busque ajuda para o seu relacionamento. Insista em amar seu cônjuge, valorizando quem ele é, mais do que aquilo que você idealizou que ele fosse. Ame seu filho, e que esse amor seja um estímulo para o crescimento — com firmeza e ternura.

Cleydemir Santos é Psicólogo Clinico.

Especialista em Terapia Sistêmica, Psicodrama e TCC.

31.99515-2348

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