
Terminando o mês da família, cabe uma reflexão, e as reflexões trazem memórias. Outro dia falei com uma mulher que tem família: marido, filhos, saúde para estudar e trabalhar. Ela me perguntou como encontrar prazer na vida, uma vez que o seu único prazer é comer. Fiquei imaginando quanta gratidão falta em nós. Gratidão e responsabilidade, e como essas duas palavras são uma escolha que traz equilíbrio à vida.
Quem tem dois filhos tem motivos de sobra de gratidão tanto quanto de responsabilidade. Quem tem filhos e cônjuge tem “obrigação de ser feliz”, para servir de segurança e modelo para os filhos. Vejo que falta maturidade — pensar como gente grande. Porque, para uma criança, tudo o que vem de responsabilidade será visto como castigo, e não como prazer. Vocês que têm crianças não podem ser crianças. Têm que descobrir o prazer de servir, de cuidar, de amar, de educar, de exortar. E descubro que toda palavra sagrada que os filhos recebessem deveria passar pela palavra dos pais. E que a palavra dos pais deveria ser sagrada. Infelizmente, outras palavras têm sido mais sagradas que as dos pais.
C.S. Lewis conta sobre um convite para um almoço que ele ia rejeitar, mas um dos filhos da casa lhe sussurrou aos ouvidos: “Pelo amor de Deus, fique para o almoço se eles te convidarem. É um pouco menos assustador quando temos visitas”. Curioso, ele ficou e observou melhor o tal almoço. Aquele pai se irritava quando os filhos emitiam opinião; a mãe se fazia de vítima; a filha agia com ironia; e o pai e o filho, ignorando-se mutuamente, começaram a falar com o visitante. Ele faz uma observação interessante sobre isso: a caridade começa em casa; a ausência dela também. Depois, ele nos dá duas dicas que gostaria de aplicar para nós:
Parem de contar mentiras sobre a vida no lar. Aplicando à nossa realidade: sejam verdadeiros e busquem ajuda para suas dificuldades. Vocês que são jovens e narram a vida via Instagram para todos saberem, contem a verdade. Os menores na casa a sabem. Desde a queda, em Gênesis 3, o lar e todas as instituições humanas — inclusive a igreja em sua parte meramente humana — têm dificuldade de seguir um caminho reto e santo. Precisamos de redenção.
Erroneamente achamos que o lar é o lugar onde “podemos ser nós mesmos”, menosprezando o que é indispensável às relações sociais. O que um menino precisa ter em relação ao seu professor e aos seus colegas? O que um trabalhador precisa ter na relação com seus pares e subordinados? Respeito? Sim, mas, sendo didático, a resposta é: educação. “O que distingue a conversa doméstica da conversa pública é, com frequência, a grosseria. (O que distingue o comportamento doméstico costuma ser o egoísmo, a negligência, a incivilidade e até mesmo a brutalidade). Caso praticassem em outros lugares o único comportamento que agora consideram natural, eles seriam simplesmente destroçados. Muitas pessoas desejam pouco mais na vida do que ser tratadas pelo cônjuge como ele trata os estranhos.” Trate seu cônjuge como um estranho. Seja grato e educado.
Você só pode ser “você mesmo” quando já não for você mesmo, mas for grato e responsável em sua vida familiar. Sua casa não é um boteco de bêbados onde você pode falar a bobagem que quiser porque só tem bêbado lá e ninguém está nem aí para você. Suas palavras são importantes. Sua casa não é uma zona onde você pode ver tudo o que quiser na sua televisão só porque é você quem paga. Aqui vamos nós de novo falando de responsabilidade.
Este autor sugere ainda que, para que o lar seja um meio de graça, ele deve ser um lugar de regras. Sem elas, o que se tem não é liberdade, mas uma tirania inconstitucional (e muitas vezes inconsciente) do membro mais egoísta. Assino embaixo!
Cleydemir Santos é Psicólogo Sistêmico, Terapeuta de Casais. É especialista em TCC – Terapia Cognitivo-comportamental e em Psicodrama.
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