
Hoje encontrei alguém que perdera um bichinho de estimação. Depois da perda, percebeu a importância daquela companhia de carinho tão espontâneo. Há quem não entenda, mas é um luto a ser respeitado.
Acompanho também outras duas famílias do meu convívio que estão perdendo entes queridos — pessoas amadas que estão partindo. Quanta dor!
A dor faz parte da cura. A morte faz parte da vida. Um ciclo que nunca aceitamos totalmente, mas que precisamos, minimamente, compreender.
No filme “As Três Filhas” (Netflix), um homem em estágio terminal, em tratamento paliativo, observa em silêncio o sofrimento de cada uma das filhas diante da luta que ele enfrentava no estágio final da doença.
De fato, a batalha maior não era dentro do quarto, mas dentro de cada uma daquelas mulheres. Uma delas já era mãe, outra lutava contra uma dependência química e a terceira parecia não ter nenhum problema na vida. Parecia.
Os fantasmas, as culpas, os medos e as distâncias que criaram entre si e com o pai aumentavam a dor. A filha que cuidava daquele homem nos últimos anos era adotiva — e carregava os seus próprios fantasmas — e, paradoxalmente, não conseguia entrar no quarto nos últimos dias.
A morte é um mistério. Desde que o pecado foi nomeado, a morte veio de carona. Tenho a impressão de que a dificuldade que temos para aceitar a morte é a mesma que temos para aceitar que somos pecadores.
“Pecadores têm que morrer; nós, os perfeitos, devemos prolongar a vida até a eternidade. A mãe amorosa não deveria morrer. A criança inocente não merece isso. Eu, que sofri tanto, deveria ser curado.”
Mas a morte não seleciona. Não discrimina. Perfeitos ou imperfeitos, pecadores ou santos, jovens ou velhos — todos somos iguais diante dela.
Mistério.
A vida também é mistério.
Quantos úteros férteis com geladeiras vazias, e quantos cofres cheios com úteros inférteis?
Quem explica a vida? Quem a controla? Não somos nós.
Vida e morte fazem parte do mesmo cenário, que às vezes se parece com uma peça romântica e, em outras, com um samba do crioulo doido.
Mistério.
Como é mistério também a família — o encontro de um homem e uma mulher.
Paulo, ao falar sobre essa relação na carta aos Efésios, usa a palavra mistério.
Ele nos convida a refletir sobre outra relação além de homem e mulher: Cristo e a Igreja.
O símbolo do amor eterno encarnado no que há de mais humano e imperfeito — a Igreja, lugar da mistura, da comunhão, da igualdade entre pecadores.
Igreja são famílias agrupadas.
É nesse contexto de busca pelo perfeito que a morte chega antes da perfeição.
E se demorar muito a chegar, somos vencidos pelo tempo — e pelas rugas, que também depõem contra a perfeição.
Que a morte venha.
Que seja aceita e celebrada com o choro e a dor que traz consigo.
E que, em seguida, num ciclo de saúde, de mansinho, a alegria renasça, e a esperança se misture com a saudade nos recomeços.
Que venha a dor, mas que traga consigo a cura.
Que venha a morte, mas que celebremos, por causa dela, cada dia de vida.
Terminando o spoiler do filme que citei: o pai só partiu depois que aquelas três filhas se reconciliaram e entraram juntas no quarto.
Atentemos, então, para o valor que tem cada pessoa à nossa volta.
Se o cachorrinho fez tanta falta à minha amiga, imagine uma pessoa?
E valor depois da morte não tem valor.
Valorize hoje. Ame hoje.
Não adie o abraço, o beijo, a declaração de afeto.
Adiante o perdão — e tenha coragem de pedi-lo!
Mistério maior que a vida e a morte é viver bem o intervalo entre elas.
Cleydemir Santos
Psicólogo, terapeuta de casais
📞 (31) 99515-2348






