
Como temos feito desde o início deste ano em nossa coluna semanal, o nosso encontro de hoje traz mais um momento de reflexão e esclarecimento. Nossa proposta contínua é desmistificar diagnósticos, abordando a cada semana um transtorno ou síndrome diferente, porque acredito firmemente que a informação é a base de uma educação verdadeiramente transformadora. Hoje, vamos focar as nossas atenções em um quadro que afeta silenciosamente muitos dos nossos alunos: o Transtorno de Ansiedade Generalizada, amplamente conhecido como TAG.
O TAG é um transtorno de saúde mental caracterizado por uma preocupação excessiva e persistente com uma variedade de eventos ou atividades do cotidiano. Diferente daquela ansiedade pontual que sentimos antes de um evento importante, a ansiedade no TAG está presente na maior parte do tempo e não se restringe a uma única situação. Para quem convive com o transtorno, essas preocupações abrangem desde a saúde e os relacionamentos até o desempenho acadêmico ou problemas financeiros. O grande desafio é que a pessoa tem uma dificuldade imensa em controlar ou interromper essa espiral de pensamentos, mesmo quando consegue reconhecer que eles podem ser irracionais.
Como o TAG se manifesta em crianças e adolescentes?
Na minha vivência prática no Atendimento Educacional Especializado (AEE), observo que, no universo infantojuvenil, essa preocupação assume contornos muito específicos. A ansiedade é frequentemente projetada para o futuro, focada no que pode dar errado. Para ajudar famílias e educadores a ligarem o “sinal de alerta”, destaco alguns dos exemplos e comportamentos mais comuns:
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Perfeccionismo paralisante e autocrítica: é aquele aluno que apaga uma palavra pela décima vez até o papel do caderno ficar visivelmente desgastado ou quase rasgar, com os nós dos dedos tensos ao segurar o lápis. O medo de errar, de não ser perfeito, causa um isolamento mental doloroso mesmo em uma sala de aula cheia;
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Busca constante por validação e reasseguramento: a criança ou o adolescente faz perguntas repetitivas para garantir que está tudo bem. Frases como “Você tem certeza que eu fiz certo?”, “E se eu não conseguir?” ou “Você promete que vem me buscar na hora exata?” são constantes;
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Queixas físicas (Somatização): o sofrimento mental vira dor física. É muito comum a criança apresentar dores de barriga, náuseas ou dores de cabeça frequentes, especialmente aos domingos à noite ou manhãs antes da escola, o que muitas vezes leva à recusa escolar;
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Preocupações desproporcionais com a segurança: um medo excessivo e irracional de que algo de ruim aconteça com os pais (como acidentes ou doenças), ou uma aflição desmedida com notícias de jornais e tragédias mundiais, trazendo um peso incompatível com a idade;
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Inquietação e alterações no sono: a dificuldade de “desligar” a mente faz com que a criança demore a dormir (insônia) ou tenha um sono agitado. No dia seguinte, isso se traduz em fadiga crônica, irritabilidade e grande dificuldade de concentração nas aulas.
O peso do Bullying, Cyberbullying e do Cancelamento no desenvolvimento do TAG.
Um ponto crucial que precisamos destacar em nossa reflexão é o impacto das relações sociais na escola e, de forma inseparável nos dias de hoje, no ambiente virtual. Crianças e adolescentes que são alvos sistemáticos de bullying, cyberbullying ou vítimas do temido “cancelamento” têm uma probabilidade muito maior de desenvolver o TAG.
A vivência constante de hostilidade, humilhação ou exclusão destrói a sensação de segurança do aluno. Com o cyberbullying, a agressão ultrapassa os portões da escola e invade o refúgio do lar, fazendo com que a tela do celular se torne uma fonte ininterrupta de angústia. O “cancelamento”, por sua vez, instaura um medo paralisante de cometer qualquer erro e ser sumariamente banido do convívio social. O cérebro dessa criança ou jovem passa a operar em um estado de alerta contínuo para tentar se defender de agressões reais e virtuais, alimentando diretamente a espiral da ansiedade. O que deveria ser um ambiente de acolhimento, aprendizado e socialização, transforma-se em um campo minado que não dá tréguas.
O aluno muitas vezes passa a evitar situações cotidianas percebidas como estressantes, mesmo que essa esquiva traga sérios prejuízos ao seu aprendizado. A intensidade de tudo isso afeta negativamente a qualidade de vida, os relacionamentos e o desempenho escolar.
Por isso, no ambiente educacional, não podemos fechar os olhos. O acolhimento precisa ser empático, entendendo que o estudante não está apenas “desatento” ou “fazendo manha”, mas lutando uma batalha interna exaustiva.
O tratamento adequado é fundamental e devolve a qualidade de vida. Geralmente, envolve a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que auxilia a criança ou jovem a modificar padrões de pensamentos ansiosos e, em alguns casos, requer o acompanhamento médico para a prescrição de ansiolíticos ou antidepressivos. Se você nota esses sintomas de forma consistente em seu filho, em um aluno ou até em si mesmo, procurar ajuda profissional é o passo mais importante.
E você, que acompanha o nosso espaço semanalmente: já percebeu esses sinais de preocupação constante, ou notou como o bullying e o ambiente virtual têm adoecido nossas crianças e adolescentes? Como você costuma lidar com a ansiedade no dia a dia escolar ou familiar? Adoraria ler os seus comentários e saber um pouco mais sobre as suas experiências. Afinal, essa troca é o que enriquece a nossa jornada pela inclusão e por um olhar mais humano.
Um abraço muito carinhoso, uma semana de paz e leveza para todos nós, e até o nosso próximo encontro reflexivo!
Ligiane Santos/ Psicopedagoga
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