DA MÃE POLVO À BASE FORTE: POR QUE PRECISAMOS PARAR DE ROMANTIZAR A EXAUSTÃO NO DIA DA MULHER.

Por 09/03/2026No Comments5 min de leitura
DA MÃE POLVO À BASE FORTE: POR QUE PRECISAMOS PARAR DE ROMANTIZAR A EXAUSTÃO NO DIA DA MULHER.

Há exatamente um ano, neste mesmo espaço, escrevi sobre um tema urgente e doloroso: a necessidade de “Cuidar de quem cuida”. Naquela ocasião, refletindo sobre o Dia Internacional da Mulher, fiz um alerta sobre a solidão imposta às mães, destacando que:

“O peso se torna ainda maior para mães solos e mães de crianças atípicas, que enfrentam não apenas o machismo estrutural, mas também o capacitismo. O suporte, na prática, muitas vezes se limita a palavras vazias como ‘você é uma lutadora’, enquanto a mãe se vê cada vez mais sobrecarregada.”

Hoje, doze meses depois, revisito essa imagem de Raquel – nossa artista Flora Manga – uma Super Mulher amiga, muito querida, guerreira, proativa e que muito me inspira nessa
jornada de maternar. Costumamos olhar para essa mulher como uma verdadeira “mulher-polvo”, uma figura polivalente, quase uma “4×4”, que desenvolve múltiplos tentáculos para dar conta de tudo: o trabalho, a casa, as demandas diárias, a via-crúcis das terapias e a educação dos filhos.

Aqui vale um parênteses importante e carinhoso: a Raquel, diferente de muitas mães que encaram essa jornada de forma solo, tem uma rede de apoio sólida de sua família dentro de casa. Ela também é casada com um publicitário, os quatro filhos foram muito desejados e planejados e o marido é um super parceiro que divide a criação dos filhos. Mas sabe o que é revelador? Mesmo com todo esse suporte, ela não escapa da exaustão. É o tal do machismo estrutural, que sutilmente coloca a mulher na cadeira de “administradora-geral” da família. A carga mental de gerenciar todas essas demandas ainda recai sobre algumas mulheres, tudo isso enquanto a sociedade exige que não deixe de lado a sua própria feminilidade. Mas a pergunta que se impõe hoje é: até quando precisaremos de tantos braços?

A educação e a inclusão são, historicamente, batalhas lideradas por mulheres. Nos corredores das escolas, nos hospitais, nas reuniões pedagógicas e nas frentes de luta por acessibilidade, a linha de frente é maternal. Quando o Estado falha e quando a figura paterna se ausenta — seja por fuga ou pela velha desculpa de “não ter suporte emocional” —, é a mãe polvo quem absorve o impacto.

Não podemos mais aceitar que a inclusão escolar e social dependa dos superpoderes de uma única mulher. O título de “guerreira” não paga as terapias, não garante o mediador na escola e não cura a exaustão mental.

No dia 08 de março é comemorado o Dia da Mulher e também o resgate da mulher polivalente, o que exige que saiamos do campo das homenagens poéticas e entremos no campo da ação. Como afirmei no ano passado, pequenos gestos fazem uma diferença colossal. Precisamos transformar a nossa admiração em:

  • Corresponsabilidade prática: o apoio verdadeiro não é apenas um tapinha nas costas. É o vizinho que ajuda, o colega que escuta sem julgamentos, a família que leva uma comida pronta ou fica com a criança para a mãe respirar;
  • Empatia escolar: professores e especialistas não devem ser apenas cobradores de resultados, mas sim facilitadores que acolhem a criança e abraçam a família, dividindo o peso da adaptação;
  • Desconstrução do “Lutar Sozinha”: mulheres precisam do direito de estarem cansadas e de falharem sem sentirem culpa.

A polivalência nos trouxe até aqui, e temos muito orgulho da nossa força e da nossa trajetória. Mas o futuro da educação inclusiva só será justo no dia em que não precisarmos mais ser polvos para garantir o básico aos nossos filhos.

Como escrevi há um ano, “mais do que uma rede de apoio, precisamos construir uma base forte, para que possamos nos sustentar”.

Que todos os Dias das Mulheres, lembremos que nenhuma jornada maternal — seja a da mãe solo atípica ou daquela que divide a rotina com um parceiro — deve ser vivida na solidão. O peso da sobrecarga nos aproxima, e a inclusão só acontece de verdade quando ninguém solta a mão de ninguém.

Vejo você na próxima edição!

 

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