
A FORÇA DO DIA INTERNACIONAL DA LIBRAS
A comunicação é a ponte primária que conecta o indivíduo ao mundo, permitindo a construção de afetos, o acesso ao conhecimento e o exercício pleno da cidadania. No entanto, para milhões de pessoas, essa ponte é construída não pelo som, mas pelo espaço, pelo movimento e pelo olhar. Celebrado no dia 10 de setembro, o Dia Internacional da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) surge como um marco fundamental de conscientização, visibilidade e afirmação de direitos da comunidade surda. Mais do que uma simples data festiva no calendário, o dia 10 de setembro nos convida a uma reflexão profunda sobre as barreiras atitudinais e comunicacionais que ainda persistem em nossa sociedade, reforçando que a inclusão verdadeira exige estrutura, respeito, empatia e acesso irrestrito à linguagem.
A escolha do dia 10 de setembro remete à fundação da World Federation of the Deaf (Federação Mundial dos Surdos), ocorrida em 1951, durante o primeiro Congresso Mundial de Surdos realizado em Roma. Este evento histórico estabeleceu as bases globais para a defesa das línguas de sinais e para o reconhecimento da cultura surda, que por séculos sofreu com políticas de apagamento e proibição de sua forma natural de comunicação.
No Brasil, essa trajetória de resistência culminou em vitórias legislativas cruciais: a Lei nº 10.436/2002, que reconheceu a LIBRAS como meio legal de comunicação e expressão, e Decreto nº 5.626/2005, que regulamentou a exigência da presença da LIBRAS no ensino, na formação docente e nos serviços públicos.
Existe ainda um grande mito de que a LIBRAS seria apenas a mímica do português ou um código simplificado de gestos. Na realidade, a Língua Brasileira de Sinais é uma língua viva, modal visual-espacial, dotada de estrutura gramatical, sintaxe e léxico próprios. Nela, a intensidade de um sinal, a orientação das mãos e, fundamentalmente, as expressões faciais e corporais determinam o sentido e o tom da mensagem.
Para a comunidade surda, a LIBRAS não é apenas um instrumento prático de troca de informações; é a sua língua materna, o pilar de sua identidade, o veículo primordial de seu pensamento e o símbolo de seu pertencimento cultural. Garantir o acesso à LIBRAS desde os primeiros anos de vida é assegurar direitos essenciais:
- Desenvolvimento cognitivo e social: permite que a criança surda construa seu pensamento e se comunique plenamente desde a infância, evitando o atraso de linguagem;
- Educação bilíngue de qualidade: assegura que o aluno surda aprenda primeiro a sua língua natural (LIBRAS) e, em seguida, o português na modalidade escrita.
- Autonomia e cidadania: viabiliza o atendimento sem intermediários na saúde, no judiciário e na vida pública;
- Inclusão profissional: rompe estereótipos no mercado de trabalho, valorizando competências e potenciais individuais.
Apesar dos avanços legais conquistados a duras penas, a realidade cotidiana ainda impõe desafios significativos. A escassez de intérpretes qualificados em hospitais, delegacias e salas de aula, aliada à falta de formação bilingue para a maioria dos educadores, revela que ainda temos um longo caminho a percorrer para transformar leis em práticas cotidianas.
A inclusão, contudo, não se constrói apenas no papel, mas nas atitudes diárias, na escuta atenta e no desejo genuíno de acolher o outro em sua singularidade. Quando nos dispomos a aprender ao menos o básico de LIBRAS ou exigimos acessibilidade nos ambientes que frequentamos, estamos afirmando que a voz da comunidade surda importa.
E você, caro leitor, qual tem sido o seu papel na construção de uma sociedade sem barreiras? Que neste 10 de setembro possamos renovar juntos o nosso compromisso com um futuro verdadeiramente inclusivo, acolhedor e bilíngue;onde cada mão que sinaliza encontre mentes e corações abertos para compreender.
Conto com a sua presença na nossa próxima edição, onde continuaremos juntos nesta caminhada de reflexão, aprendizado e transformação da nossa educação!
Um abraço afetuoso e até o nosso próximo encontro.
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