
Mesmo com alguns super-heróis já conhecidos pelo público infanto-juvenil no início do século passado, como Superman (1938), Batman (1939), Capitão América (1940) e Mulher-Maravilha (1941), além de vários personagens pulp como Tarzan (1912) e do bárbaro cimério Conan (1932), um grupo de super-heróis se tornou um divisor de águas neste universo pop, simbolizando a chegada de uma nova era nos quadrinhos: o Quarteto Fantástico.
Criado em 1961 por Stan Lee e Jack Kirby para a Marvel Comics, o Quarteto Fantástico, antes mesmo de X-Men, Vingadores e Homem-Aranha, foi o primeiro grupo de heróis que mesclaram conceitos de ficção científica, drama familiar e aventuras interdimensionais a personagens profundamente humanos nas HQs.

Imagem: Marvel Comics
Ao longo das décadas, o Quarteto atravessou gerações e foi adaptado em diversas mídias. Das páginas das HQs para séries animadas e adaptações cinematográficas, o grupo de super-heróis manteve-se como um símbolo da ousadia criativa da Marvel — mesmo com filmes que nunca atingiram o sucesso esperado. Nesta matéria, revisitamos a origem do grupo, os personagens que o compõem e as versões em outras mídias, incluindo o cinema, que marcaram, para o bem ou para o mal, sua presença na cultura pop.
UMA FAMÍLIA FORA DO COMUM
Desde sua criação nas HQs, o Quarteto Fantástico é formado por quatro cientistas e exploradores. A história oficial das HQs começa quando o cientista genial Reed Richards convence sua noiva Sue Storm, seu futuro cunhado impulsivo Johnny Storm e o amigo leal Ben Grimm a embarcar numa nave experimental. Durante o voo, são bombardeados por uma radiação cósmica que muda suas vidas para sempre. Ao retornarem à Terra, descobrem que ganharam poderes incríveis e irreversíveis.
OS PODERES
- Fantástico (Reed Richards): pode esticar o corpo como borracha e é um dos homens mais inteligentes do Universo Marvel.
- Mulher Invisível (Sue Storm): torna-se invisível e cria campos de força indestrutíveis.
- Tocha Humana (Johnny Storm): se inflama em chamas, voa e dispara rajadas de fogo. Sua frase de efeito é “Em chamas!” (versão em inglês: Flame on!).
- O Coisa (Ben Grimm): se torna uma criatura de rocha viva, com força sobre-humana e um coração maior que seus punhos. É o mais carismático do grupo. Sua frase de efeito é “Tá na hora do pau!” (versão em inglês: It’s clobberin ‘ time!).

Imagem: Marvel Comics
VILÕES DE PESO
O grupo enfrentou alguns dos vilões mais icônicos da Marvel:
- Doutor Destino, o arquirrival de Reed e um dos vilões mais complexos e carismáticos dos quadrinhos.
- Galactus, o devorador de mundos, e seu arauto Surfista Prateado.
- Mole Man, Annihilus, Namor, Skrulls e outros nomes de peso no lado mais cósmico da Marvel.
HQs MEMORÁVEIS (que recomendo!)
- Fantastic Four #1 (1961): onde tudo começou.
- A Vinda de Galactus (Fantastic Four #48–50, 1966): um dos maiores épicos da Marvel.
- Quarteto Fantástico por John Byrne (anos 80): fase clássica que aprofundou a dinâmica familiar e reinventou Sue Storm como uma verdadeira heroína de destaque.
- Marvels (1994), de Kurt Busiek e Alex Ross: revisita momentos marcantes, incluindo o impacto do Quarteto na cultura pop.
- Quarteto Fantástico por Mark Waid & Mike Wieringo (2002–2005): mistura ficção científica, emoção e muito estilo.
Mais do que superpoderes, o que sempre definiu o Quarteto é seu aspecto familiar: eles brigam, erram, se reconciliam — e, acima de tudo, permanecem unidos, sendo a representação máxima do conceito de família super-heróica.
DO PAPEL PARA AS TELAS NUMA PRIMEIRA VERSÃO BEM OBSCURA
Apesar de serem um dos pilares da Marvel Comics, com várias edições históricas de HQs muito bem-sucedidas nas últimas décadas, o Quarteto encontrou dificuldades em se firmar na TV e no cinema. Desde a década de 1990, várias tentativas de adaptação foram feitas — com níveis variados de sucesso e muitas controvérsias.
Antes de qualquer superprodução da Marvel ou dos efeitos em CGI, inclusive, houve uma adaptação que entrou para a história por nunca ter sido lançada oficialmente. Em 1994, uma obscura produção independente com orçamento estimado em US$ 1 milhão foi concluída com elenco completo, figurinos prontos, trilha sonora original e até trailer nos cinemas — mas jamais chegou ao público.
Produzida pelo lendário Roger Corman, mestre dos filmes B, essa versão do Quarteto foi criada por um motivo que nada tinha a ver com arte ou paixão pelos quadrinhos: evitar a perda dos direitos cinematográficos pela produtora alemã Constantin Film. Para cumprir uma cláusula contratual com a Marvel, bastava iniciar as filmagens antes do prazo — e foi exatamente o que fizeram, ainda que sem qualquer plano real de distribuição.
O mais irônico? Nem o elenco sabia disso. Os atores acreditavam estar protagonizando o primeiro grande filme baseado nos heróis da Marvel, e chegaram a dar entrevistas promocionais, comparecer a convenções e até gravar spots de TV.
Apesar de pronto, o filme foi engavetado — e muitos acreditam que a própria Marvel, então sob nova direção, tenha comprado os negativos para impedir o lançamento, temendo que uma versão de qualidade tão baixa manchasse a imagem de seus personagens.
Ainda assim, o filme sobreviveu. Cópias em VHS e depois em DVD pirata circularam por décadas, ganhando status de cult entre os fãs mais curiosos. Seu charme trash, os efeitos toscamente artesanais e a ingenuidade da produção o tornaram um capítulo fascinante (e embaraçoso) da história das adaptações de quadrinhos.
O filme pode ser assistido completo e totalmente legendado no Youtube (clique aqui para conferir por sua conta e risco!). Com atuações canastronas, efeitos sofríveis e um roteiro sem pé nem cabeça, o filme é recheado de pérolas, como os “braços de cabos de vassoura” do Sr. Fantástico, o poder de invisibilidade com “intangibilidade” de Sue Storm, as cenas bizarras de poder em 2D do Tocha Humana e até a troca da frase icônica do Coisa, nas legendas, para “Tá na hora da Torta (!)”.
QUARTETO FANTÁSTICO (The Fantastic Four, 1994)

Imagem: Marvel Studios
Direção: Oley Sassone
Roteiro: Craig J. Nevius e Kevin Rock
Elenco Principal: Alex Hyde-White como Reed Richards / Senhor Fantástico, Rebecca Staab como Sue Storm / Mulher Invisível, Jay Underwood como Johnny Storm / Tocha Humana, Michael Bailey Smith como Ben Grimm, Carl Ciarfalio como O Coisa (em traje de borracha), Joseph Culp como Victor Von Doom / Doutor Destino, Kat Green como Alicia Masters
Sinopse
Durante uma experiência científica mal-sucedida, quatro amigos são expostos a uma radiação cósmica que lhes concede superpoderes. Agora, como o Quarteto Fantástico, eles devem aprender a dominar suas habilidades e enfrentar a ameaça do maligno Doutor Destino, um antigo colega de faculdade de Reed Richards que planeja dominar o mundo.
Notas: IMDb: 3,8 – Rotten Tomatoes: 45% de aprovação do público
Curiosidades:
- Figurinos e efeitos de baixo orçamento: O filme tem efeitos especiais rudimentares e figurinos artesanais — o que aumentou seu status cult entre os fãs.
- Documentário sobre o caso: O curioso caso do filme foi tema do documentário Doomed! The Untold Story of Roger Corman’s The Fantastic Four (2015), que detalha toda a produção e o cancelamento misterioso.
- Nenhum dos atores conseguiu algum sucesso relevante após esta produção. Todos tiveram suas carreiras encerradas após a frustrante experiência.
AS NOVAS TENTATIVAS DE ADAPTAÇÃO NO INÍCIO DOS ANOS 2000
Após o filme “proibido” de 1994, o Quarteto Fantástico finalmente estreou nos cinemas de forma oficial em 2005, com produção robusta, distribuição da extinta 20th Century Fox e um elenco carismático. Dirigido por Tim Story, a nova versão apostou em um tom leve e acessível ao grande público, misturando aventura, humor e um toque de drama familiar, sendo apresentados como a “Primeira Família” da Marvel.
Com Ioan Gruffudd como Reed Richards, Jessica Alba como Sue Storm, Chris Evans como Johnny Storm (antes de assumir o escudo do Capitão América) e Michael Chiklis como Ben Grimm, o filme foi um sucesso comercial, arrecadando mais de US$ 330 milhões mundialmente. Já o vilão, Doutor Destino, foi interpretado por recentemente finado Julian McMahon, numa versão mais corporativa do clássico adversário.
Apesar das críticas mornas, especialmente por seu roteiro raso com um tom quase infantil, o filme marcou a entrada definitiva do grupo no universo dos blockbusters. Com efeitos visuais sólidos para a época e boas doses de química entre os atores, essa versão conquistou uma nova geração de fãs e serviu como porta de entrada ao universo Marvel antes da avalanche do MCU.
Dois anos depois, em 2007, o elenco original retornou para a sequência Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, novamente dirigida por Tim Story. Com um tom mais ambicioso e uma narrativa que flertava com o cósmico, o filme introduziu o icônico personagem Surfista Prateado, vivido por Doug Jones com voz de Laurence Fishburne — um dos destaques “massavéio” da produção.
A trama, inspirada livremente na clássica saga de Galactus dos quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby, acompanhava a chegada do arauto cósmico à Terra, alertando para a iminente destruição planetária. Contudo, o que prometia ser um épico espacial foi duramente criticado pela representação decepcionante de Galactus como uma nuvem cósmica sem forma definida — frustrando tanto fãs quanto críticos.
Ainda assim, o filme teve um bom desempenho nas bilheteiras, faturando cerca de US$ 290 milhões globalmente. Mas a recepção fria da crítica e do público impediu que uma terceira parte saísse do papel. A Fox então arquivou a franquia, abrindo espaço, anos depois, para o controverso reboot de 2015.

Divulgação: Marvel Studios
Mesmo com suas falhas, o segundo filme de 2007 trouxe elementos visuais mais ousados, ampliou o escopo da narrativa e, sobretudo, plantou a semente para a exploração do lado cósmico do universo Marvel nos cinemas — algo que só viria a florescer de fato com Guardiões da Galáxia e o próprio MCU anos mais tarde.
Numa revisitada aos longas, no início deste ano, percebi claramente como os críticos tinham razão: roteiros rasos, com personagens muito caricatos e uma história bem fraca, somente o Johnny Storm/Tocha Humana de Chris Evans consegue se sobressair nestas adaptações. Em comparação com a excelente animação Os Incríveis, de 2004, indiretamente inspirada no Quarteto Fantástico, e com o novo universo compartilhado da Marvel oficialmente iniciado com o Homem de Ferro, de 2008, percebe-se como estes filmes ficaram extremamente datados. Muitos podem lembrar destas adaptações com carinho pela nostalgia, mas com as inúmeras boas adaptações de super-heróis realizadas nos anos seguintes, nota-se claramente que o Quarteto realmente precisa de uma nova chance de brilhar nos cinemas.
QUARTETO FANTÁSTICO (Fantastic Four, 2005)

Divulgação: Marvel Studios
Direção: Tim Story
Roteiro: Mark Frost e Michael France
Elenco principal: Ioan Gruffudd (Reed), Jessica Alba (Sue), Chris Evans (Johnny), Michael Chiklis (Ben), Julian McMahon (Doutor Destino)
Sinopse: Após um acidente em uma estação espacial, quatro cientistas ganham poderes extraordinários e precisam enfrentar o arrogante Victor Von Doom, agora também transformado.
Notas: IMDb: 6,0 – Rotten Tomatoes: Aprovação de 27% da crítica e de 45% do público
Curiosidades:
- Esta foi a primeira “versão oficial” lançada nos cinemas.
- Chris Evans interpretaria anos depois o Capitão América no MCU.
- Embora criticado pelo tom muito leve, o filme foi um sucesso comercial, arrecadando mais de US$ 333 milhões mundialmente.
QUARTETO FANTÁSTICO E O SURFISTA PRATEADO (4: Rise of the Silver Surfer, 2007)

Divulgação: Marvel Studios
Direção: Tim Story
Roteiro: Don Payne e Mark Frost
Elenco Principal: mesmo elenco principal do anterior, com Laurence Fishburne dando voz ao Surfista Prateado
Sinopse: O grupo precisa impedir que o misterioso Surfista Prateado e seu mestre cósmico, Galactus, destruam a Terra.
Notas: IMDb: 5,6 – Rotten Tomatoes: Aprovação de 37% da crítica e de 51% do público
Curiosidades:
- Apresenta o icônico Surfista Prateado, um dos personagens mais filosóficos da Marvel.
- Teve boa bilheteria (US$ 302 milhões), mas críticas mornas impediram uma terceira parte.
- O visual de Galactus foi duramente criticado por fãs.
2015 – O REBOOT QUE NÃO DEU CERTO
Em uma tentativa de revitalizar a franquia e manter os direitos do Quarteto Fantástico, ainda sob o controle da finada 20th Century Fox, surgiu em 2015 um novo reboot que prometia uma abordagem mais sombria, científica e realista. Dirigido por Josh Trank (do elogiado Poder sem Limites, de 2012), o filme tinha tudo para ser o reinício moderno do grupo — mas acabou se tornando um dos mais notórios fracassos do gênero.
Com um elenco renovado e promissor, incluindo Miles Teller (Reed Richards), Kate Mara (Sue Storm), Michael B. Jordan (Johnny Storm) e Jamie Bell (Ben Grimm), a produção foi marcada por divergências criativas, reescritas de roteiro, e refilmagens extensas que alteraram profundamente o tom da história. O próprio Trank chegou a criticar publicamente o estúdio após o lançamento, revelando que sua visão original foi comprometida.
A trama focava na juventude dos personagens e numa dimensão paralela chamada Planeta Zero, de onde eles adquiriam seus poderes. O vilão Victor Von Doom, vivido por Toby Kebbell, foi repaginado de forma radical — e mal recebida. Com atmosfera mais sombria e introspectiva, o filme buscava inspiração em ficção científica clássica, mas acabou sofrendo com uma narrativa fragmentada, ritmo inconsistente e uma conclusão apressada.
O resultado? Fracasso de público e crítica. O longa arrecadou apenas US$ 167 milhões mundialmente, abaixo das expectativas, e foi massacrado pela imprensa especializada, com apenas 9% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes. Muitos o consideram uma das piores adaptações de HQs já feitas.
Esse revés selou o destino da franquia sob a Fox. Planos para uma sequência foram cancelados, e o Quarteto voltou ao limbo até que, anos depois, a compra da Fox pela Disney reacendeu a esperança dos fãs em ver uma versão fiel e grandiosa dos heróis no Universo Cinematográfico Marvel.
Minha opinião sobre esta versão? Prefiro assistir à versão malfadada de 1994, que pelo menos consegue arrancar algumas gargalhadas pela bizarrice dos heróis vestidos de cosplay. Neste longa, somente os primeiros 20 minutos oferecem algo interessante, mas a história descamba para algo inacreditável de ruim até o final. Não por acaso é relegado ao limbo reservado às piores adaptações de HQs da história.
QUARTETO FANTÁSTICO (Fantastic Four, 2015)

Divulgação: Marvel Studios
Direção: Josh Trank
Roteiro: Josh Trank, Simon Kinberg e Jeremy Slater
Elenco: Miles Teller (Reed), Kate Mara (Sue), Michael B. Jordan (Johnny), Jamie Bell (Ben), Toby Kebbell (Victor Von Doom)
Sinopse: Uma nova origem para os heróis: jovens cientistas ganham poderes ao viajar para uma dimensão alternativa e enfrentam um antigo aliado corrompido.
Notas: IMDb: 4,3 – Rotten Tomatoes: Aprovação de 9% da crítica e de 18% do público
Curiosidades:
- O diretor Josh Trank teve desentendimentos com o estúdio, o que segundo ele comprometeu muito o corte final.
- O filme foi um fracasso de público e crítica, arrecadando cerca de US$ 168 milhões para um orçamento estimado em US$ 120 milhões.
- A abordagem mais sombria foi alvo de críticas por descaracterizar o espírito das HQs.
UM LEGADO QUE RESISTE AO TEMPO
Apesar dos tropeços no cinema, o Quarteto Fantástico permanece como uma das equipes mais influentes dos quadrinhos. Seu impacto está presente não apenas na forma como a Marvel construiu seu universo, mas também em personagens como o Pantera Negra (que surgiu nas HQs do Quarteto), os Inumanos e até o próprio Galactus — todos frutos das mesmas aventuras cósmicas.

Fantastic Four: The Animated Series – Divulgação: Marvel Studios
O grupo também teve participações marcantes em animações como Fantastic Four: The Animated Series (1994–1996), Fantastic Four: World’s Greatest Heroes (2006–2007) e participações especiais em X-Men: Evolution e O Espetacular Homem-Aranha.
Nos cinemas, além das versões acima já citadas, uma versão de multiverso de Reed Richards, interpretado por John Krasinski, teve uma breve aparição no longa Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022), e Chris Evans teve a oportunidade de revisitar seu personagem Johnny Storm no filme Deadpool & Wolverine (2024).
O QUARTETO NUM CENÁRIO RETROFUTURISTA
Nesta semana, o Quarteto Fantástico finalmente terá a chance de se estabelecer no cinema sob a batuta da Marvel Comics e da Disney, sendo reintegrado à 6ª fase do UCM.
O futuro, ainda que incerto, pode reservar boas surpresas. Quando esta matéria tiver sido lançada, eu já terei assistido ao filme Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, de Matt Shakman (estreia em 24/07/25), que promete uma imersão num cenário retrofuturista que remete bem aos anos 60, década em que o grupo de heróis foi criado. Prometo, portanto, entregar minha resenha crítica do filme até na próxima semana. Até lá!





