
MEDICAMENTOS QUE PARECEM INOFENSIVOS
Sabe aquele comprimido que está sempre na bolsa? Pode parecer simples, mas todo medicamento merece atenção.
“Ah, mas é só um analgésico; só um anti-inflamatório.”
“Eu já tomei antes e não aconteceu nada.”
Talvez uma das maiores armadilhas seja acreditar nessa palavra: “só”. Porque um medicamento, por mais que seja muito conhecido, vendido sem receita e utilizado por milhões de pessoas, não é completamente inofensivo. Nem todo remédio que dispensa receita dispensa cuidado.
Alguns existem para tratar determinadas condições de menor gravidade e, quando utilizados corretamente, apresentam segurança e eficácia avaliadas pelas autoridades sanitárias. Então, você pode estar se perguntando: se vende sem receita, significa que é seguro?
E a resposta é não! O medicamento pode ser utilizado sem prescrição médica nas situações previstas na bula, mas isso não significa que seja adequado para qualquer pessoa, em qualquer quantidade ou por qualquer período.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) chama a atenção para os problemas do uso inadequado de medicamentos, que inclui o excesso, o uso incorreto, as combinações inadequadas (interações medicamentosas) e a automedicação.
Idade, peso, doenças pré-existentes, alergias, função dos rins e do fígado, gravidez, outros remédios em uso e até o tempo total de tratamento podem modificar a segurança de um medicamento. Por isso, o uso deve ser sempre orientado por um profissional de saúde.
A interação medicamentosa, aliás, é um grande problema… O paracetamol, por exemplo, está presente em diversos remédios isolados e também em combinações comerciais. Por isso, é fundamental conferir os princípios ativos antes de associar diferentes produtos, pois o uso acima da dose diária recomendada pode provocar lesões hepáticas graves.
Os anti-inflamatórios (como ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco) estão entre os fármacos mais utilizados para dores musculares, cólicas, dores de cabeça e diversos outros desconfortos. Dependendo da pessoa e do contexto, esses medicamentos podem provocar efeitos adversos gastrointestinais, renais e cardiovasculares, além de interagirem com outras medicações de uso contínuo.
Atenção especial fica para as mulheres na gestação: o momento em que muitas se desesperam achando que “nada pode”! Na verdade, uma boa parte dos remédios conhecidos e utilizados antes da gravidez realmente deve ser evitada, mas existem opções seguras que podem ser prescritas pelo médico para aliviar sintomas ao longo dos nove meses.
E falando de mais uma situação comum… Eu sempre escuto nas rodas de conversa: “Vou tomar o remédio da minha amiga porque funcionou para ela.” Esse é um dos argumentos mais perigosos. O mesmo medicamento que ajuda uma pessoa pode ser inadequado ou nocivo para outra, pois, embora os sintomas sejam parecidos, as causas podem ser completamente diferentes.
Uma dor de cabeça pode ser apenas uma cefaleia tensional, mas também pode ser um sinal de alarme, como uma crise hipertensiva.
Uma dor abdominal pode ser uma cólica simples, mas também pode estar relacionada a problemas ginecológicos, urinários ou intestinais mais sérios.
Uma azia pode parecer apenas um desconforto digestivo, mas sintomas persistentes ou atípicos merecem até avaliação cardiologia.
Quando usamos repetidamente um medicamento para silenciar um sintoma sem investigar sua causa, podemos acabar atrasando um diagnóstico importante. O remédio até alivia a sensação no momento, mas não resolve o problema que está por trás dela.
A OMS coloca a polifarmácia entre as três áreas prioritárias de sua iniciativa global de segurança medicamentosa, ao lado das situações de alto risco e das transições de cuidado. Por isso, consultas periódicas de revisão da medicação são tão fundamentais.
E isso vale inclusive para os produtos que a pessoa não considera “remédio”: vitaminas, suplementos, fitoterápicos, medicamentos de venda livre e produtos de uso eventual também devem ser informados ao médico.
E uma dica essencial: nunca interrompa tratamentos por conta própria! Falar sobre o uso seguro de medicamentos não significa deixar de usá-los — pelo contrário. Medicamentos prescritos para doenças crônicas ou tratamentos específicos não devem ser suspensos ou alterados sem orientação profissional.
No fim das contas, o medicamento não é vilão. Ele salva vidas, controla doenças, alivia dores e faz parte de inúmeros tratamentos que devolvem a qualidade de vida. Portanto, o problema não está no produto, mas sim no seu uso inadequado.
Estima-se que uma parcela importante dos danos relacionados aos cuidados de saúde seja evitável — e os medicamentos estão envolvidos em aproximadamente metade desses eventos.
Cuidar da saúde também significa entender que nem tudo o que parece inofensivo deve ser usado sem pensar. E, na dúvida, perguntar ao médico ou farmacêutico nunca é exagero: é cuidado.
Referências
World Health Organization (WHO). (2024). Medication without harm: Policy brief. World Health Organization.
World Health Organization (WHO). (2019). Medication safety in high-risk situations. World Health Organization.
U.S. Food and Drug Administration (FDA). (2026). Acetaminophen: What you should know about using acetaminophen safely.
Autoconhecimento é um ato de amor e cuidado.
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