
Quando a moda encontra o espelho da vida real
O cinema brasileiro tem se conectado cada vez mais a temas contemporâneos — e o filme Perrengue Fashion é um ótimo exemplo disso. A produção mergulha no universo da influenciadora digital Paula Pratta, interpretada por Ingrid Guimarães, e revela o outro lado das telas: o peso das aparências, a pressão pela relevância e a busca por equilíbrio entre trabalho, imagem e maternidade.
Entre um “look do dia” e outro, entre recebidos e compromissos, o filme nos convida a refletir sobre algo que vai muito além da estética: como a moda pode ser sustentável — emocional e ambientalmente.
Moda, influência e o ciclo do consumo acelerado
Vivemos uma era em que as redes sociais ditam tendências em tempo recorde. Um vídeo viraliza e, de repente, milhares de pessoas sentem que precisam ter a mesma roupa, o mesmo acessório, a mesma versão de si.
Mas a pergunta é: precisamos mesmo de tanto?
O filme mostra o quanto esse ciclo de consumo rápido — guiado pela comparação e pela aparência — pode ser exaustivo, especialmente para mulheres que tentam equilibrar vida pessoal, maternidade e carreira.
É um retrato fiel de como a busca pela imagem perfeita pode gerar esgotamento emocional e nos afastar da nossa essência — do prazer genuíno de se vestir com propósito.
Sustentabilidade vai além do tecido
Moda sustentável não é apenas usar algodão orgânico ou tecidos reciclados. É sobre consciência, propósito e respeito ao tempo.
É pensar antes de comprar, escolher marcas que valorizem o trabalho humano, apoiar o comércio local e entender que estilo não está na quantidade, mas na verdade de cada escolha.
Ser sustentável também é cuidar da nossa relação emocional com o vestir — sair do automatismo, do consumo por influência e se reconectar com o prazer de se vestir para si.
É sobre vestir histórias, não apenas tendências.
A arte imita a vida real
Na trama, Paula Pratta é convidada pelo filho a conhecer o trabalho de uma artesã simples, que tinge tecidos com produtos naturais e realiza um processo de tingimento totalmente sustentável.
Curiosamente, esse mesmo olhar aparece na vida real.
Nesta edição da São Paulo Fashion Week, a estilista Flávia Aranha — à frente da marca que leva seu nome — apresentou um desfile que funciona quase como um manifesto vivo do que o filme propõe: reconectar moda, natureza e propósito.
O desfile, realizado no Parque Trianon, em meio à vegetação da Avenida Paulista, trouxe estampas únicas criadas a partir de tingimentos botânicos com urucum, chá-preto, cebola-roxa, índigo e araucária.
A paleta cromática revelou tons terrosos, verdes suaves, azuis lavados e rosados queimados — resultado de pigmentos naturais que fogem do padrão industrial e carregam a poesia do tempo e da imperfeição.
Flávia também apresentou materiais inovadores, como tecidos à base de algas e algodão, couro de micélio e bordados com sementes amazônicas — reafirmando que é possível unir beleza, tecnologia e responsabilidade ambiental sem abrir mão da estética e do encantamento.
A moda como espelho e transformação
Perrengue Fashion fala sobre influenciar, mas também sobre amadurecer. Mostra que a moda pode ser uma ferramenta de expressão — desde que venha acompanhada de consciência.
A verdadeira tendência do momento é o autoconhecimento: entender o que faz sentido para a sua vida, o que representa a sua fase e o que comunica quem você realmente é.
Porque, no fim, sustentabilidade também é sobre isso — viver e vestir com mais verdade, menos pressa e mais propósito.









