
Muitos homens nunca perceberam a solidão que suas esposas vivem. “Para ele nunca teve uma tempestade lá em casa. Para mim, a bonança nunca aconteceu”. Essa é uma frase recorrente. Mas não apenas as mulheres se sentem assim, na solidão do casamento. Homens também reclamam uma vida a dois onde a solidão é a principal companhia.
Essa insegurança emocional que chamamos de solidão acontece em várias categorias, algumas mais grosseiras e outras mais sutis: abandono sexual, traição sexual, traição online e satisfação no trabalho mais que na própria família. Todas essas categorias de solidão são facilmente diagnosticadas.
Mas tem uma solidão maior, mais sutil e profunda. Quando esse cônjuge se percebe no terceiro degrau de uma categorização de importância que não deveria existir. E quem faz a “tabela”, acredita piamente que está fazendo a coisa certa, pois coloca pessoas importantes em lugares prioritários, porém equivocados. “Primeiro os filhos, depois a mãe, afinal, ela me deu a vida e sofreu tanto por mim”, eles dizem, depois, o cônjuge.essa frase que parece tão responsável é de fato muito infantilizada.
É muito importante amar os filhos, mas eles não podem vir antes do cônjuge. É muito importante amar e cuidar dos pais, mas eles não podem vir antes do cônjuge. Crianças que tem pai que os amam mais que amam suas mães, podem se tornar arrogantes e insensíveis. Crianças que têm mães que os amam mais que aos seus pais serão inseguros e egocêntricos. Vivemos dicotomias entre pais que cuidam tanto dos filhos que esquecem o parceiro e pais que tão aficionados no relacionamento se esquecem dos filhos. Os pais que cuidam e educam para a vida, segundo *Clarice Ebert:
“Tem um tempo bem específico para atuarem como pais e devem aproveitá-lo ao máximo para que seus filhos se tornem autônomos. Apesar da interação e influência da sociedade, do ambiente, da família e do próprio indivíduo diante da suas escolhas que sentam em casa fase, o papel dos pais, em todo o processo do desenvolvimento psicossocial dos filhos, é o mais significativo e, portanto, inegociável e intransferível”.
Por outro lado, pais que são mais amados que os cônjuges, serão punidos depois que o casamento deste acabar com uma presença que eles não pediram na vida deles. Ao invés de serem cuidados eles terão que cuidar desse adulto, que vai inconscientemente ou não, acusá-los de interferir na vida deles.
Voltamos a uma orientação que a maioria dos casais transgride e vou ou fazer uma adaptação da mesma: “portanto deixará ser humano seu pai e sua mãe, tornar-se-á um adulto, se unirá ao seu cônjuge e serão os dois uma só carne”. Dois que se tornam uma só carne continuam sendo um indivíduo, mas sem solidão. Adulto que está na relação com o outro mas que não se torna uma só carne, continua sendo um sem o outro, logo, um na solidão da relação. O ponto é que não se tornaram adultos, pois isso não deixaram pai e mãe.
Meu desejo é que cada pessoa na relação, principalmente os casais que já tem filhos, entendam que a unidade do casal é um desafio. A solidão é uma condição que vai conosco para o relacionamento se ensaiamos isso deixando pai e mãe, e que vai se transformando em uma relação mais saudável se tivermos coragem de encará-la. Ou o contrário, se não a experimentamos, se não a ensaiamos nos tornando adultos ao deixar pai e mãe, vamos exigir que o cônjuge cumpra um papel ao qual ele não está habilitado. Crescer é um ato solitário.
Cleydemir Santos, Psicólogo Sistêmico
Terapeuta de Casais
Especialista em Psicodrama e TCC
31.99515-2348
- Ebert, Clarice – Eduque seu filho, nisso há esperança, editora CRV.
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