
Eu não estou falando do seu cônjuge, mas de você. De mim. Daquela sensação que todos temos, de vez em quando, de que “tudo o que eu dou é pouco” ou “tudo o que eu ofereço não tem valor”. Ouço essa queixa todo dia. Ela é universal; portanto, não se sinta privilegiado.
Chamei isso de “síndrome de Caim”, remetendo-me à história de Caim e Abel. Caim ofereceu o seu melhor e sua oferta foi rejeitada. Ele ficou como você e eu ficamos: com raiva, pelos cantos, remoendo pensamentos, avaliando o outro — que nem percebeu o nosso esforço —, criando cenários de vingança na mente, usando de muita ironia nas respostas e de palavras duras, surdo para as iniciativas do outro de tentar, de novo, alinhar o relacionamento. Ou você nunca passou por isso?
A questão é que o “tudo” que eu faço — e às vezes é tudo mesmo: esgotante, escaldante, sacrificial — não tem nada a ver com o que o outro sonha ou precisa. Deixe-me contar uma experiência de 25 anos atrás, em um dia inesquecível, quando minha esposa estava no último dia de aula da sua graduação. Fiz um grande esforço naquela sexta-feira para homenageá-la com um jantar. Preparei um pato com arroz, prato raro no nosso dia a dia. Baguncei a cozinha toda, usei todas as panelas possíveis e, quando ela chegou, mal provou. Todo o meu sacrifício ainda recebeu desaprovação por conta de toda aquela bagunça.
Posso listar pelo menos 4 motivos:
Eu não tinha planejado com ela e não tinha o hábito de cozinhar.
Chegar às 23h já não é hora para um prato tão pesado.
Sendo o último dia de aula dela, ela com certeza sairia para celebrar com as colegas e chegou em casa de barriga cheia.
Eu fiz o que achava melhor para mim, não o que era melhor para ela. E acredito que este último item é o mais importante. Eu decido. Eu acredito. Eu faço. Isso soa tão desrespeitoso para o outro que a gente só descobre depois que passa a crise de autopiedade e de acusação que sucede a um investimento que deu prejuízo.
Caim ficou magoado com Deus, que não aceitou a sua oferta, e vingou-se matando o seu irmão Abel. A gente mata o final de semana, agride as crianças, maltrata os parentes do outro, boicota sexualmente o parceiro. Mata o casamento porque nossa oferta não foi aceita — porque não viram o nosso sacrifício.
De fato, “os relacionamentos conjugais são, em muitos casos, ativadores de dores emocionais já existentes nos parceiros”. Em mim, em você. E vamos cobrando uns dos outros, ferindo uns aos outros, agredindo quem está perto (filhos e família do cônjuge, por exemplo) porque nossas dores emocionais são ativadas quando nossos esforços não são validados. E uma voz crítica dentro de mim me faz sentir mal — e, via de regra, vou repetir o comportamento de outra maneira.
Portanto, saiba que vocês se escolheram não por serem perfeitos, mas por desejarem amar um ao outro. E o amor é essa ação contínua de aprender quem é essa pessoa que escolhi, tentando de novo descobrir o que lhe atende. É aceitar que o que eu ofereço é uma tentativa, não o melhor da terra. E, com o feedback do outro, vou aperfeiçoando o meu amor.
Se eu tivesse, em vez de uma surpresa pesada e bagunçada como a que fiz para a minha esposa, combinado com ela uma reserva em um lugar legal para comemorar sua conquista — no dia seguinte, afinal, naquele dia os colegas de quatro anos de vivência tinham prioridade, e eu não podia privá-la disso só porque EU queria homenageá-la —, se eu tivesse feito isso, teria alcançado o coração dela.
Então, vamos perguntar mais. Atentar mais e atender mais à necessidade do outro do que à nossa fantasia do que o faz feliz. Assuma que você não sabe. Não perca a curiosidade e não fique frustrado se não acertar. O amor é paciente. Isso significa que, daqui a alguns anos, você vai acertar, e vai ser muito legal aprenderem juntos: um com o outro, um sobre o outro.
Cleydemir Santos é psicólogo sistêmico, terapeuta de casais, especialista em Psicodrama e Terapia do Esquema. (31) 99515-2348
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