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SEMENTES PARA A VIDA

Por 01/04/2026No Comments5 min de leitura
SEMENTES PARA A VIDA

Fiz uma conversa com os pais das crianças da ASSOCIAÇÃO ABRACE, lá no alto do Esperança e foi um tempo muito especial. A coordenação com todo carinho com as famílias, os pais participando com muito empenho. A regra se confirmou, sendo só 20% de homens presentes e 80% de mães ou avós. Quando pensamos em cuidado, este vem muito mais do sexo feminino que do masculino.

E o tema da palestra eram as sementes que devemos plantar em nossos filhos. Eles são como jardins e o que plantarmos vai nascer. Por outro lado, se nada plantar em um jardim, vai nascer mato. Se plantarmos e se não cuidarmos, por mais bonito que ele seja hoje, sem cuidado vai virar um matagal. Entre os pais presentes havia um jardineiro profissional que muito contribuiu com a nossa conversa. A coordenação por outro lado, havia trazido o imaginário para o real, construindo um jardim com flores naturais e artificiais, com a fotinha das crianças do projeto em cada uma delas.

Vinculo seguro. Autonomia e competência. Limites realistas. Validação emocional. Expressão assertiva e escolhas espontâneas.  Os pais foram desafiados a espalhar essas sementes e a perceber o que acontece se não as semearmos. Os cuidadores foram estimulados a perceberem em si mesmos essas faltas e como isso afeta a maneira como eles cuidam hoje dos seus jardins e de seus relacionamentos.

Apego. Tudo começou la quando eu, mesmo criança, recebi cuidado e desenvolvi um apego que me proporcionou condições de ser um adulto saudável. Muitos apegos se tornaram em abandono, muitas frustrações se transformaram em desconfiança, muitos estímulos geraram em nós adultos, sentimento de incompetência. E nós passamos o tempo todo, desconfiado do outro, esperando o abandono, repetindo desconfiança e abandono com as crianças em nossa volta.

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Mesmo que para a criança não falte comida, teto e presença de adultos quando necessário, o abandono enquanto esquema interno de sobrevivência pode ocorrer. E o trazemos para a nossa vida adulta e reagimos aos nossos pares com a mesma percepção: eles estão aqui, mas no fundo, no fundo, eu estou sobrando. Se eles pudessem não voltariam para mim. Eles são mais felizes fora de mim do que perto.

Muito da discussão com os cuidadores e cuidadoras veio quando falei de limites realistas. Como estimular limite para as crianças e adolescentes sem ser agressivo e desrespeitoso como foram muitas vezes conosco?  Como dizer não, validando o desejo e pedido do outro, sem ceder aos caprichos e pirraças que acontecem? O desafio de dar o limite com afeto. De corrigir como propósito de ver o outro crescer, não porque não nos atende ou não pensa como nós. Mas o caldo entornou quando chegamos ao uso do celular.

A hora de uma criança ter nas mãos um aparelho que a conecta com o mundo e que lhe dá informações privilegiadas que nem os seus cuidadores têm, que lhe ensina coisas que ele não precisa aprender ainda, que toma todo o tempo e a atenção deles, que os desperta sensação e prazeres visuais que nenhum outro brinquedo vai dar, que o vincula a estilos de vida que ele nunca vai ter em casa, que vai desperta-lo a adquirir coisas que ele não precisa, que uma criança não precisa, que ninguém precisa mas todo mundo já tem por isso ele tem que ter também, precisa ser repensada. Não estamos entregamos às crianças um telefone para nos comunicar com elas, mas esse aparelho que acabei de descrever.

Por que então oferecemos se sabemos que é isso tudo e muito mais? Não falei das armadilhas sexuais que as crianças estão entrando e dos vícios em jogos e outras situações difíceis. Por que o ofertamos a nossos filhos, cada vez mais cedo? A resposta é cruel: porque ele cuida dos enfantes para nós, os distrai. Enquanto estão com o celular a gente não precisa estar com eles. Isso é abandono de menor. Mesmo dentro de casa, mesmo com comida e segurança física. Você se lembra do adolescente que a alguns meses matou os pais e uma irmã, fato que chocou o país: eles tentaram depois de 16 anos tirar um membro de seu corpo que estava agregado a ele desde que nasceu: o celular.

Limites realistas, para as crianças e para os adultos. Hora de dormir, respeito com os outros, valorização do que tem, uso dos bens adquiridos. Essa é uma semente importante e que a ASSOCIAÇÃO ABRACE está trabalhando nesse período com os seus beneficiários. Que cada família tenha a mesma intenção de cuidar do jardim, pois, acredite, o que você planta, você colhe.

Cleydemir Santos é psicólogo sistêmico, terapeuta de casais, especialista em Psicodrama e TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental – 31.99515-2348

@associacao.abrace

 

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