
O ninho vazio não começa quando os pássaros voam.
“Depois da traição, há 20 anos, o casamento desmoronou. Parecia incurável. Meses depois, por causa das crianças pequenas reclamando a presença dos pais juntos e da sua declaração de arrependimento**,** foram levados de volta ao mesmo teto, aos mesmos problemas, agora com mais dívidas, mais dúvidas e mais medo do futuro. Passados vinte anos, as crianças cresceram e a terapia aparece como um local para discutirmos o que fazer com tanto espaço vazio entre eles. Essa não é uma história isolada! Às vezes sem o detalhe do envolvimento com uma terceira pessoa, mas sempre com um afastamento que aumenta com os anos, imperceptível até a saída dos filhos.
Isso me faz recordar um diálogo interessante entre mim e um casal, lá em Montreal**,** nos anos em que lá vivemos, minha esposa e eu. Depois de uma palestra para casais, conversávamos na porta do espaço enquanto o casal esperava os filhos**,** que estavam sendo entretidos por uma equipe em um anexo. Uma adolescente muito elétrica chegou e perguntou sobre o que conversávamos. O pai, fazendo cara de sábio, disse a ela que conversávamos sobre alguns temas abordados na palestra, entre eles o famoso “ninho vazio”. Ela fez uma pergunta retórica, pois havia entendido bem a resposta:”
– Ninho vazio? O que é isso? Isso não existe.
O pai faz de novo cara de sábio, explica para a menina que se trata de um fenômeno que ocorre entre o casal que propicia um ambiente depressivo, uma falta de sentido, quando as crianças crescem e vão viver suas vidas. Ela responde com muita propriedade, isso não existe! E explica seu ponto de vista:
– Quantos vocês eram antes dos filhos chegarem? Dois não é? E o pai afirmou, “sim éramos dois, sua mãe e eu”. Então ela continuou:
– Por isso eu provo que isso de ninho vazio não existe. Façam as contas: vocês eram dois, chegaram outros, voltaram a ser dois! não existe ninho vazio. Isso é bobagem. E ela com a tranquilidade com que chegou, saiu de perto para conversar com outras pré-adolescentes que estavam por ali.
Menina sabida. Concordo plenamente com ela, pelo menos na parte que separa o vazio do ninho do voo dos filhotes. Os filhotes precisam voar e voar alto. Ser independentes. Ou será que eles deveriam ter as asas cortadas para que o casal não percebesse que permitiram um vazio enorme se instalar entre eles? Deveriam os filhotes carregar o peso da depressão da mãe ou da infantilidade do pai gerando uma indiferença para com os sentimentos daquela a quem prometera amar? Deveriam ficar para salvar aquela relação?

Mas, e o vazio que “dói como uma lâmina de aço no peito” – como me disse uma mãe noutro dia? Expliquei a ela que a depressão já estava ali, escondida pela presença e barulho dos meninos. Agora é hora de tratar isso e tá tudo bem. Vai dar certo! Vamos encontrar espaço para verdadeiro arrependimento e verdadeiro perdão, pois isso solidificou o vazio que já existia antes da partida dos filhos.
Os homens deixam a impressão que não sentem. Não é verdade. Neles doe diferente; choram para dentro do peito, outras vezes para dentro de uma garrafa ou para dentro de uma aventura. Então maridos, parem com isso, vem chorar com elas o vazio que vocês geraram e empurraram para os meninos. Vai dar certo. Ainda temos pelo menos mais 30 anos de vida útil! Que seja melhor que os últimos!
Cleydemir Santos | Psicólogo – Terapeuta de Casais| 31.9 9515-2348
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