
O último medo que alguém descreveu para mim me chocou, pela singularidade e pela sutileza dele. De fato, se eu não consigo nomear uma coisa, é muito difícil vencê-la. ‘Conhecer os amigos e muito mais os inimigos’ é uma estratégia dos vencedores. Então, temos que conhecer nossos medos.
‘Tenho medo de ser mal interpretado’, alguém me disse. Esse é um medo que parece tranquilo, quase necessário, mas depende da extensão dele; da profundidade da dor que ele evoca. ‘Cada vez que abro a boca, tenho medo de ser mal interpretado’. De fato, isso me desloca — após pesquisarmos juntos — para uma infância em que toda ação era surpreendida por uma reação de descrédito e de punição. Punição severa, desproporcional ao tamanho de uma criança e, muito mais, às coisas comuns que uma criança fazia.
Medo da punição por ter feito alguma coisa conscientemente errada — por ter maltratado um colega, por ter rasgado o caderno do outro ou por ter empurrado alguém — é algo que, ainda assim, demandaria o direito de ser ouvido e de saber que sentimento estava por trás daquela raiva expressa naquela traquinagem. Mas o medo de ser mal interpretado vem de um medo de punição por existir. Simplesmente.
Vem de uma rigidez tão forte na relação com os adultos em volta (nem sempre os pais) que gerou um adulto ambíguo, sempre complacente, sempre com medo. E quando começamos a nomear esses medos, quão libertador é chamá-los pelo nome. Rubem Alves conta a história de uma menina que tinha pesadelos com uma pantera negra que vinha toda noite assombrá-la. Enquanto ela não descobriu o nome daquele animal, o pesadelo não desapareceu.”
O medo de ser mal interpretado é um demônio que te faz sentir medo de existir, pois em qualquer momento, por qualquer coisa você será punido. E essa punição, agora como adulto, não vem do mesmo jeito. Vem de silêncios, de bullyings sutis, de ameaça de fim de relacionamento, de possibilidade remota de perder o emprego. Às vezes, o medo tomou conta de tal maneira que um fato banal será interpretado como abandono ou rejeição.
Defectividade. Eu tenho um defeito tão grave que justifica todos agirem assim comigo. Assim como? Ele não sabe explicar, ele sente. Teríamos que caminhar com ele em uma vivencia para perceber que o tempo todo, aquela criança maltratada está presente, gerenciando a emoção de adulto. Uma pessoa bem sucedida, bem colocada na sociedade, mas internamente escravizada.
Medo de ser mal interpretado. Ai eu não falo com meu cônjuge o que precisava falar, e quando falo, serei realmente mal interpretado porque fica confuso a minha fala. Possivelmente, vou atrair alguém com um perfil manipulador, controlador, porque assim, não sou eu que tenho um problema, mas ela, por ser controladora. Eu preciso dela assim. E ai tem um outro “artista” no palco: codependência. Eu odeio a maneira como ela fala comigo, mas eu escrevi o script!
Quem dera, porém, esse fosse o único medo que nós sustentamos dentro de nós! Medo do abandono, medo de fazer qualquer coisa sem aprovação do outro, por mais que tenha boas ideias, medo de mostrar que se preocupa e ser mal interpretado, medo de perder, medo de não ser amado, medo de dizer não, medo de ser traído, medo de que percebam que sou incapaz e incompetente. Medo de impor limites. Medo de meu julgamento não ser confiável. Medo de não dar conta de terminar alguma coisa, ai, eu mesmo vou boicotar o processo. Tudo isso vai gerar uma necessidade de reconhecimento que não vai vir porque de fato eu não vou dar o meu melhor porque no fundo meu pessimismo queria mesmo que não desse em nada.
Vamos exorcizá-los? Eles estão ai dentro, desde sua infância, atrapalhando seu presente, mas não são você. Isso não sou eu. Não tenha medo de ter medo.
Cleydemir Santos é psicólogo Sistêmico, Especialista em Psicodrama e TCC – Terapia Cognitivo-Comportamental. Terapeuta de Casais.
Para outras matérias como essa, clique no link https://socialyte.com.br/categorias/noticia/familia-e-relacionamento/
Fique por dentro de tudo que acontece na nossa região. Clique Aqui e entre para nosso grupo exclusivo!





