
Estou no aeroporto, e nada melhor do que um bom livro para acompanhar a espera. Um bom romance começa em família, e como diz um provérbio Akan:
“Família é como uma floresta: se você está do lado de fora, é densa; mas se está dentro dela, percebe que cada árvore tem sua própria posição.”
O livro que leio inicia com um drama mais comum do que deveria ser: a violência doméstica. Uma mãe que agride a filha e, cada vez que o faz, é agredida pelo marido. Essa sequência, que se repete por toda a infância da menina — já fragilizada por ser filha da segunda esposa daquele homem — começa quando ela tem apenas três anos, após deixar o irmãozinho cair.
Já ouvi muitas histórias de violência.
Uma mãe, com pesar, me contou que chutava as filhas pequenas nos acessos de raiva.
Um homem, em prantos, relatou que apanhava na infância toda vez que dizia estar com fome.
A violência é, muitas vezes, justificada na cabeça do agressor como uma raiva incontrolável — algo que, segundo ele, não combina com o “amor” que sente. A mãe ama a filha que agride. O marido diz amar a mulher a quem fere.
Na prática clínica, raramente tratamos um casal em situação de violência. Primeiro, é fundamental que o cônjuge agressor receba acompanhamento individual, para depois, se houver condições, iniciar o processo terapêutico em casal.
Por que?
Porque a violência nunca se justifica no cônjuge ou no filho. A raiva e a ira estão ligadas a um passado de abuso físico e/ou emocional que deve ser tratado, senão, várias gerações vão sofrer consequências da violência que você sofreu. Não foi bom para você. Não será bom para sua família. Agressores e agredidos são vítimas geracionais. Esse ciclo não é fácil de ser quebrado.
Os casos que citei marcaram o corpo das pessoas mas conheço centenas de casos em que a agressão gera pavor, medo e baixa autoestima – cicatrizes na alma sem marcas físicas. Esses casos de violência são os mais difíceis de tratar. Denunciar agressão é o primeiro passo, mas a cura é um longo processo.
É sua família; é sua floresta. Ela pode ser encantada ou assombrada. Nenhuma árvore tem que ser cortada, mas alguns velhos galhos precisam ser podados para que haja saúde e que todas as outras em volta tenham espaço para crescer.
Pronto para a poda? Vai valer a pena.






