
Estamos casados há 37 anos e, durante 30 anos, tomamos café com açúcar. Com muito açúcar. Depois dos 50 anos, mudamos alguns hábitos, entre eles, tiramos o açúcar. Não somos inimigos, nós e o açúcar, mas diminuímos a intimidade que perdurou por anos. De fato, depois de um tempo temos que revisar o que comemos e com quem comemos. O que e quem se assenta em nossa mesa. As relações precisam ser atualizadas.
Então, voltando para o café. Café com açúcar pode ser bem forte. Mais forte, mais doce, mais saboroso! Tirando o açúcar, o excesso de pó deixa um sabor intragável; afinal, está fora do ponto.
Do tempo em que ainda punha açúcar no café, lembro-me de uma viagem a Angola, a uma vila de poucos recursos. Eu era um convidado importante para eles. Eles não tomavam café, mas sabiam que eu tomava. Fizeram um esforço enorme para trazer para mim um copo de 300 ml de café. Forte. Terrivelmente forte. Dava para cortar com faca (exagero à parte!) e ficaram ali, olhando para mim com aquele copo enorme na mão, sem um grão de açúcar, esperando para me ver tomar o que para eles era intragável. “Pedi penico” e expliquei a eles que brasileiro gosta de café, mas em pequenas doses, várias vezes ao dia e com açúcar. Agradeci muito constrangido, pois sabia que devia ter sido difícil e caro trazer aquela bebida para me agradar.
Voltando para o café e para a minha casa, em tempo de maturidade, usando o precioso grão negro, sem açúcar, aprendendo a apreciar o gosto real do café como dizem os entendidos, aconteceu uma crise. Minha esposa tirou o açúcar, mas substituiu por adoçante. Eu fiquei só com o cafezinho pretinho. Por 7 anos pedi a ela para diminuir a quantidade de pó. Quando eu fazia o café, ficava palatável para mim, mas fraco para ela. Pensa na batalha! Ela tirava um grãozinho de pó e pensava que tinha diminuído. Por 7 anos eu pedi. Pacientemente.
Dias atrás, ela acertou a medida! Diminuiu de verdade, talvez uma colher a menos na receita de quase quatro décadas! Eu, que passei 7 anos pedindo por isso, nada falei, não agradeci, não elogiei. Para falar a verdade, nem notei. Continuei a tomar meu café, que ela carinhosamente faz toda manhã.
Tiro daqui 3 lições importantes. A primeira é que toda mudança é trabalhosa. Tenha paciência com o que você espera de seu cônjuge. “O amor é paciente”, diz o Hino ao Amor; logo, como diz um amigo meu, ame e daqui a 30 anos seu cônjuge será a pessoa que você deseja. Sete anos para adaptar a velha receita à nova realidade dos cinquentões que não podem comer açúcar livremente.
A segunda lição é que nós nos acomodamos ao que está bom e esquecemos de agradecer. Quem reclamou durante tanto tempo não deveria ter notado e valorizado a nova receita do café? Pois é. Só que não! Depois de alguns dias de café muito bom, com menos pó e mais palatável, ela mesma se encarregou de me fazer notar: — Este café não está maravilhoso?
Ela perguntou mais de uma vez, até eu perceber que havia mudado. Pedi desculpas por não haver notado. Se ficasse pior eu iria perceber, mas ficou melhor e aí a gente se acomoda fácil, como se fosse uma obrigação do outro acertar. Hoje virou piada lá em casa: tomamos café chamando-o de “maravilhooooso!”.
A terceira coisa é que devemos continuar agradecendo, dizendo “obrigado”, “por favor”, “com licença” e outras palavrinhas mágicas que ensinamos aos nossos filhos, vamos ensinar aos nossos netos, mas que às vezes perdemos o hábito na rotina de um casal que vai envelhecendo junto. Valorize, então, cada lixo posto para fora com um “obrigado, amor”, cada comida na mesa com um “está muito bom este prato, querida”, quer seja arroz ou lasanha. Cada cama trocada — isso dá muito trabalho! —, cada banheiro lavado, seja você ou seu cônjuge quem o faça.
Revisando: tenha paciência com seu cônjuge. Fique atento às mudanças e valorize-as com gratidão. Traga de volta ao seu relacionamento as palavrinhas mágicas. De amargo na vida, já basta o café sem açúcar!
Cleydemir Santos é psicólogo sistêmico e terapeuta de casais. Especialista em Psicodrama e Terapia do Esquema. (31 99515-2348)
Para outras matérias como essa, clique no link https://socialyte.com.br/categorias/noticia/familia-e-relacionamento/
Fique por dentro de tudo que acontece na nossa região. Clique Aqui e entre para nosso grupo exclusivo!





