ADIÇÃO, ADICÇÃO – LICITOS E ILÍCITOS NA CAMINHADA 

Por 05/11/2025No Comments5 min de leitura
FAmilia a mesa

Depois de tudo o que vimos acontecer no Rio de Janeiro, somos naturalmente atraídos pelo tema da drogadição e pelos desafios que ela impõe à família.
Mas por que não conseguimos conter o avanço do consumo de drogas?
Esse problema é realmente apenas do Governo Federal e da polícia?
Por que, cada vez mais cedo, tantas pessoas se expõem a substâncias que prejudicam o presente, o futuro e também os que estão ao redor?
Qual é o verdadeiro prazer que se busca quando se envereda por esse caminho?

São muitas perguntas se olharmos apenas para as “drogas do morro”.
Mas elas se multiplicam quando percebemos médicos dependentes de medicamentos que prescrevem aos pacientes, mecânicos viciados em oficina, pais e mães de família aprisionados pelo álcool, pela pornografia ou pela comida. Quantas compulsões escondidas entre nós, mascaradas pela legalidade ou pela privacidade do uso?

Se conseguíssemos responder a essas questões, talvez diminuíssemos a escalada dos grupos organizados que se aproveitam da nossa ignorância emocional para dominar nossas vidas. Esse não é um problema apenas da polícia — é uma questão humana, familiar e social.

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A desagregação das tradições familiares

Existem muitas facetas que podem ser analisadas, mas uma das principais é a desagregação das tradições familiares.
Quantas mudanças vivemos nas últimas décadas! E todas elas têm reflexos diretos na estrutura emocional das famílias.
Vejamos três exemplos claros dessa perda:

1. As refeições em família

Qual o benefício perdido nessa cerimônia esquecida?
O sentido de pertencer.

Ao contrário de outros animais, o ser humano nunca é totalmente independente.
Enquanto outras espécies caminham ou se alimentam sozinhas logo após o nascimento, nós dependemos dos adultos ao nosso redor por décadas.
Comer juntos é muito mais do que se alimentar: é fortalecer o vínculo, criar segurança emocional e construir identidade.
A autoestima nasce à mesa, símbolo do cuidado e da presença — não do espelho.

2. O lazer em conjunto

O lazer em família gera o sentido de participar.
É no brincar e no compartilhar que a criança aprende a ser gente, adulto e profissional.
Quem nunca brincou de médico, professor, policial ou mãe?
Brincar é ensaiar a vida.

A criança que brinca sozinha não aprende a participar, a se importar, a se conectar.
É no lazer coletivo que se forma o verdadeiro espelho do “eu”, aquele que mostra o valor de cada um dentro do grupo.

3. A participação religiosa

Essa é uma das estruturas mais sólidas da formação humana.
O senso religioso oferece foco e força. É um treino diário de propósito.

Muitos pais hoje optam por “criar os filhos sem religião”, para que escolham quando crescerem.
Mas essa ausência de orientação retira da infância um pilar essencial: o sentido da vida.
Quem cresce sem esse norte tende a ter mais dificuldade em manter o emprego, o casamento, a sanidade e, muitas vezes, a própria vontade de viver.

O vazio e o falso pertencimento

As muitas adições que enfrentamos hoje — lícitas ou ilícitas — se alimentam desse vazio cerimonial.
No mundo das drogas, há rituais: existe acolhimento, existe “tribo”, existe pertencimento.
A roda de fumo dá ao jovem (e ao adulto) uma sensação de importância, de ser parte de algo.
É o substituto distorcido das cerimônias familiares que foram deixadas de lado.

O caminho para reconstruir

Não estamos procurando culpados.
Queremos apontar caminhos.
Precisamos de ações que permitam às futuras gerações resistir às falsas ofertas de pertencimento, autoestima e propósito — que, no fim, conduzem à destruição.

O convite é claro: retomemos as cerimônias.
Os rituais que nos fazem humanos, que nos conectam, que ensinam o valor da presença e do amor.

Se não gosta das cerimônias tradicionais, seja criativo!
Invente as suas.
O importante é criar rituais que gerem vínculo, que expressem cuidado e pertença.
Eles são o que nos tornam mais prontos para a vida.

 Sobre o autor:
Cleydemir Santos é terapeuta de casais, com ampla experiência em comportamento humano e dinâmica familiar. Atua ajudando pessoas a reconstruírem vínculos e desenvolverem uma convivência mais consciente e amorosa.
 Contato: (31) 99515-2348

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