
A MORTE ENTRE OS VIVOS E A VIDA NA MORTE
Chegava de viagem na segunda-feira, após um final de semana muito especial revendo pessoas maravilhosas e conhecendo outras, quando me deparei com o anúncio da morte de alguém também muito especial. Foi um dia triste, como qualquer outro em que se perde um querido. No dia seguinte, soube da morte de outra pessoa — o que me custou o desmanche de minha agenda na manhã de hoje, algo que fiz com muito carinho para acompanhar a família enlutada. Apesar da dor, em ambos os velórios vi a paz reinar.
Qual o motivo das mortes? Eram eleitoras de direita ou de esquerda? Eram ricas ou pobres? Qual a cor da pele delas? Deixaram filhos? Pouca diferença faz a maioria dessas respostas, e as perguntas falam mais de nossa curiosidade do que de nossa empatia. Mas, sim, ambas eram mães. Portanto, há filhos hoje se perguntando se não podiam ter feito algo a mais. Todos em volta têm essa sensação frustrante de que falharam de alguma forma; de que não fizeram tudo o que tinham que fazer.
E é verdade. Nós não temos condições de atender às necessidades básicas de todos à nossa volta: ser aceito, ser prioridade, ser bem-vindo, ser consolado e tranquilizado, ser compreendido, ser cuidado, estar seguro, ser desejado, ser levado em consideração, ser visto, ser considerado confiável, ser tocado… entre outras coisas tão íntimas e sutis que nem sabemos que precisamos e nem saberíamos pedir uns aos outros.
Porém, entre a declaração da morte e o sepultamento de uma pessoa, temos esse tempo em que prestamos menos atenção a essas coisas exteriores e passageiras e atentamos mais para as questões que definem a identidade e o propósito de um ser humano. Muitos humanos não chegam a ser plenamente quem poderiam ser porque lhes tem sido negada a satisfação de coisas tão básicas. Podemos começar com respeito e consideração pela dor do outro, pela dúvida e pelo medo que um ser humano à nossa volta possa desenvolver — pois, por falta daquelas necessidades atendidas, esses sentimentos são gerados. A falta de respeito gera medo e dúvida. A falta de consideração gera desesperança e insegurança, desde a infância.
Queremos dedicar nossa oração a essas famílias: pais, cônjuges, filhos e amigos das pessoas que faleceram. Não pensem tanto no que tinham que ter feito por quem partiu, pois isso não depende mais de nós. Fizemos o que deu para fazer, e não foi o que deixamos de fazer que definiu a morte deles. A vida é maior que o nosso esforço. O Eterno se revela em nossa finitude, em nosso calendário curto. E, quando somos longevos, a Eternidade se contrapõe à nossa fragilidade física.
Portanto, nós, os que ficamos aguardando nossa vez, sejamos menos preocupados e mais respeitosos com a posição política do outro e com quanto dinheiro ou propriedade vamos disputar. Vamos cuidar uns dos outros com mais toque, mais carinho, mais respeito e consideração, promovendo mais acolhimento e aceitação de nossas diferenças.
Nesse ambiente, milagres acontecem. Que haja vida na morte, porque nós já temos visto muita morte na vida: muita polarização, muito orgulho e vaidade, muita traição e desrespeito; muita coisa temporária e passageira substituindo o que é duradouro e eterno. E não precisamos perder alguém para começar essa corrente do bem. Se houvesse mais cortesia entre os casais, por exemplo, teríamos menos casamentos morrendo nas cortes de divórcio. Se tivéssemos menos impaciência entre irmãos, teríamos menos divisão e ausências nos almoços de domingo; menos solidão para os idosos cujos filhos deixam de ir à sua casa só porque o outro irmão vai. E isso é pior que a morte para os pais.
Para os enlutados, que haja consolo e paz. Para os que se acham imortais, que haja humildade e inteligência para conviver e mutuamente nos suprirmos de respeito e consideração.
(Cleydemir santos é psicólogo sistêmico, terapeuta de casais, especialista em Psicodrama e Terapia do Esquema. 31.99515-2348)
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