
Quando falamos sobre epilepsia, muitas pessoas pensam em crises convulsivas intensas. No entanto, existe um tipo de manifestação neurológica muito mais sutil e por isso mesmo frequentemente despercebida: a crise de ausência. Essa condição merece atenção especial, sobretudo quando ocorre em crianças e adolescentes neurodivergentes, como aqueles com Transtorno do Espectro Autista (TEA). No entanto, também pode ocorrer em crianças e adolescentes típicos com algumas considerações importantes: nesses casos, podem surgir episódios únicos ou esporádicos de “desligamento”, sem que isso represente necessariamente, um quadro epiléptico. Fatores como fadiga, estresse, desatenção ou uso excessivo de eletrônicos podem provocar comportamentos semelhantes, mas que não configuram crises de ausência verdadeiras. Por isso, é importante que casos recorrentes de ‘desligamentos’ sejam avaliados por um neurologista, que poderá realizar exames específicos, como o eletroencefalograma (EEG), para diferenciar uma crise epiléptica de episódios de desatenção ou fadiga.
O que é uma crise de ausência?
A crise de ausência é um tipo de epilepsia caracterizada por breves interrupções na atividade cerebral, resultando em uma perda de consciência momentânea. A criança ou adolescente pode repentinamente parar de falar, ficar com o olhar fixo, piscar repetidamente ou estalar os lábios, parecendo “desligar” do ambiente por alguns segundos. Após esse momento, retorna às atividades como se nada tivesse acontecido.
Essas crises são causadas por descargas elétricas anormais no cérebro, que alteram temporariamente o seu funcionamento. Podem acontecer várias vezes ao dia e devido à sutileza dos sinais, muitas vezes passam despercebidas ou são confundidas com momentos de distração.
A relação entre autismo e crises de ausência.
Estudos mostram que pessoas com autismo têm maior probabilidade de desenvolver epilepsia do que a população geral. No entanto, nem todo episódio de “olhar vago” é necessariamente uma crise epiléptica. Momentos de hiperfoco, desligamento ou mesmo sobrecarga sensorial (comum em shutdowns ou meltdowns — já falamos sobre esse assunto aqui em nossa coluna) podem ser confundidos com crises de ausência.
Por isso, o olhar atento da família, da escola e dos profissionais de saúde é fundamental. Diferenciar esses episódios pode fazer toda a diferença para um diagnóstico precoce e um tratamento eficaz.
Diagnóstico e tratamento.
O diagnóstico das crises de ausência é clínico, complementado por exames como o eletroencefalograma (EEG) e em alguns casos, exames de imagem. Com o diagnóstico confirmado, o neurologista pode prescrever medicações antiepilépticas que controlam a frequência e intensidade das crises.
Em alguns casos, as crises desaparecem com o tempo. Em outros, podem persistir ou evoluir para outras formas de epilepsia, o que reforça a importância do acompanhamento médico contínuo.
O que fazer ao presenciar uma crise?
Embora as crises de ausência não envolvam convulsões visíveis, a atitude das pessoas ao redor é essencial:
- Mantenha a calma;
- Fique por perto para garantir a segurança da criança;
- Não tente interromper a crise …ela passará em poucos segundos;
- Observe, e se possível, registre a duração e a frequência dos episódios;
- Procure orientação médica com urgência se os episódios forem repetitivos ou acompanhados de outros sinais.
Como prevenir e promover o bem-estar?
Além do tratamento médico, alguns cuidados no dia a dia podem ajudar:
- Ambiente previsível e acolhedor: crianças com autismo se beneficiam de rotinas bem estruturadas e segura;
- Uso de recursos visuais: ajuda a reduzir a ansiedade e contribui para a organização do tempo e das tarefa;.
- Atenção individualizada: professores e cuidadores devem estar atentos a qualquer mudança sutil no comportamento da criança, especialmente em momentos de silêncio ou desconexão repentina.
Um olhar mais sensível para o invisível.
As crises de ausência desafiam nossa percepção do que é “visível” quando falamos de saúde e comportamento. Por isso, mais do que julgar ou interpretar como “falta de atenção” ou “preguiça” é essencial observar com empatia, buscar orientação especializada e promover um ambiente que acolha, respeite e compreenda as diferenças.
Educar é também aprender a enxergar o que os olhos nem sempre veem. E quando isso acontece, estamos um passo mais próximos de uma inclusão real : na escola, em casa e em todas as esferas sociais.





