TAYLOR SHERIDAN, O REI DAS SÉRIES, E SUAS OBRAS GENIAIS – Parte 4

Por 22/05/2026No Comments13 min de leitura
TAYLOR SHERIDAN

O firmamento de Hollywood é composto por astros que brilham intensamente e se apagam com a mesma velocidade, mas Taylor Sheridan parece ter descoberto a fórmula da gravidade narrativa permanente. Se nas matérias anteriores desta nossa jornada analisamos como ele reconstruiu o faroeste e revitalizou o drama de espionagem, hoje nos encontramos diante de uma metamorfose ainda mais audaciosa.

Sheridan não é mais apenas um roteirista de sucesso; ele se tornou o próprio arquiteto de um ecossistema cultural que dita o que o mundo assiste aos domingos à noite, provando que, em um mercado saturado de franquias genéricas, a força de uma assinatura autoral e de diálogos viscerais ainda é a moeda mais valiosa do entretenimento.

Nesta quarta e mais recente parte desta série de reportagens sobre Sheridan, mergulhamos no momento mais disruptivo da carreira do autor. Entre movimentações de bastidores que redesenharam os mapas dos grandes estúdios e o lançamento de obras que expandem o DNA dos Duttons para novos horizontes emocionais e geográficos, Sheridan reafirma sua soberania. De dramas familiares intimistas que ecoam o silêncio das montanhas a thrillers de ação que levam a lei ao limite do território selvagem, as obras que estreiaram em 2026 são o testamento definitivo de que o “Sheridanverse” não conhece fronteiras. Prepare o café, acomode-se na poltrona e acompanhe a análise detalhada das últimas cartadas desse mestre do audiovisual.

Eu não sou um roteirista de estúdio. Sou um contador de histórias que usa o estúdio como ferramenta. Se a ferramenta para de funcionar para a história, é hora de trocar de caixa de ferramentas.” – Taylor Sheridan

A GRANDE VIRADA: O DIVÓRCIO BILIONÁRIO COM A PARAMOUNT

Para entender o momento atual de Taylor Sheridan, precisamos falar sobre o terremoto que sacudiu a indústria em outubro de 2025. Após uma década de uma parceria que definiu o streaming moderno, Sheridan assinou um contrato histórico de mais de US$ 1 bilhão com a NBC Universal. O movimento, motivado por mudanças de liderança na Paramount Skydance e pelo desejo de maior liberdade criativa fora do gênero faroeste, marcou o fim de uma era. Embora Sheridan continue supervisionando suas obras existentes na Paramount+ até 2028, seus novos filmes e séries originais a partir de 2026 já carregam o DNA dessa nova fase de independência e expansão.

THE MADISON, O LUTO SOB O CÉU DE MONTANA

The Madison Divulgacao Paramount Network

Divulgação: Paramount Network

Com sua estreia em março deste ano e já citada na matéria da semana passada, The Madison é, talvez, a obra mais emocionalmente crua de Sheridan. Estrelando a lendária Michelle Pfeiffer como Stacy Clyburn, a série se afasta das guerras por terras e suas intrigas políticas para focar em uma tragédia íntima, acompanhando uma família nova-iorquina que busca refúgio no vale do rio Madison, em Montana, após a perda catastrófica do patriarca em um acidente aéreo.

Diferente da brutalidade física de Yellowstone (2018-2024), aqui a violência e os conflitos são internos. O roteiro brilha ao mostrar o choque cultural de novaiorquinos cosmopolitas tentando processar o luto em uma paisagem que não oferece o conforto do luxo, mas a dureza da natureza. A dinâmica entre Stacy (interpretada magistralmente por Michelle Pfeiffer) e suas filhas Abigail (Beau Garrett) e Paige (Elle Chapman), além das interações da veterana atriz com o sempre ótimo Kurt Russel, trazem uma vulnerabilidade inédita ao “Sheridanverse“. Tendo sido considerada um sucesso absoluto e com 2ª e 3ª temporadas já confirmadas para Paramount+, a série prova que o autor consegue dominar o drama familiar contemporâneo com a mesma maestria que domina o faroeste.

Onde assistir: Paramount+ (1 temporada completa com 6 episódios)

Gênero: Drama / Faroeste Contemporâneo

📊 IMDb: 7,9/10
🍅 Rotten Tomatoes: 63% (Crítica) | 71% (Público)

Sinopse: Ambientada nas vastas e geladas paisagens de Montana, The Madison acompanha a trajetória de Stacy Clyburn (Michelle Pfeiffer), uma mulher marcada por uma dolorosa tragédia familiar que decide reconstruir sua vida em meio ao interior norte-americano, cercada por conflitos emocionais, tensões familiares e relações complexas. Ao lado de suas filhas Abigail (Beau Garrett)Paige (Elle Chapman) e de outros moradores da região, Stacy mergulha em um cotidiano onde velhas feridas, disputas de poder e segredos do passado se misturam à dura beleza da vida rural contemporânea.

Roteiro: Taylor Sheridan

Direção: Stephen Kay

Elenco principal: Michelle Pfeiffer (Stacy Clyburn), Kurt Russell (Preston Clyburn), Matthew Fox (Paul Clyburn), Beau Garrett (Abigail Reese), Elle Chapman (Paige McIntosh), Patrick J. Adams (Russell McIntosh),  Ben Schnetzer (Van Davis)

MARSHALS: UMA HISTÓRIA DE YELLOWSTONE, A LEI NO TERRITÓRIO SELVAGEM

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Divulgação: Paramount Network

Lançada em março de 2026 na CBS (e pela Paramount+ aqui no Brasil), Marshals: Uma História de Yellowstone marca a primeira incursão da franquia no formato procedural de rede aberta. A série segue Kayce Dutton (Luke Grimes), o filho caçula de John Dutton (Kevin Costner) que deixa o fardo do rancho para trás para se tornar um U.S. Marshal em Montana.

O diferencial aqui é a fusão das habilidades de cowboy de Kayce com seu passado como fuzileiro naval, criando um protagonista que é, ao mesmo tempo, um investigador técnico e um rastreador implacável. Embora a crítica tenha apontado um tom mais “fórmula de semana” nos primeiros episódios, a audiência respondeu com fervor, consolidando-se como um dos programas mais vistos das noites de domingo. A série expande o universo ao mostrar que, fora dos limites do rancho, a justiça em Montana ainda é um conceito em disputa.

Particularmente, ainda que não consiga se sustentar como sucessora de Yellowstone, principalmente por se amparar num dos personagens menos carismáticos e que compunha o núcleo mais fraco da série original, Marshals consegue se desenvolver de forma minimamente satisfatória para quem gosta de formatos procedurais, começando a se encontrar narrativamente ao longo dos episódios, ainda que longe do brilhantismo do texto de Sheridan (aqui, atuando somente como produtor executivo). O grupo de Policiais Federais formado por Pete Calvin (Logan Marshall-Green), Belle Skinner (Arielle Kebbel), Andrea Cruz (Ash Santos) e Tatanka Means (Miles Kittle), além de Kayce, consegue estabelecer uma boa coesão no decorrer desta 1ª temporada, com cenas de ação interessantes mas ainda com falhas na formação de histórias paralelas. Do elenco da série original, ainda que a atuação de Brecken Merrill, que interpreta Tate Dutton, continue muito ruim, é um alento poder acompanhar os personagens Thomas Rainwater (Gil Birmingham) e Mo (Mo Brings Plenty), sempre relevantes quando aparecem.

A série já foi renovada para uma 2ª temporada, e tem tudo para manter a hegemonia do universo de Sheridan em caminhos transversais à história principal.

Onde assistir: Paramount+ (1 temporada com 13 episódios – em andamento)

Gênero: Faroeste Contemporâneo / Crime / Drama Policial

📊 IMDb: 6,0/10
🍅 Rotten Tomatoes: 42% (Crítica) | 27% (Público)

Sinopse: Após os acontecimentos traumáticos do desfecho de Yellowstone, Kayce Dutton (Luke Grimes) abandona definitivamente a vida no rancho para integrar uma unidade de elite dos U.S. Marshals responsável por operações de alto risco em regiões violentas da fronteira norte-americana. Enquanto tenta reconstruir sua identidade longe do legado destrutivo de sua família, Kayce mergulha em um universo brutal dominado por traficantes, milícias rurais, corrupção institucional e fantasmas emocionais que continuam o perseguindo. Em meio a perseguições intensas, conflitos morais e investigações cada vez mais perigosas, ele descobre que a violência do Velho Oeste apenas mudou de forma — e continua tão cruel quanto antes.

Roteiro: Taylor Sheridan (Criação e produção executiva), Spencer Hudnut, Eric Jay Beck, Ian McCulloch e Taylor Elmore

Direção: Ben Richardson, Christina Alexandra Voros, Stephen Kay e Michael Friedman

Elenco principal: Luke Grimes (Kayce Dutton), Kelsey Asbille (Monica Dutton), Brecken Merrill (Tate Dutton), Logan Marshall-Green (Pete Calvin), Arielle Kebbel (Belle Skinner), Ash Santos (Andrea Cruz), Miles Kittle (Tatanka Means), Gil Birmingham (Thomas Rainwater), Mo Brings Plenty (Mo)

RANCHO DUTTON, O RETORNO TRIUNFAL DE BETH E RIP

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Divulgação: Paramount Network

Após a saída abrupta de Kevin Costner e o fim da série principal em 2024, muitos acreditavam que o vácuo deixado pelo patriarca John Dutton seria intransponível. Sheridan, contudo, entende a mecânica do melodrama de prestígio como poucos.

Em Rancho Dutton (Dutton Ranch), que estreou em  15 de maio deste ano, a narrativa faz o que a atriz Kelly Reilly definiu como “arrancar o curativo”. A calmaria encontrada por Beth Dutton (Reilly) e Rip Wheeler (Cole Hauser) em Dillon, Montana, ao lado do jovem Carter (Finn Little), é violentamente interrompida já nos minutos iniciais do piloto por um incêndio devastador que consome suas terras. Sem passado e sem teto, o casal mais visceral da TV se vê forçado a empacotar o que restou na caçamba de uma picape e migrar para o sul profundo, rumo à fictícia cidade Rio Paloma, no sul do Texas.

Essa mudança geográfica não é apenas estética; é uma subversão temática genial. No Texas, o sobrenome Dutton não carrega o peso político ou o medo que impunha em Montana. Beth e Rip (na minha opinião, os melhores personagens de Yellowstone junto ao John Dutton de Kevin Costner) são estrangeiros em um território dominado por uma nova e formidável força oligárquica: a dinastia controlada por Beulah Jackson, com uma atuação incrível da lendária atriz Annette Bening, que divide o protagonismo de elite com Ed Harris.

A trama abandona o isolamento de Montana para mergulhar na vastidão das operações de gado texanas. O elenco de apoio é estelar, contando com os já citados Annette Bening e Ed Harris, mantendo a “fórmula mágica” de Sheridan de contratar estrelas de 1ª grandeza para suas obras, elevando o nível dramático da produção. O que torna Rancho Dutton irresistível, no entanto, é ver Rip e Beth, personagens que sempre foram os “punhos” de John Dutton, tentando construir algo próprio em um território onde seu sobrenome não carrega o mesmo peso. Os episódios iniciais trazem toda a aura da série original, com diálogos inteligentes, relações conturbadas, ação na medida certa e uma história coesa e bem amarrada com a mesma qualidade que tornou Yellowstone um dos maiores sucessos da Paramount.

Onde assistir: Paramount+ (1 temporada com 10 episódios – em andamento)

Gênero: Drama / Faroeste Contemporâneo / Ação

📊 IMDb: 8,5/10
🍅 Rotten Tomatoes: 86% (Crítica) | 80% (Público)

Sinopse: Após deixarem para trás os destroços do império da família Dutton em Montana, Beth Dutton (Kelly Reilly) e Rip Wheeler (Cole Hauser) tentam construir uma nova vida em um gigantesco rancho no sul do Texas ao lado do jovem Carter (Finn Little). Porém, aquilo que parecia ser um recomeço rapidamente se transforma em uma guerra territorial marcada por rivalidades locais, corrupção política, violência rural e antigos traumas que continuam assombrando o casal. Enquanto Beth enfrenta a poderosa fazendeira Beulah Jackson (Annette Bening), Rip tenta manter o controle de uma terra onde alianças mudam constantemente e sobrevivência depende de brutalidade. Em meio às paisagens áridas do Texas, Racho Dutton explora os limites do amor, da lealdade e do legado deixado pela família mais temida do universo Yellowstone.

Roteiro: Taylor Sheridan (Criação e produção executiva), Chad Feehan (Showrunner, criação e roteiro), Hilary Bettis, Sean Conway e Hayley Tibbenham

Direção: Christina Alexandra Voros, Greg Yaitanes, Jessica Lowrey e Phil Abraham

Elenco principal: Kelly Reilly (Beth Dutton), Cole Hauser (Rip Wheeler), Finn Little (Carter), Annette Bening (Beulah Jackson), Ed Harris (Everett McKinney), J.R. Villarreal (Azul), Jai Courtney (Rob-Will Jackson), Juan Pablo Raba (Joaquin Jackson), Natalie Alyn Lind (Oreana), Marc Menchaca (Zachariah)

O QUE VEM A SEGUIR?

Mesmo com a transição de estúdios, a produtividade de Sheridan não dá sinais de fadiga. Entre os projetos em andamento e em fase final de produção para 2026 e 2027, destacam-se:

  • NOLA King: Um spin-off de Tulsa King ambientado em Nova Orleans, estrelado por Samuel L. Jackson.
  • F.A.S.T.: Um thriller de ação cinematográfico que marca o retorno de Sheridan aos longas-metragens, com um elenco que inclui LaKeith Stanfield e Jason Clarke.
  • 1944: A próxima série prequela que explorará os Duttons durante a Segunda Guerra Mundial.
  • The Correspondent: Um novo drama jornalístico (projeto que migrou da Paramount Skydance para a NBC Universal) que promete explorar as intrigas do jornalismo de guerra.

Taylor Sheridan continua provando que, seja no Texas, em Montana ou nos corredores de Hollywood, ele é quem dita as regras do jogo. A Parte 4 dessa jornada está apenas começando, e o trono do “Rei das Séries” parece mais seguro do que nunca.

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