
Uma viagem nostálgica aos filmes de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias que ajudaram a transformar a infância de toda uma geração
Com a proximidade do Dia das Crianças, poucas coisas são capazes de despertar tantas lembranças de minha infância quanto ouvir os primeiros acordes da abertura do programa dominical de Os Trapalhões ou rever na televisão qualquer cena protagonizada por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.
Com meus quase 50 anos de vida, acompanhei praticamente toda a fase de ouro do quarteto. Primeiro pela televisão (de tubo), depois pelas sessões de cinema e, mais tarde, pelas fitas VHS que me permitiam rever inúmeras vezes aquelas aventuras que, para uma criança, pareciam absolutamente grandiosas.
E não era apenas televisão. Os Trapalhões faziam parte de uma espécie de universo próprio. Estavam nos cinemas, nos discos, nos brinquedos, nas revistas em quadrinho, nos comerciais, nos produtos licenciados – tive toda a coleção de copos da Pepsi do quarteto – e, principalmente, no imaginário de toda uma geração.
Formado inicialmente em torno de Renato Aragão e Dedé Santana, o grupo ganhou sua formação clássica com a chegada de Mussum e Zacarias. O programa passou pela TV Tupi e chegou à Rede Globo em 1977, onde se transformou em um dos maiores fenômenos de audiência da televisão brasileira. No cinema, a trajetória também foi impressionante: a formação clássica protagonizou mais de duas dezenas de longas, e os filmes do grupo ultrapassaram a marca de 120 milhões de espectadores ao longo de toda sua história.
O programa televisivo na Globo foi um sucesso absoluto. De 1977 a 1995, assistíamos todo domingo às esquetes hilárias, com aquele humor politicamente incorreto da época, e não tinha nenhuma criança, adolescente ou adulto que deixava de assistir ao programa antes do Fantástico. Para relembrar, divulgo uma das esquetes satíricas mais memoráveis do quarteto: a interpretação da música “Teresinha“, cantada por Maria Bethania. Segundo a história, por algum motivo Dedé não conseguiu estar presente no dia da gravação, em 1977, e por isso somente os outros três aparecem.
Alguns dos filmes dos Trapalhões foram fenômenos gigantescos de bilheteria. O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, por exemplo, levou cerca de 5,8 milhões de pessoas aos cinemas em 1977, enquanto Os Saltimbancos Trapalhões (1981), Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (1978), Os Trapalhões na Serra Pelada (1982) e O Cinderelo Trapalhão (1979) também ultrapassaram a impressionante marca dos cinco milhões de espectadores.
Mas esta não é uma lista das maiores bilheterias. E também não é um ranking baseado exclusivamente em notas do IMDb. Trata-se de uma seleção bem pessoal.
São os cinco filmes que, por diferentes motivos, mais representam a minha relação com Os Trapalhões — seja pela qualidade, pela importância histórica, pela criatividade, pela nostalgia ou simplesmente pela capacidade de me transportar novamente para aquela época em que ir ao cinema para assistir a uma aventura de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias era um acontecimento.
E como estamos próximos do Dia das Crianças (e de meu aniversário de meio século de vida), não consigo imaginar momento melhor para revisitar essa filmografia.
Prepare a pipoca e embarque comigo nessa viagem no tempo. Antes do meu ranking, no entanto, cabe destacar algumas obras inesquecíveis.
MENÇÕES HONROSAS
OS TRAPALHÕES E O MÁGICO DE ORÓZ (1984)

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
Nesta aventura divertidíssima e muito “abrasileirada” do clássico O Mágico de Oz (1939), Didi Mocó (Renato Aragão) e seus inseparáveis companheiros Dedé Santana, Mussum e Zacarias interpretam os personagens Espantalho, Homem de Lata e Leão enquanto enfrentam perigos, vilões e situações completamente absurdas, com o já conhecido humor físico do quarteto. Este filme, dirigido por Dedé Santana, representa muito bem a fase em que o grupo já havia transformado suas aventuras cinematográficas em grandes espetáculos destinados principalmente ao público familiar com a participação da Xuxa em seu auge nos anos 80.
Uma curiosidade interessante: este filme foi o primeiro após o período de afastamento entre os integrantes, que ocorreu na segunda metade de 1983 e que durou cerca de seis meses. Quem conseguiu reconciliar o grupo foi um amigo em comum, Beto Carreiro.
OS TRÊS MOSQUETEIROS TRAPALHÕES (1980)

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
Neste longa inspirado no universo de Os Três Mosqueteiros (Alexandre Dumas), Zé Galinha (Renato Aragão), Dedé (Dedé Santana), Mussum (Mussum) e Zacarias (Zacarias) transformam a história clássica de capa e espada em uma sucessão de situações absurdas e engraçadíssimas. É mais um filme que remete muito ao humor do Quarteto com lutas de estilo mais circense, como as da dupla italiana Bud Spencer e Terence Hill.
O CINDERELO TRAPALHÃO (1979)

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
Nesta paródia da história da Cinderela, o personagem Cinderelo (Renato Aragão) é um rapaz simples e atrapalhado que acaba envolvido em uma disputa contra o poderoso Coronel Dourado (Francisco Dantas). Ao lado de Dedé, Mussum e Zacarias, ele enfrenta capangas, perseguições e confusões enquanto se aproxima de Ivete (Sílvia Salgado). Assim como o filme acima, este longa pertence à primeira fase da formação clássica do grupo, ultrapassando a marca de cinco milhões de espectadores.
O CANGACEIRO TRAPALHÃO (1983)

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
Neste longa bem criativo, dirigido por Daniel Filho e roteirizado por Chico Anysio, Renato Aragão e João Paulo Carvalho, Severino do Quixadá (Renato Aragão) salva o cangaceiro Capitão (Nelson Xavier) de uma emboscada. Impressionado com a semelhança entre os dois, o criminoso decide usar Severino em um plano que o coloca no centro de uma aventura envolvendo Gavião (Dedé Santana), Mussum, Zacarias, Aninha (Regina Duarte) e uma misteriosa Bruxa-Fada (Bruna Lombardi). Com o quarteto no auge do sucesso, o filme conseguiu reunir um elenco espetacular, que contou ainda com Gabriela Duarte, Cininha de Paula e Tânia Alves.
OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS (1978)

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
Nesta sátira de Star Wars (que havia sido lançado um ano antes), o quarteto faz sua estreia com todos os integrantes clássicos. Didi (Renato Aragão), Dedé (Dedé Santana), Mussum (Antônio Carlos Bernardes Gomes) e Zacarias (Mauro Faccio Gonçalves) são recrutados pelo Príncipe Flick (Pedro Aguinaga) para ajudar na luta contra o poderoso Zuco (Carlos Bucka). Em uma aventura interplanetária cheia de naves, monstros e batalhas, os quatro enfrentam perigos muito maiores do que sua habitual capacidade de criar confusão. É o filme que marca a estreia cinematográfica de Zacarias ao lado dos outros três integrantes, ultrapassando também a marca de cinco milhões de espectadores.
MEU RANKING PARTICULAR
#5 – OS TRAPALHÕES NA SERRA PELADA (1982)

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
📺 Onde assistir: Prime Video e YouTube
Gênero: Comédia | Aventura | Família
📊 IMDb: 5,6/10
🍅 Rotten Tomatoes: – (Crítica) | – (Público)
🎟️ Bilheteria: 5.043.350 espectadores (dezembro de 1982)
Sinopse: Curió (Renato Aragão), Boroca (Dedé Santana), Mexelete (Mussum) e Bateia (Zacarias) chegam à Serra Pelada em busca de ouro. O problema é que o garimpo está sob o controle de Von Bermann (Felipe Levy) e de seu violento capanga Bira (Eduardo Conde). A aventura transforma a busca pela riqueza em uma perigosa disputa envolvendo poder, exploração e sobrevivência.
Roteirista: Gilvan Pereira
Diretor: J.B. Tanko
Elenco principal: Renato Aragão (Curió), Dedé Santana (Boroca), Mussum (Mexelete), Zacarias (Bateia), Louise Cardoso (Lilian), Ana Maria Magalhães (Anaí), Eduardo Conde (Bira), Felipe Levy (Von Bermann)
🌟 POR QUE VALE A PENA ASSISTIR?
É um dos filmes dos Trapalhões que mais chama atenção quando observado hoje. Isso porque a produção utiliza como cenário um dos fenômenos sociais mais impressionantes do Brasil dos anos 1980: a corrida do ouro em Serra Pelada.
O resultado funciona como aventura e comédia, mas também como uma espécie de registro involuntário de um Brasil que mudou profundamente nas décadas seguintes.
As imagens do garimpo possuem enorme força visual, e a presença dos Trapalhões naquele ambiente cria uma mistura curiosa entre realidade e fantasia.
Para uma geração acostumada a acompanhar as imagens de Serra Pelada pela televisão, o filme possui ainda um enorme componente documental e nostálgico.
🎯 CURIOSIDADES
- O filme foi realmente rodado na Serra Pelada. Não se trata apenas de uma história ambientada no famoso garimpo paraense: a produção teve locações na própria Serra Pelada e também no Sítio do Capim Melado, no Rio de Janeiro.
- A produção contou com participação do Exército Brasileiro. Na história, os militares entram em cena para ajudar os protagonistas no confronto contra os mercenários que controlam o garimpo.
- A trilha sonora tem nomes importantes da música brasileira. A ficha da Cinemateca registra participações de Sivuca, Paulinho Tapajós e Renato Aragão na música do filme.
- A bilheteria deste longa também ultrapassou 5 milhões de espectadores.
- Os nomes dos protagonistas — Curió, Boroca, Mexelete e Bateia — fazem referência ao universo do garimpo.
#4 — O MUNDO MÁGICO DOS TRAPALHÕES (1981)

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
📺 Onde assistir: Prime Video e YouTube
Gênero: Documentário
📊 IMDb: 6,1/10
🍅 Rotten Tomatoes: – (Crítica) | – (Público)
Bilheteria: 1.892.117 espectadores (julho de 1981)
Sinopse: O documentário de Sílvio Tendler revisita a trajetória de Didi (Renato Aragão), Dedé Santana, Mussum e Zacarias por meio de cenas de filmes, programas de televisão, imagens de arquivo, depoimentos e registros dos bastidores do fenômeno que havia conquistado o Brasil.
Roteiristas: Sílvio Tendler, Cláudio Bojunga e Paulo Aragão Neto
Diretor: Sílvio Tendler
Elenco principal: Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum, Zacarias, além de participações de Chico Anysio, Caetano Veloso e Millôr Fernandes
🌟 POR QUE VALE A PENA ASSISTIR?
É o título mais diferente da minha seleção — e justamente por isso merece estar aqui.
Enquanto os demais filmes apresentam aventuras protagonizadas pelos personagens dos Trapalhões, este documentário procura entender o fenômeno cultural que existia por trás deles.
E existe algo fascinante em assisti-lo hoje: estamos vendo Os Trapalhões no auge da carreira, quando ainda não pertenciam à história — eles estavam escrevendo essa história.
Sílvio Tendler registra o grupo, seus fãs, a televisão, o cinema e os bastidores, construindo um retrato de uma época em que quatro humoristas conseguiram alcançar uma popularidade difícil de imaginar nos dias atuais. E além de bastidores únicos de shows e viagens do quarteto, conhecemos também um pouco do artista por trás de cada personagem.
Como fã do quarteto em seu auge, é absolutamente mágico notar como cada um entende seu papel e como eram totalmente diferentes de seus personagens. Quanto à distinção entre ator e personagem, o que sempre mais me impressionou foi Mauro Faccio Gonçalves, o senhor sério de voz grave e de aparência de gerente bancário por trás da peruca e dos trejeitos de Zacarias.
Outro grande atrativo é a narração e condução do maior humorista da época, Chico Anyzio, que abrilhantou ainda mais a produção.
O número de espectadores deste documentário também impressiona: 1.892.117 pessoas foram aos cinemas para assistir a um documentário sobre Os Trapalhões numa época em que este gênero de filmes era considerado irrelevante para o público em geral.
🎯 CURIOSIDADES
- O documentário foi produzido para celebrar os 15 anos dos Trapalhões. O grupo vivia naquele momento o auge de sua popularidade na televisão e no cinema.
- O filme acabou registrando imagens relacionadas a “Os Saltimbancos Trapalhões”. Entre os materiais mostrados estão cenas das filmagens da produção circense que chegaria aos cinemas naquele mesmo ano. A obra mistura também cenas de filmes, programas de televisão, imagens de arquivo e depoimentos.
- O próprio grupo ficou com medo do resultado final. Segundo relato posterior do diretor Silvio Tendler, os Trapalhões inicialmente o deixaram bastante livre para realizar as filmagens. Somente no final ficaram preocupados com o resultado comercial, e Dedé Santana passou a acompanhar o trabalho de montagem na moviola. O receio acabou sendo desnecessário: o documentário se tornou um enorme sucesso de público.
- Roberto Carlos e Regina Duarte estão entre os nomes que aparecem na produção. A lista de participantes ainda inclui Jô Soares, Caetano Veloso, Marília Pêra e Tony Ramos, entre muitos outros.
- O projeto chegou a ter outro título. Segundo o livro Os Adoráveis Trapalhões, a produção nasceu com o nome “Os Anos Trapalhões”, antes de receber o título definitivo O Mundo Mágico dos Trapalhões.
#3 – OS TRAPALHÕES NO AUTO DA COMPADECIDA (1987)

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
📺 Onde assistir: Prime Video e YouTube
Gênero: Comédia | Drama | Fantasia | Família
📊 IMDb: 6,4/10
🍅 Rotten Tomatoes: – (Crítica) | – (Público)
🎟️ Bilheteria: 2.610.371 espectadores (dezembro de 1987)
Sinopse: João Grilo (Renato Aragão) e Chicó (Dedé Santana) sobrevivem em Taperoá utilizando esperteza e muita conversa. Ao redor dos dois estão o Padeiro (Zacarias), o Bispo (Renato Consorte), o Major Antônio Morais (Raul Cortez) e Severino (José Dumont). Quando a violência toma conta da cidade, todos acabam diante de um julgamento celestial conduzido por Jesus (Mussum) e pela Compadecida (Betty Gofman).
Roteiristas: Roberto Farias e Ariano Suassuna
Diretor: Roberto Farias
Elenco principal: Renato Aragão (João Grilo), Dedé Santana (Chicó), Mussum (Jesus), Zacarias (Padeiro), Betty Gofman (Compadecida), Raul Cortez (Major Antônio Morais), José Dumont (Severino), Renato Consorte (Bispo), Cláudia Jimenez (Margarida), Emmanuel Cavalcanti (Padre)
🌟 POR QUE VALE A PENA ASSISTIR?
Este é um dos filmes mais importantes da lista justamente por representar uma tentativa de aproximar o humor dos Trapalhões de uma das obras fundamentais da dramaturgia brasileira.
A escolha da peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, como fonte de inspiração não poderia ser mais interessante. João Grilo e Chicó já eram personagens profundamente ligados à cultura popular nordestina, e Renato Aragão e Dedé Santana conseguem incorporá-los sem perder completamente a identidade construída pelo quarteto. Muito antes das interpretações perfeitas dos personagens no filmaço O Auto da Compadecida (2000) dirigido por Guel Arraes, este longa do quarteto já trazia uma ótima adaptação do texto de Suassuna.
O elenco também chama atenção. Raul Cortez, Renato Consorte, Emmanuel Cavalcanti e outros grandes nomes da dramaturgia brasileira dividem a tela com os quatro humoristas.
É um filme que merece ser revisto não apenas pela nostalgia, mas também para perceber como os Trapalhões tentaram ampliar os limites de sua própria linguagem cinematográfica.
🎯 CURIOSIDADES
- Existe um palhaço-narrador na estrutura do filme. Luiz Armando Queiroz interpreta esse personagem, recurso que aproxima a adaptação da dimensão teatral de Auto da Compadecida.
- Mussum interpreta Jesus Cristo — e também o frade. É provavelmente uma das escalações mais inusitadas de toda a filmografia do quarteto.
- O filme mantém o julgamento celestial da obra de Suassuna, reunindo Jesus, Maria Aparecida e o diabo depois da morte dos personagens principais.
- Foi um dos poucos filmes dos Trapalhões comercializados no exterior, chegando oficialmente a Portugal.
- O longa levou 2.610.371 espectadores aos cinemas brasileiros. Embora seja uma marca respeitável, ficou abaixo dos grandes fenômenos de bilheteria do quarteto nos anos anteriores.
#2 – O TRAPALHÃO NAS MINAS DO REI SALOMÃO (1977)

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
📺 Onde assistir: Prime Video e YouTube
Gênero: Aventura | Comédia | Família
📊 IMDb: 6,0/10
🍅 Rotten Tomatoes: – (Crítica) | – (Público)
🎟️ Bilheteria: aproximadamente 5,8 milhões de espectadores (dezembro de 1977), a maior bilheteria da história do quarteto
Sinopse: Pilo (Renato Aragão), Duka (Dedé Santana) e Cabo Fumaça (Mussum) vivem de pequenos golpes e de brigas combinadas para ganhar dinheiro com apostas. A rotina muda quando Glória (Monique Lafond) os contrata para localizar seu pai, o Professor Aristóbulo (Carlos Kurt), desaparecido durante uma expedição em busca das lendárias Minas do Rei Salomão.
Roteiristas: Renato Aragão, Domingos Demasi e Victor Lustosa
Diretor: J.B. Tanko
Elenco principal: Renato Aragão (Pilo), Dedé Santana (Duka), Mussum (Cabo Fumaça), Monique Lafond (Glória), Carlos Kurt (Professor Aristóbulo), Vera Setta (Zuluma), Wilson Grey (Ermitão)
🌟 POR QUE VALE A PENA ASSISTIR?
Mais do que uma simples aventura cômica, O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão representa um dos momentos decisivos da transformação de Os Trapalhões em fenômeno cinematográfico nacional.
Este longa aproveita muito bem a estrutura das grandes aventuras de exploração — tesouros, cavernas, armadilhas, vilões e personagens exóticos — e a coloca a serviço do humor do trio.
Ainda não temos aqui a presença de Zacarias, que só estrearia nos cinemas, formando o quarteto, no filme O Cinderelo Trabalhão, de 1979. Esta é, portanto, uma oportunidade curiosa para rever a formação anterior ao quarteto clássico que marcou os anos 1980.
É também um filme que ajuda a compreender como os Trapalhões conseguiram conquistar o público infantil sem abandonar a tradição das grandes aventuras que encantavam diferentes gerações.
E os números são impressionantes: aproximadamente 5,8 milhões de espectadores foram aos cinemas. O filme aparece entre as maiores bilheterias da história do cinema brasileiro e é o longa dos Trapalhões com maior público registrado entre os títulos desta seleção.
Para quem nasceu nos anos 1970, é ainda uma verdadeira cápsula do tempo.
🎯 CURIOSIDADES
- A aventura é inspirada no romance As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard. A produção transforma a aventura literária em uma mistura de ação, fantasia e humor tipicamente trapalhão.
- Zacarias ainda não fazia parte do trio protagonista. O filme é estrelado por Renato Aragão, Dedé Santana e Mussum — portanto, é uma oportunidade curiosa para rever a formação anterior ao quarteto clássico que marcou os anos 1980.
- A bruxa Zuluma ganhou uma maquiagem especialmente elaborada. O trabalho foi realizado por Eric Rzepecki, responsável pela caracterização da personagem interpretada por Vera Setta.
- A aventura conta com animais que acompanham os protagonistas. O cachorro Lupa e a égua Jurubeba fazem parte da expedição de Pilo. A cena final entre Pilo (Renato Aragão) e o cachorrinho Lupa, inclusive, é uma das mais emocionantes de minha infância.
- A história reúne uma verdadeira coleção de perigos exóticos: ciganos, beduínos, uma tribo africana, ninjas e, claro, a bruxa Zuluma. É praticamente uma versão brasileira das aventuras pulp de exploração.
#1 – OS SALTIMBANCOS TRAPALHÕES (1981)

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
📺 Onde assistir: Prime Video e YouTube
Gênero: Comédia | Aventura | Drama | Musical
📊 IMDb: 6,7/10
🍅 Rotten Tomatoes: – (Crítica) | 82% (Público)
🎟️ Bilheteria: 5.218.574 espectadores (dezembro de 1981)
Sinopse: Didi (Renato Aragão), Dedé (Dedé Santana), Mussum (Mussum) e Zacarias (Zacarias) são humildes funcionários de um circo que descobrem possuir um talento especial para divertir o público. O sucesso dos quatro, entretanto, incomoda o poderoso Barão (Paulo Fortes) e seu maquiavélico comparsa Assis Satã (Eduardo Conde), que exploram os artistas e tentam impedir que conquistem sua liberdade.
Roteiristas: Renato Aragão, Chico Buarque, Antônio Pedro, Gilvan Pereira, Tereza Trautman, Luis Bacalov e Sergio Bardotti
Diretor: J.B. Tanko
Elenco principal: Renato Aragão (Didi), Dedé Santana (Dedé), Mussum (Mussum), Zacarias (Zacarias), Lucinha Lins (Karina), Paulo Fortes (Barão), Eduardo Conde (Assis Satã)
🌟 POR QUE VALE A PENA ASSISTIR?
Os Saltimbancos Trapalhões é, para mim, a síntese perfeita do que tornou o quarteto tão especial.
A produção consegue combinar comédia, aventura, música, fantasia e emoção em uma história que funciona tanto para as crianças que a descobriram nos anos 80 quanto para os adultos que revisitaram o longa décadas depois.
A inspiração em Os Saltimbancos, somada às músicas de Chico Buarque, dá ao filme uma identidade muito particular dentro da filmografia do grupo. Mais do que uma sucessão de esquetes, existe aqui uma história sobre amizade, liberdade, exploração e a luta de personagens humildes contra aqueles que tentam se aproveitar deles.
E há um componente que, para quem nasceu nos anos 70 ou 80, é impossível ignorar: a nostalgia. Rever Didi, Dedé, Mussum e Zacarias no auge de Os Trapalhões é quase como abrir uma cápsula do tempo.
Entretanto, é claro que há também uma razão cinematográfica para colocá-lo no topo desta lista. Entre todos os filmes do quarteto, poucos conseguiram equilibrar tão bem humor popular e emoção, sem perder a energia característica dos Trapalhões.
Com mais de 5,2 milhões de espectadores, o filme também demonstra a dimensão gigantesca que Os Trapalhões alcançaram no cinema brasileiro.
E existe ainda um reconhecimento especialmente importante: Os Saltimbancos Trapalhões é apontado como o único filme dos Trapalhões incluído na lista dos 100 maiores filmes brasileiros, segundo a relação citada na filmografia do grupo.
Para mim, portanto, não é apenas um dos melhores filmes dos Trapalhões. É um daqueles filmes que ajudam a explicar a infância de toda a minha geração, formando um combo mágico com obras inesquecíveis como Profissão: Perigo (McGyver), Armação Ilimitada, Programa Silvio Santos, e sagas de filmes como Indiana Jones, De Volta para o Futuro e Mad Max.
🎯 CURIOSIDADES
- O filme nasceu de uma história muito mais antiga que os próprios Trapalhões. A produção é baseada na peça Os Saltimbancos, que por sua vez deriva do conto alemão Os Músicos de Bremen, dos Irmãos Grimm.
- A versão brasileira de Os Saltimbancos tem forte ligação com Chico Buarque. Ele foi responsável pela adaptação das canções para o português, e várias delas foram incorporadas ao filme. Entre as músicas está “Piruetas”, interpretada por Chico Buarque e pelos Trapalhões.
- A trilha reúne outros nomes importantes da música brasileira, incluindo Elba Ramalho, Bebel Gilberto e Lucinha Lins.
- Algumas cenas foram filmadas em Hollywood. A produção chegou a utilizar estruturas e locações nos Estados Unidos, algo bastante ambicioso para uma produção brasileira daquele período.
- O filme foi exportado para diversos países. Entre eles estão Uruguai, Argentina, Moçambique, Bulgária e Espanha.
UMA VIAGEM DE VOLTA À INFÂNCIA

Divulgação: Renato Aragão Produções Artísticas
Rever todos os dez filmes que compõem esta seleção é muito mais do que revisitar uma coleção de comédias do passado. É reencontrar um Brasil que já não existe mais.
Era um Brasil sem internet e redes sociais, em que milhões de crianças acompanhavam o mesmo programa de televisão todo domingo à noite, esperavam o lançamento do próximo filme, compravam discos, colecionavam produtos e repetiam na escola as frases e bordões de cada um dos personagens.
Os Trapalhões conseguiram algo extraordinário: transformaram a comédia em um acontecimento nacional. E talvez seja justamente por isso que esses filmes continuam despertando tanta memória afetiva.
Alguns envelheceram melhor do que outros. Os efeitos especiais podem hoje provocar risadas involuntárias, determinadas piadas pertencem claramente ao seu tempo e algumas produções possuem uma simplicidade que dificilmente seria aceita pelo cinema contemporâneo.
Mas existe algo que permanece e provavelmente jamais volte a se repetir: a química entre os quatro.
Didi (Renato Aragão) tinha a malandragem e a ingenuidade ao mesmo tempo, representando os nordestinos. Dedé (Manfried Sant’Anna) funcionava como contraponto e parceiro de aventuras, sendo considerado o melhor “Escada” de todos os tempos, exaltando as piadas e esquetes de 3 humoristas ao mesmo tempo. Ele representava os paulistas (apesar de ser de São Gonçalo/RJ) e sulistas. Mussum (Antônio Carlos Bernardes Gomes) tinha um timing cômico absolutamente particular, e representava os cariocas. E Zacarias (Mauro Faccio Gonçalves) possuía uma expressividade que transformava até um simples olhar em uma gag. Era o mineirinho do grupo.
Juntos, eles criaram algo que ultrapassou o cinema e a televisão. Criaram memória afetiva.
Por isso, esta lista não pretende estabelecer uma verdade definitiva sobre quais são os melhores filmes dos Trapalhões. É apenas o meu olhar, décadas depois, de alguém que nasceu em 1976 e que teve o privilégio de acompanhar aquele fenômeno enquanto ele acontecia.
E talvez essa seja a maior razão para continuar revendo essas produções.
Porque quando a música começa, Didi aparece na tela, Mussum solta um de seus bordões, Zacarias faz aquela expressão inconfundível e Dedé entra na confusão… por alguns minutos, a gente volta a ser criança.
E você, também sente saudades do quarteto no seu auge? Qual outro filme entra na sua lista de prediletos que não citei nesta matéria? Comente abaixo e compartilhe com seus amigos e em suas redes sociais.
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