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CHANGEMAN: 38 ANOS DA ESTREIA DO ESQUADRÃO RELÂMPAGO NO BRASIL

Por 10/07/2026No Comments16 min de leitura
CHANGEMAN

A infância tem o curioso poder de transformar sons, cheiros e imagens em máquinas do tempo. Basta ouvir uma velha música, reencontrar um brinquedo esquecido ou assistir a poucos segundos de uma abertura de televisão para que décadas desapareçam diante dos nossos olhos. De repente, voltamos a correr para casa depois da escola, largando a mochila em qualquer canto e ligando a televisão antes mesmo que o tubo de imagem terminasse de aquecer. Durante meia hora, o mundo lá fora deixava de existir.

Nas últimas semanas, essa viagem ao passado ganhou um significado ainda mais especial. Os fãs de tokusatsu receberam com enorme tristeza a notícia da morte do ator japonês Hikaru Kurosaki, aos 64 anos, eterno intérprete do lendário Jaspion. Para quem cresceu nos anos 1980 e 1990, sua partida foi muito mais do que a despedida de um ator: foi a sensação de perder um dos heróis que ajudaram a construir nossa imaginação. Em março de 2025, tive a alegria de homenagear essa trajetória aqui no Socialyte, na matéria Os 40 anos de O Fantástico Jaspion, o fenômeno tokusatsu. Agora, em meio à comoção causada por sua despedida, essa lembrança também nos convida a revisitar outra obra que ajudou a transformar para sempre a televisão brasileira.

Para quem, como eu, nasceu nos anos 70, poucas lembranças são tão vivas quanto aquelas tardes em frente à TV. Não existiam redes sociais, plataformas de streaming nem celulares disputando nossa atenção. O entretenimento tinha hora marcada. As amizades eram construídas nas calçadas, nas brincadeiras de rua e nas conversas do recreio sobre o episódio exibido no dia anterior. E bastavam os primeiros acordes daquela marcha militar eletrônica para o coração acelerar. Em segundos, cinco jovens uniformizados enfrentavam monstros gigantes, explosões espetaculares e batalhas em pedreiras que, para a nossa imaginação, pareciam acontecer em outro planeta.

Para milhões de brasileiros, esse ritual sagrado começou em 22 de fevereiro de 1988, quando a extinta Rede Manchete levou ao ar, dentro do clássico Clube da Criança, apresentado por Angélica com apenas 14 anos, o primeiro episódio de Esquadrão Relâmpago Changeman (Dengeki Sentai Changeman).

O que poderia ser apenas mais uma produção japonesa adquirida para preencher a programação infantil rapidamente se transformou em um fenômeno cultural sem precedentes. Changeman não apenas conquistou excelentes índices de audiência, como inaugurou o primeiro grande movimento de fãs de tokusatsu no Brasil. Em uma época em que a internet ainda parecia ficção científica, a série dominava as conversas nas escolas, inspirava festas a fantasia, estampava lancheiras da Glasslite, cadernos, brinquedos, álbuns de figurinhas e fazia milhares de crianças repetirem, todos os dias, os golpes e as transformações dos heróis nos quintais e nas ruas.

Mais do que um sucesso televisivo, Changeman abriu definitivamente as portas para uma verdadeira invasão da cultura pop japonesa. Graças ao impacto da série, que estreou no Brasil junto ao Fantástico Jaspion, vieram também Flashman, Jiraiya, Jiban, Black Kamen Rider, Cybercop e tantas outras produções que transformariam a extinta Rede Manchete em referência absoluta quando o assunto eram super-heróis japoneses. Sem exagero, é possível dizer que a paixão dos brasileiros pelos tokusatsus começou ali.

Hoje, quase quatro décadas depois, os efeitos especiais revelam naturalmente as limitações tecnológicas dos anos 1980. Os monstros de borracha já não impressionam como antes, e as maquetes destruídas em explosões artesanais denunciam um tempo em que a criatividade precisava compensar a ausência da computação gráfica. Mas há algo que permanece absolutamente intacto: a emoção.

Porque algumas séries envelhecem. Outras se tornam patrimônio afetivo de uma geração inteira. Esquadrão Relâmpago Changeman não foi apenas um programa de televisão. Foi parte da infância de milhões de brasileiros. E celebrar seus 38 anos no país é, acima de tudo, celebrar uma época em que bastava ligar a TV para acreditar que a coragem, a amizade e a Força da Terra eram suficientes para salvar o universo.

A MITOLOGIA DA FORÇA DA TERRA

Divulgacao © Toei Company Ltd

Divulgação: © Toei Company, Ltd.

Quando estreou no Japão, em 2 de fevereiro de 1985, Changeman era a nona equipe oficial da franquia Super Sentai, produzida pela gigante Toei Company em parceria com a TV Asahi. A produção trazia uma missão ingrata: renovar uma fórmula que já dava sinais de desgaste. A solução da Toei foi apostar em um tom mais grandioso, tanto na estética quanto na narrativa.

Em vez de cientistas ou adolescentes comuns, a série introduziu uma mitologia que misturava espiritualidade, ecologia e ficção científica: a Força da Terra (Earth Force), uma energia ancestral que desperta em momentos de catástrofe para conceder poderes a indivíduos dispostos a sacrificar a vida pelo planeta.

A ameaça era o Império Gozma, uma máquina de guerra intergaláctica liderada pelo temível Rei Bazoo — uma entidade misteriosa cuja presença projetada em tamanho gigante causava calafrios. Mas a Terra reagiu. Cinco soldados das Forças de Defesa do Japão foram banhados pela energia do planeta, assumindo os poderes de criaturas mitológicas:

🔴 Change Dragon (Tsurugi Hiryu): O líder e ex-jogador de beisebol. Determinado, estratégico e o coração do time.

🟢 Change Griffin (Shou Hayate): O piloto galanteador, impulsivo e especialista em combate aéreo.

🔵 Change Pegasus (Yuuma Ozora): O operador de mechas focado, gentil e com um fraco por comida e animais. Este era o meu predileto, tanto pela cor (sim, sou Cruzeirense!) quanto pelo apego aos animais.

Change Mermaid (Sayaka Nagisa): A cientista e mente brilhante do grupo, equilibrada e cirúrgica em combate.

💗 Change Phoenix (Mai Tsubasa): A jovem motoqueira, destemida e dona de um espírito de liderança avassalador.

Por serem militares treinados e adultos, diferentemente da maioria dos Sentais anteriores, os protagonistas traziam um tom mais adulto às missões e uma seriedade inédita para o gênero, aproximando a série dos filmes de ficção científica e ação que dominavam os cinemas daquela década.

VILÕES COM CAMADAS DRAMÁTICAS

Imperio Gozma

Império Gozma – Divulgação: © Toei Company, Ltd.

Se os heróis conquistaram o público, o verdadeiro diferencial de Changeman estava na construção de seus antagonistas. O Império Gozma estava longe de ser um grupo de vilões unidimensionais: seus principais comandantes possuíam motivações, conflitos internos e passados marcados pela tragédia. Muitos tiveram seus planetas destruídos pelo próprio Rei Bazoo e permaneceram a seu serviço movidos pelo medo, pela manipulação ou pela esperança de um dia verem seus mundos renascer.

O frio e estrategista General Giluke acreditava cegamente na supremacia militar de Gozma e fazia de tudo para provar seu valor a Bazoo, mesmo sendo constantemente tratado como uma peça descartável. Rainha Ahames, consumida pela ambição, sonhava em conquistar poder suficiente para libertar seu planeta natal, tornando-se uma das personagens mais complexas da série. Shima, criada como um dos comandantes de Gozma, escondia um dos maiores segredos da trama. Sua voz masculina e seu comportamento rígido mascaravam uma identidade marcada pela manipulação de Bazoo, culminando em um dos arcos de revelação e redenção mais marcantes da série. Já o pirata espacial Buba conquistou os fãs por seu rígido código de honra: embora fosse inimigo dos Changemen, reconhecia a coragem de seus adversários e protagonizou aquele que muitos fãs consideram o duelo mais emocionante de toda a história dos tokusatsus no inesquecível duelo final contra Change Dragon, que resultou em sua morte ao pôr do sol numa cena de “absolute cinema”.

Outro personagem que surpreendeu foi Gyodai, inicialmente apresentado apenas como o pequeno auxiliar responsável por fazer os monstros crescerem. Com aparência quase cômica, ele parecia destinado a ser apenas um alívio entre as batalhas, mas acabou ganhando profundidade ao demonstrar sentimentos de lealdade, medo e compaixão. Em seus momentos finais, Gyodai rompe parcialmente a submissão ao Império Gozma e protagoniza um tocante arco de redenção, revelando que até mesmo um servo aparentemente insignificante podia preservar sua humanidade.

Na base da hierarquia do império estavam os soldados Hidler, os inseparáveis capangas mascarados que formavam o exército de Gozma. Embora fossem os tradicionais “soldados de choque” derrotados em praticamente todos os episódios, sua presença constante ajudava a reforçar a dimensão militar da organização e garantia as memoráveis sequências de combate corpo a corpo que se tornaram marca registrada dos Super Sentai.

Essa combinação de honra, ambição, tragédia, redenção e lealdades conflitantes fez do Império Gozma um dos grupos de vilões mais memoráveis da história dos tokusatsus. Em muitos momentos, o público brasileiro não apenas vibrava com as vitórias dos Changemen, mas também se emocionava com o destino de seus adversários, algo extremamente raro em séries voltadas ao público infantil da época.

A ARTE DO EFEITO PRÁTICO E A DUBLAGEM SUPREMA

Assistir a Changeman hoje é testemunhar um espetáculo produzido quase inteiramente por meio de recursos práticos. Numa época sem computação gráfica (CGI), tudo dependia de criatividade, explosões reais, maquetes detalhadas e um impressionante trabalho artesanal. As explosões nas pedreiras de Saitama eram reais e perigosas, usando pólvora de verdade a centímetros dos dublês. O monumental Change Robô e os monstros gigantes ganhavam vida em maquetes urbanas absurdamente detalhadas, construídas em escala reduzida, onde prédios, torres de energia e carros eram destruídos em tomadas únicas — errar o tempo da explosão significava reconstruir o cenário do zero.

Gemini Generated Image v5xh3yv5xh3yv5xhOs trajes de elastano e os capacetes eram extremamente desconfortáveis, retendo um calor sufocante que passava dos 30°C no verão japonês. O dinamismo e o impacto visual das lutas se devem à lendária Japan Action Club (JAC), a escola de dublês fundada por Sonny Chiba, cujos profissionais executavam acrobacias inacreditáveis no manejo de espadas e saltos de grandes alturas. A icônica trilha sonora de Tatsumi Yano e a abertura enérgica na voz de Hironobu Kageyama fecharam o pacote técnico de forma impecável.

No Brasil, o fenômeno foi amplificado pelo trabalho impecável do Estúdio Álamo, em São Paulo. A dublagem brasileira não apenas traduziu os diálogos, mas imprimiu personalidade aos personagens e ajudou a transformar a série em um clássico da televisão nacional. Entre os profissionais que marcaram essa produção estavam Carlos Laranjeira (Jiban, Boomerman em O Fantástico Jaspion, Lion-O em ThunderCats), Líbero Miguel (Satan Goss em O Fantástico Jaspion, e Dokusai em Jiraiya: O Incrível Ninja), Gilberto Baroli (Saga de Gêmeos e Kanon de Gêmeos em Os Cavaleiros do Zodíaco, e atores como Gene Hackman, Anthony Hopkins e Robert Duvall), Sílvio Navas (Mumm-Ra em ThunderCats, Papai Smurf em Os Smurfs, Darth Vader em Star Wars, e atores como Bud Spencer, Charles Chaplin e Gene Wilder), Mário Vilela (Seu Barriga e Nhonho em Chaves), Élcio Sodré (Shiryu de Dragão em Os Cavaleiros do Zodíaco, Mestre Buggy em One Piece, e Black Kamen Rider) e Cecília Lemes (a inesquecível Chiquinha, de Chaves, e atrizes como Sandra Bullock, Julia Roberts e Jamie Lee Curtis).O resultado foi uma adaptação que conquistou identidade própria e eternizou bordões como “Força da Terra!“, “Canhão Power!” e os nomes dos golpes, incorporados às brincadeiras de rua e ao imaginário de toda uma geração.

ONDE ESTÃO OS CHANGEMEN HOJE?

Elenco principal Changeman

Divulgação: © Toei Company, Ltd.

Ao contrário do que nossa imaginação infantil ditava, os guerreiros da Força da Terra seguiram caminhos distintos após o fim dos 55 episódios da série. Quase quatro décadas depois, veja como estão os atores que deram vida ao esquadrão:

🔴 Haruhiko Oishi (Change Dragon)

O intérprete do líder Tsurugi Hiryu manteve uma carreira sólida no teatro e na televisão japonesa pós-Changeman. Embora hoje tenha uma rotina muito mais reservada e distante dos grandes holofotes do audiovisual, Oishi guarda um carinho imenso pelo papel e costuma participar de painéis comemorativos no Japão, sempre reverenciado como um dos líderes mais imponentes da franquia Super Sentai.

🟢 Hiroshi Watari (Change Griffin)

Um verdadeiro patrimônio do fã brasileiro. Watari unia um carisma avassalador a uma habilidade física invejável, já que fazia boa parte de suas cenas de ação sem dublê. Logo após o término de Changeman, a Toei o escalou para ser o protagonista de seu próprio Metal Hero: Spielvan (que a TV brasileira, de forma confusa, tentou emplacar como Jaspion 2). Mais tarde, ele ainda retornaria à Manchete como o inesquecível Boomerman em O Fantástico Jaspion. Watari já visitou o Brasil diversas vezes, arrastando multidões em eventos de cultura pop e declarando publicamente que considera o país sua segunda casa.

🔵 Kihachiro Uemura (Change Pegasus)

Uemura permaneceu íntimo do universo dos heróis: no ano seguinte, ele interpretou Dan (Green Flash) em Comando Estelar Flashman e, anos depois, o vilão Chevalier em Fiveman. Ele também fez carreira como dublador de animes de peso, como One Piece (dando voz a Chaka). Curiosamente, Uemura levou o heroísmo para a vida real: ele atua como instrutor voluntário de primeiros socorros e chegou a receber uma medalha de honra do Corpo de Bombeiros de Tóquio após usar um desfibrilador para salvar a vida de um idoso em uma estação de trem.

⚪ Mai Ooishi (Change Mermaid)

A intérprete da inteligente Sayaka Nagisa seguiu trabalhando como atriz e modelo no Japão durante os anos 1980 e 1990. Hoje, afastada das telas, Mai Ooishi é presença constante em eventos de nostalgia ao lado de seus ex-colegas de elenco. Sua personagem é amplamente celebrada por ter sido uma das primeiras heroínas dos Super Sentais a quebrar o estigma de “ajudante”, mostrando-se uma estrategista militar fria e fundamental para a sobrevivência do grupo.

💗 Sumiko Tanaka (Change Phoenix)

A carismática Mai Tsubasa foi o papel de maior destaque de Sumiko Tanaka na TV japonesa. Pouco tempo após o término da série, ela optou por se aposentar da carreira artística para se dedicar à vida familiar e a projetos pessoais discretos. Apesar de ser a mais difícil de aparecer na mídia, ela ocasionalmente se reúne com o elenco em celebrações especiais, para o delírio dos fãs que jamais esqueceram sua energia contagiante em tela.

O LEGADO INABALÁVEL

Nostalgica infancia dos anos 80

Nostálgica infância dos anos 80

O sucesso de Changeman no Brasil foi um “divisor de águas” comercial e cultural. Foi ele quem pavimentou a estrada para que a Rede Manchete e outras emissoras trouxessem a enxurrada de produções que definiram a Era de Ouro do gênero no país: Flashman, Jiraiya, Jiban, Black Kamen Rider, Cybercop, entre outros.

Anos mais tarde, quando a franquia ocidental Power Rangers desembarcou por aqui adaptando os Super Sentais modernos, o público brasileiro já era “pós-graduado” no formato, graças ao pioneirismo do Esquadrão Relâmpago.

O tempo passou, a TV Manchete fechou suas portas e a tecnologia mudou a forma como consumimos histórias. Atualmente, os episódios podem ser encontrados no YouTube e no Prime Video, permitindo que quarentões e cinquentões revisitem suas memórias e apresentem os heróis de sua infância para as novas gerações.

Mais do que nostalgia barata, rever Changeman na maturidade nos faz perceber que, por trás das faíscas e dos monstros espaciais, a série entregava uma mensagem atemporal e urgente sobre amizade, responsabilidade coletiva e a importância de indivíduos diferentes unirem forças por um bem maior.

Alguns heróis derrotam o monstro do dia. O Esquadrão Relâmpago Changeman conseguiu derrotar o tempo. E, enquanto houver alguém para cantar sua abertura, eles jamais deixarão de proteger a nossa nostálgica infância.

E você, qual é a sua lembrança favorita do Esquadrão Relâmpago Changeman? Comente abaixo e compartilhe a matéria com seus amigos em suas redes sociais. Nos vemos na próxima matéria!

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