
Para os nascidos até início dos anos 2000, animações adultas automaticamente nos remetem à infância ou, no máximo, à adolescência. No meu caso, nascido em 76, é ainda mais forte a nostalgia pelas inúmeras animações em 2D que inundavam as programações televisivas nos anos 80 e 90. De desenhos animados a animes, e até animações em formato de longa metragem, essas obras eram quase sempre voltadas a um público jovem — consumidores de brinquedos, HQs, games, materiais escolares, dentre outros produtos. Entretanto, mesmo naquela época, ainda que de forma comedida, já vinham a público algumas animações com temáticas adultas, como o incrível Akira (1988) e emocionante Gigante de Ferro (1999).
Me lembro de assistir a uma adaptação animada de O Senhor dos Anéis (1978) rodada com a técnica de rotoscopia, ficando impressionado e me sentindo compelido a conhecer o extraordinário universo dos livros de Tolkien no início dos anos 80. Esta percepção de que animações não eram somente para um público infanto-juvenil, no entanto, só viria a desaparecer no início dos anos 2000, quando os cinemas passaram a utilizar as animações para contar histórias mais dramáticas ou violentas.
Na matéria de hoje, trago 3 animações adultas imperdíveis para maratonar que vão muito além do puro entretenimento, com temáticas profundas e histórias impressionantes, todas atualmente disponíveis em streaming no Brasil.
1. VINLAND SAGA (2019-2023)

Vinland Saga – Divulgação: Kodansha
NETFLIX e CRUNCHYROLL
2 temporadas, com 48 episódios
Anime japonês de ação, épico histórico, Seinen
📊 IMDb: 8.8/10
🍅 Rotten Tomatoes: 100% (Crítica) | 80% (Público)
Sinopse:
No turbulento século XI, o jovem guerreiro viking Thorfinn (Yūto Uemura) busca vingança contra o carismático e implacável Askeladd (Naoya Uchida), o homem que matou seu pai, Thors (Akio Ōtsuka). Em meio a batalhas vikings, invasões e dilemas morais, Thorfinn é confrontado com a verdadeira natureza da guerra e a busca por um ideal de paz em um mundo dominado pela violência.
Criação: Makoto Yukimura (baseado em seu mangá homônimo)
Direção: Shūhei Yabuta (estúdio WIT Studio na temporada 1 e estúdio MAPPA na temporada 2)
Elenco principal: Yūto Uemura (Thorfinn Karlsefni), Naoya Uchida (Askeladd), Kenshō Ono (Canute), Hiroki Yasumoto (Bjorn), Akio Ōtsuka (Thors Snorresson)
💡 Por que assistir?
A transformação de Thorfinn no decorrer desta série de animação é profunda e rara numa obra de ação. Com traços marcantes numa animação de extrema qualidade, você é fisgado logo nos primeiros episódios pela jornada de vingança do protagonista enquanto sente a perda gradativa de sua humanidade no decorrer de toda a 1ª temporada.
A ambientação histórica e o retrato dos vikings não como “bandidos caricatos”, mas como seres humanos complexos, com honra, traumas, dúvidas e contradições, traz uma camada de seriedade pouco vista em animações e mesmo em séries em live-action, como a própria série Vikings (2013-2020).
Visualmente impressionante, seja nas batalhas brutais ou nos momentos silenciosos de reflexão, a animação equilibra grandiosidade e introspecção, impactando muito pela carga dramática e pelos momentos de sobriedade em meio ao caos das batalhas.
📚 Curiosidades:
- A série adapta o mangá homônimo de Makoto Yukimura, que concluiu sua história em 2025 após mais de 20 anos de publicação.
- Makoto Yukimura pesquisou profundamente as Sagas Vinlandesas, textos medievais islandeses que narram as explorações vikings. Vários personagens e eventos da série têm base nessas narrativas antigas.
- A segunda temporada (pelo estúdio MAPPA) tomou o rumo da “vida de escravo” do protagonista, o que gerou um contraste profundo entre as duas fases da vida de Thorfinn.
- O protagonista Thorfinn é inspirado em uma figura real, Thorfinn Karlsefni, um explorador islandês do século XI que teria viajado até a América do Norte, muito antes de Cristóvão Colombo.
- A série é reconhecida por evitar exageros típicos dos animes de ação. As batalhas são coreografadas de modo cru e histórico, com destaque para o peso psicológico dos combates.
- As aberturas da animação trazem metáforas visuais sobre culpa, perda e redenção, refletindo as fases do protagonista, do ódio à reflexão.
2. INVENCÍVEL (Invincible, 2021- )

Invencível – Divulgação: Amazon Studios
AMAZON PRIME VIDEO
3 temporadas, com 26 episódios até o momento
Animação dos EUA de drama, ação, ficção científica
📊 IMDb: 8.7/10
🍅 Rotten Tomatoes: 99% (Crítica) | 92% (Público)
Sinopse:
Mark Grayson (Steven Yeun), um adolescente aparentemente comum, herda os incríveis poderes de seu pai, o lendário super-herói Omni-Man (J.K. Simmons). À medida que descobre o que significa ser um verdadeiro herói, Mark se depara com verdades sombrias sobre sua família, o mundo que protege e os limites morais do heroísmo.
Criação: Robert Kirkman, Cory Walker e Ryan Ottley (baseado na HQ homônima da Image Comics)
Direção: Jeff Allen
Elenco principal: Steven Yeun (Mark Grayson / Invencível), J.K. Simmons (Nolan Grayson / Omni-Man), Sandra Oh (Debbie Grayson), Gillian Jacobs (Eve Atômica), Zazie Beetz (Amber Bennett), Walton Goggins (Cecil Stedman)
💡 Por que assistir?
Esta animação incrível de Robert Kirkman (mesmo criador de The Walking Dead) pega o arquétipo do herói como símbolo e o desconstrói: toda violência tem consequência, a “família de heróis” tem segredos, as motivações tradicionais se mostram muito mais complexas e o conceito de super-heróis é analisado sob pontos de vista diferentes, bem mais profundos que nas obras audiovisuais da Marvel e da DC Comics.
Apesar de se tratar de uma animação com super-heróis, o foco está muito mais nos dilemas morais, na transição entre jovem e homem, na responsabilidade, na culpa e no conceito de legado — temas que sempre nos convidam à reflexão.
A animação é fluida, brutal quando necessária, mas também introspectiva, nos entregando espetáculos em momentos de absoluta catarse, mas com vários conceitos filosóficos e profundidade até em personagens secundários.
Assistir ao primeiro episódio é uma experiência única, que após um início clichê e aparentemente estagnado no “lugar comum” da jornada do herói, te surpreende de forma tão marcante que nunca mais vai querer parar de assistir.
📚 Curiosidades:
- A animação ficou conhecida pelo nível gráfico de violência, reproduzindo fielmente o tom das HQs e contrastando com o estilo colorido de animações tradicionais.
- O ator e roteirista Seth Rogen é também um dos produtores da animação — e dubla o personagem Allen, o Alien, um guerreiro espacial carismático.
- O lançamento de Invincible em 2021 foi um dos maiores sucessos de público do Prime Video, especialmente entre adultos de 18 a 35 anos.
- A complexidade moral e o tom adulto ajudam a torná-la mais do que “apenas” uma animação para entretenimento, realmente não recomendada para crianças.
- Há uma adaptação live-action em desenvolvimento pela Universal Studios, com confirmação do criador Robert Kirkman de que o projeto ainda está em andamento. No entanto, não há data de lançamento confirmada, e o projeto continua em desenvolvimento.
3. PRIMAL (2019- )

Primal – Divulgação: Turner Broadcasting System / WarnerMedia
HBO MAX
2 temporadas, com 21 episódios
Animação dos EUA de drama, ação, aventura histórica/primitiva
📊 IMDb: 8.6/10
🍅 Rotten Tomatoes: 100% (Crítica) | 94% (Público)
Sinopse:
Em um mundo brutal e selvagem, o homem das cavernas Spear (Aaron LaPlante) une-se a Fang, uma fêmea de dinossauro após ambos perderem suas famílias para predadores. Juntos, eles enfrentam feras colossais, forças primitivas e o próprio desespero, formando uma improvável amizade sem palavras, guiada apenas pelo instinto e pela sobrevivência.
Criação: Genndy Tartakovsky
Direção: Genndy Tartakovsky
Elenco principal: Aaron LaPlante (Spear), Laëtitia Eido (Mira)
💡 Por que assistir?
Esta animação é uma obra-experimento em muitos sentidos: quase silêncio, quase sem diálogos, apenas imagens, som e muita emoção, algo raro de se ver numa animação adulta.
Temáticas de sobrevivência, de amizade improvável, de luto, de traumas e de resiliência num mundo inóspito — tudo isso aparece sem floreios, com uma animação primorosa e com ritmo cinematográfico, característicos das demais obras do autor russo Genndy Tartakovsky, autor de Samurai Jack (2001-2017), O Laboratório de Dexter (1996-2003) e Star Wars: Clone Wars (2003-2005). Desde o 1º episódio, que conta a “origem” dos personagens protagonistas, nos emocionamos com seus traumas e passamos a torcer por eles, que apesar das raríssimas falas, se comunicam eloquentemente através de olhares e gestos primorosamente criados na animação.
É uma animação realmente diferente de todas que alguma vez você tenha assistido, que mescla violência, drama, ação, aventura, terror e até momentos de humor, te levando a um mágico mundo fictício que reflete, de forma lúdica, o mundo em que vivemos atualmente.
📚 Curiosidades:
- Primal é quase inteiramente sem falas. Genndy Tartakovsky apostou na narrativa visual pura, utilizando expressões, gestos e sons para transmitir emoção e significado.
- O estilo visual foi feito com pintura digital quadro a quadro, em tons terrosos e sombrios, criando uma atmosfera de arte primitiva e épica.
- Primal venceu o Emmy Award de Melhor Série Animada de Curta Duração em 2021, e novamente em 2022, consolidando-se como uma das produções mais elogiadas do Adult Swim.
- A beleza plástica do primitivo (paisagens, climas, criaturas) contrasta com a brutalidade do mundo que retrata — esse choque visual/reflexivo é parte do “gancho” da animação.
- Críticos frequentemente comparam Primal a obras do cinema mudo, como as de Chaplin ou Eisenstein, pelo uso magistral da linguagem visual e da trilha sonora como formas de transmitir pura emoção.
E você? Já conhecia as animações acima? Comente quais outras animações adultas posso abordar numa parte 2, e compartilhe a matéria com seus amigos em suas redes sociais.
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