MINAS GERAIS ENTROU NA MODA. E NÃO É POR ACASO

Por 04/11/2026No Comments13 min de leitura
Minas Gerais

Durante muito tempo, quando se falava em turismo em Minas Gerais, algumas imagens apareciam quase automaticamente: igrejas barrocas, casarões coloniais e ladeiras históricas, compondo uma paisagem que fez de Ouro Preto, Tiradentes, Mariana, Congonhas e São João del-Rei referências do turismo brasileiro e ajudou a construir uma imagem poderosa do estado, ainda hoje fundamental para sua identidade turística.

Mas alguma coisa mudou.

Minas Gerais continua sendo história, patrimônio e memória, mas passou a ser percebida também por suas montanhas, cafés, queijos, vinhos, cachoeiras, trilhas, festas populares, gastronomia, propriedades rurais, experiências de bem-estar, aventura, arte e natureza, revelando uma diversidade que sempre esteve presente no território, mas que agora começa a ocupar um espaço maior no imaginário de quem escolhe Minas como destino.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das razões de Minas Gerais estar na moda.

Os números ajudam a compreender esse novo momento. Em 2024, mais de 32 milhões de turistas circularam por Minas Gerais, enquanto a atividade turística cresceu 11,8%, segundo dados divulgados pelo Governo de Minas com base em informações do IBGE e do Observatório do Turismo de Minas Gerais; no mesmo período, o estado registrou crescimento de 10,6% na entrada de turistas estrangeiros, alcançando aproximadamente 42,6 mil visitantes internacionais, segundo informações do Ministério do Turismo, Embratur e Polícia Federal divulgadas pelo Governo de Minas.

Minas Gerais aparece como o segundo destino de viagens mais procurado do Brasil, conforme divulgação realizada pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo em 2025, enquanto a mesma pesquisa apontou crescimento de 11,7% nos gastos dos brasileiros com viagens e de 24,4% na motivação cultural e gastronômica das viagens.

Mais do que revelar o tamanho do fluxo, esses números ajudam a perceber uma transformação na própria experiência de viajar, em um momento no qual natureza, gastronomia, cultura, autenticidade e contato com os modos de vida locais ganham espaço nas escolhas dos visitantes, encontrando em Minas Gerais um território especialmente favorável, formado por paisagens diversas, patrimônio cultural, festas tradicionais, produção rural, gastronomia reconhecida e uma hospitalidade que não precisa ser criada para o turismo, porque já faz parte da maneira mineira de receber.

É por isso que o mapa turístico do estado está se ampliando.

A Mantiqueira ganhou força com suas montanhas, cafés, azeites, vinhos, pousadas e experiências de bem-estar; o Caparaó reúne montanha, natureza, café e hospitalidade; a Serra da Canastra aproxima paisagem, produção rural, queijo e gastronomia; a região do Espinhaço combina patrimônio natural, cultura e modos de vida, enquanto diferentes territórios mineiros começam a estruturar suas próprias narrativas turísticas, valorizando características que durante muito tempo foram vistas apenas como parte da vida cotidiana.

Essa diversificação não significa abandonar as cidades históricas, que continuam sendo referências fundamentais, mas ampliar a imagem que temos de Minas e reconhecer que o patrimônio turístico do estado vai muito além de suas igrejas, casarões e centros históricos.

Talvez um dos melhores exemplos dessa transformação esteja justamente nos eventos, que passaram a ser compreendidos não apenas como manifestações culturais ou momentos de celebração para as comunidades, mas também como importantes geradores de deslocamento, hospedagem, consumo, visibilidade e oportunidade para que visitantes conheçam municípios que, em outras circunstâncias, talvez não fizessem parte de seus planos de viagem.

O Carnaval é o exemplo mais evidente dessa capacidade de mobilização. Em 2024, a festa movimentou cerca de 12 milhões de pessoas em Minas Gerais e gerou aproximadamente R$ 4,7 bilhões para a economia mineira, segundo dados do Observatório do Turismo de Minas Gerais e da Secult-MG, sendo que aproximadamente 6,5 milhões de pessoas circularam pelos municípios do interior, demonstrando que a força do evento ultrapassa os limites da capital e alcança diferentes territórios do estado.

A Semana Santa também revela essa capacidade de transformar tradição em fluxo turístico. Em 2025, o programa Minas Santa reuniu 667 eventos em 460 cidades, alcançando aproximadamente 550 mil turistas e fiéis e movimentando mais de R$ 1,9 bilhão na economia estadual, de acordo com dados divulgados pela Secult-MG, mostrando como manifestações religiosas e culturais podem contribuir para a movimentação econômica de municípios de diferentes portes.

O inverno, por sua vez, passou a ser trabalhado como uma temporada turística própria, aproveitando as características climáticas e paisagísticas de determinadas regiões e associando-as à gastronomia, à música, ao vinho, ao café, ao bem-estar e à cultura. Em 2025, a programação do Inverno em Minas envolveu mais de 300 municípios, com centenas de festas e eventos e expectativa de aproximadamente 7 milhões de pessoas circulando pelo estado, segundo o Governo de Minas.

O calendário continua com o Minas Junina, que em 2025 reuniu mais de 400 municípios e teve expectativa de alcançar cerca de 3 milhões de pessoas, transformando quadrilhas, música, culinária, manifestações populares e tradições comunitárias em uma grande vitrine da cultura mineira e, ao mesmo tempo, em uma oportunidade de geração de fluxo turístico para municípios que nem sempre aparecem nos circuitos convencionais.

São números que ajudam a revelar uma mudança importante: o calendário cultural está se transformando em calendário turístico, e essa transformação tem consequências que vão muito além do evento em si, porque cada festa, festival ou celebração pode provocar deslocamentos, gerar ocupação hoteleira, movimentar restaurantes e comércio, estimular a produção local e despertar no visitante o interesse por outros atrativos existentes naquele território.

É nesse ponto que a gastronomia encontra o turismo de maneira quase natural.

O queijo, o café, as quitandas, a cozinha de fogão a lenha, os doces, os azeites, os vinhos e a cachaça deixaram de ser apenas produtos associados à identidade mineira e passaram também a funcionar como elementos capazes de criar experiências e até mesmo motivar deslocamentos, especialmente quando o visitante pode conhecer a origem do alimento, o processo de produção, a propriedade rural e as pessoas que carregam esses saberes.

Uma pesquisa de demanda turística realizada pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais já havia identificado a gastronomia como a principal imagem associada ao estado para cerca de 29% dos visitantes; embora seja uma pesquisa anterior e não deva ser tomada como um retrato estatístico atual, o dado ajuda a dimensionar a força histórica da cozinha mineira na construção da imagem turística de Minas Gerais.

E talvez esteja justamente aí uma das maiores riquezas do estado, porque o produto raramente aparece sozinho: por trás de um queijo existe uma fazenda e uma história familiar, por trás de um café existe uma paisagem e um modo de produzir, por trás de uma quitanda existe uma receita que atravessou gerações e, por trás de uma festa, existe uma comunidade que mantém viva uma tradição.

A experiência turística contemporânea abre espaço para essa aproximação entre visitante e território, permitindo que conhecer a origem de um produto, conversar com quem o produz, compreender seus processos e compartilhar uma refeição sejam tão importantes quanto simplesmente consumir aquilo que está sendo oferecido.

É uma mudança significativa na maneira de olhar para o turismo, porque uma fazenda pode se transformar em atrativo, uma mesa de café pode se tornar uma experiência, uma festa popular pode revelar uma identidade, uma trilha pode apresentar uma paisagem e uma pequena comunidade pode despertar interesse justamente por aquilo que seus moradores consideram parte natural de sua rotina.

É nesse movimento de ampliação das narrativas turísticas que o afroturismo também ganha cada vez mais espaço em Minas Gerais, trazendo para o centro da experiência turística histórias, memórias, saberes e manifestações que fazem parte da própria formação do estado, mas que durante muito tempo permaneceram pouco visíveis nos discursos oficiais sobre o turismo mineiro. A proposta não está apenas em criar novos roteiros, mas em reconhecer que a cultura afro-mineira constitui um patrimônio vivo, presente nos quilombos, nos congados e reinados, nas festas do Rosário, na gastronomia, na música, na religiosidade, nos saberes tradicionais e nos modos de vida de diferentes comunidades.

Esse movimento ganhou uma dimensão ainda mais concreta em 2025, quando Minas Gerais lançou o Caminhos do Rosário, projeto que integra as Congadas e festas do Rosário à política estadual de turismo da fé. O mapeamento reúne 701 festas em 332 municípios, com mais de 1.100 celebrações anuais realizadas por 1.170 grupos ativos, revelando uma dimensão territorial impressionante de uma tradição que atravessa gerações e que agora passa a ser apresentada também como possibilidade de roteiro, experiência e conexão entre cultura e turismo.

É uma perspectiva que dialoga com uma transformação mais ampla na maneira de pensar o turismo, na qual identidade, pertencimento e protagonismo comunitário passam a ter tanta importância quanto paisagens e equipamentos turísticos. O programa Afromineiridades, desenvolvido pelo Governo de Minas, vem justamente ampliando o reconhecimento e a valorização das culturas afro-mineiras, envolvendo manifestações como congados, reinados, quilombos e povos de terreiro, enquanto políticas de turismo de base comunitária reconhecem as comunidades quilombolas, tradicionais e de matriz africana como territórios capazes de desenvolver experiências turísticas a partir de seus próprios modos de vida.

Quando o turismo incorpora essas narrativas, Minas passa a ser apresentada não apenas como um território de igrejas, montanhas, fazendas, cafés e cidades históricas, mas também como um estado marcado por diferentes matrizes culturais, histórias de resistência, celebrações, ancestralidades e formas de viver que ajudam a explicar aquilo que hoje chamamos de identidade mineira. O afroturismo, nesse sentido, não acrescenta apenas mais um segmento ao mapa turístico: ele ajuda a recontar o próprio mapa de Minas, revelando territórios, personagens e histórias que sempre estiveram ali.

É justamente essa diversidade de narrativas que vem permitindo o surgimento de novas rotas, roteiros e experiências turísticas em diferentes regiões do estado, aproximando natureza, gastronomia, cultura, memória, fé, produção rural, aventura, bem-estar e modos de vida, ao mesmo tempo em que cria novas possibilidades de distribuição do fluxo turístico e de geração de renda para comunidades e pequenos negócios.

Novos roteiros e rotas turísticas vêm sendo estruturadas para levar visitantes a territórios que durante muito tempo permaneceram fora dos grandes circuitos, aproximando natureza, gastronomia, cultura, bem-estar, aventura, produção rural e modos de vida e ampliando a possibilidade de distribuir o fluxo turístico por diferentes regiões de Minas Gerais.

Isso muda uma velha lógica, porque Minas não precisa mais ser visitada apenas para conhecer o seu passado; ela pode ser visitada para experimentar seu presente, conhecer seus sabores, caminhar por suas paisagens, participar de suas festas, conversar com seus moradores e compreender as diferentes maneiras pelas quais os mineiros construíram sua relação com o território.

Talvez seja esse o verdadeiro segredo da moda mineira: Minas não precisou criar uma identidade turística, porque ela já existia; o que está acontecendo agora é que essa identidade está sendo apresentada sob novas perspectivas e conectada a desejos contemporâneos de viagem.

Minas é patrimônio, mas também é natureza; é história, mas também é criação contemporânea; é queijo e café, mas também é gastronomia autoral; é cidade histórica, mas também é comunidade rural; é fé, mas também é música, festa e cultura popular; é montanha, água, aventura e descanso, e é também um calendário de eventos capaz de movimentar milhões de pessoas.

Um estado que consegue transformar patrimônio cultural, gastronomia, paisagens e manifestações populares em motivos para viajar amplia suas possibilidades turísticas e cria novas portas de entrada para diferentes territórios, permitindo que o visitante encontre não apenas aquilo que já conhece de Minas, mas também aquilo que ainda não fazia parte de sua ideia sobre o estado.

Cada festa pode ser o começo de uma viagem, assim como cada sabor pode despertar a vontade de conhecer sua origem, cada paisagem pode inspirar um roteiro e cada comunidade pode oferecer uma experiência que não se encontra em outro lugar.

Talvez esteja justamente aí a grande oportunidade de Minas Gerais: não competir com aquilo que já fez sua fama, mas ampliar a imagem que o Brasil tem do estado, mostrando que a Minas das cidades históricas é apenas uma das muitas Minas possíveis.

Porque Minas Gerais não é apenas um lugar para onde se viaja. É um lugar que se experimenta.

E quando um território consegue transformar aquilo que é cotidiano para seus moradores em desejo para quem vem de fora, o turismo deixa de ser apenas uma atividade econômica e passa a ser também uma maneira de apresentar ao mundo aquilo que Minas sempre soube ser.

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