AS ARMADILHAS DA ANSIEDADE

Por 28/10/2026No Comments4 min de leitura

Um amigo próximo, que gerencia várias pessoas em seu trabalho, enviou-me a seguinte questão esta semana:

“Como lidar com uma colega de trabalho que tem crises de ansiedade e está fazendo tratamento (sei que essa orientação deveria ter partido da empresa)? Aparentemente, pessoas ‘normais’ e sem problemas visíveis estão com isso… Na semana passada, recebi um áudio de uma tia chorando e dizendo que tinha se trancado no quarto… 😑 Outra coisa: a minha colega disse que o remédio que está tomando a deixa apática, sem reação para as demandas do dia a dia… Então, fico meio sem saber o que fazer ou como me comportar, pois nunca sei até onde posso ir com as demandas do dia sem gerar gatilhos ou crises de ansiedade.”
A resposta daria um livro sobre ansiedade no ambiente de trabalho, risco de suicídio e sua subjetividade, além da medicação como parte da solução ou fuga dos problemas. Mas começo respondendo como um comissário de bordo: “Coloque primeiro a sua máscara, depois ajude o outro”. Vivemos tempos difíceis. Então, cuide-se, meu irmão! Atente para o fato de que o comissário não explica isso porque o avião está caindo, mas porque pode vir a acontecer um acidente. Neste momento, está tudo bem e ainda nem decolamos.

A ansiedade é o resultado da soma das realidades e de sua projeção para o futuro, a partir do peso que essa soma já tem no presente. Some o peso do avião, a possibilidade de chuva e vento, o risco de uma pane total e um provável pássaro em rota de colisão com a turbina! Pode piorar se você imaginar um terrorista a bordo. A ansiedade tem a ver com isso. Tudo isso é possível, mas nada disso existe realmente.

Nesta semana após as eleições — de ânimos alterados, de previsões exageradas, de corações magoados e de palavras soltas ao vento —, o medo sobressai. Independentemente de em quem você votou, o ambiente é amedrontador. Comece parando de somar as realidades, pois o resultado vai ser ansiedade.

E se eu olhar para dentro de mim? Sinto culpa: da situação da família, do cônjuge que foi embora (ou que nunca veio), do filho que está sozinho em casa porque preciso trabalhar, do dinheiro que não atende, de não poder compartilhar meu medo com ninguém… Da solidão. De não ser compreendido.

Tente se abrir. Fale um pouco mais. Tente escutar. Fale um pouco menos, se for você o amigo sensível. Se for você o cônjuge interessado, respeite a dúvida e o medo do outro. Nada de respostas prontas nem de julgamento. Escute ativamente. Deixe que a pessoa se escute através dos seus ouvidos. Nisso, ela vai perceber o que exagerou nos sentimentos e vai ver que tem mais valor do que imaginava, simplesmente porque você a escuta neste momento.

Quanto à medicação, tenha paciência. Ela leva tempo. Ela, sim, invade suas emoções e tira a cor dos seus olhos, mas é um mal necessário quando seus pensamentos atropelam suas emoções ou vice-versa, tirando você de um equilíbrio mínimo. Só um especialista pode receitar — se teve o bom senso de escutar e discernir com você a sua dor para propor um suporte químico por um tempo — e só ele deve retirar a medicação. Medicação sem supervisão é confusão.

Então, cuide-se. Fique menos online. Produza. Fuja dos extremistas. Busque pessoas que não dependem do vento e das estações para plantar e colher. Afinal, “um pássaro não pousa em um galho porque tem a certeza de que ele não vai se quebrar. Ele pousa, tranquilamente, porque sabe voar”.

(Cleydemir Santos é psicólogo sistêmico, terapeuta de casais, especialista em Psicodrama e TCC, com foco em Terapia do Esquema — Contato: 31.9515-2348)

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