
Amarelou o Setembro. Quando dizemos que alguém “amarelou”, estamos dizendo que essa pessoa desistiu. Em setembro, porém, essa figura de linguagem ganha um tom grave e doloroso. Alguém desistiu da vida. Alguém “amarelou” de encontrar razões para continuar a viver.
E quando esse “alguém” é apenas uma pessoa distante, certamente há alguém triste por aí — o que eu lamento profundamente. Mas, quando esse alguém é alguém que eu amo, deixa de ser estatística. É dor. É um sofrimento intenso para muitos que estão por perto. São perguntas sem respostas e uma culpa que não desbota nem “amarela” facilmente.
Falar sobre o suicídio por si só não resolve tudo — não sei se todos têm consciência disso. Todas as palestras, conscientizações e campanhas que fazemos não impedem, sozinhas, que um coração pesaroso e desanimado tente extinguir uma profunda tristeza por meio do ato extremo de dar cabo à própria existência. Devemos parar de falar? Não. Mas precisamos falar e agir. Discutir e sentir. E ter a coragem de perguntar diretamente: “Você está com vontade de tirar a própria vida? Isso tem passado pela sua cabeça?”
Se essa pessoa se sentir acolhida, você salvou uma vida.
Porque é pela fala que os fantasmas saem da mente. E se esse lugar privilegiado de escuta for acompanhado de aconchego e afeto, a chance de esse fantasma ser identificado e ficar sob a “custódia” dessa relação de confiança é enorme — até que seja tratado e dissipado. O grande argumento de quem pensa em suicídio é a sensação de não ser notado, de não fazer diferença. Mas você o notou. Você confrontou um pensamento extremamente convincente, embora tragicamente equivocado. Cada pessoa importa. Toda pessoa influenciará pelo menos 10.000 outras ao longo da sua existência, segundo pesquisas.
Se passou pela sua cabeça buscar essa “solução” para o seu sofrimento, converse com alguém. Existem pilares invisíveis que muitas vezes não paramos para refletir, mas que constituem a base de tudo: confiança básica, autonomia, iniciativa, competência, identidade e intimidade. Essas bases são construídas na infância, amadurecidas na adolescência e precisam funcionar na vida adulta. Sem elas, a engrenagem roda com dificuldade e exige constante manutenção dessa máquina fantástica chamada cérebro, que é gerenciada pelas nossas emoções.
A taxa de suicídio aumentou quase 44% em uma década. Mais pessoas estão desamparadas nesses quesitos e menos percebidas em suas dores emocionais — perto de você e de mim. Nesta semana, presenciei uma pessoa tentando se lançar de um prédio; foi preciso acionar o SAMU para intervir e acolher aquela alma cansada e desesperada. Se as pessoas soubessem quantas vidas ficam severamente adoecidas quando uma tentativa dessa se consuma!
Paralelamente, estamos vendo um crescimento assustador nos níveis de ansiedade e Burnout. Um avanço preocupante no abandono infantil e nas agressões físicas e emocionais durante as fases iniciais da vida. Com isso, o número de tentativas de interromper essa dor tende, naturalmente, a crescer.
Percebem a dimensão do desafio?
Estar atento de forma preventiva e acolhedora quando alguém (ou nós mesmos) está sem esperanças é vital. Buscar e oferecer ajuda é o primeiro passo. Mas, talvez, o mais importante seja fazermos a nossa parte para construir uma sociedade mais amena, mais acolhedora e mais pronta para viver. Assim, não precisaremos temer ou buscar a morte. Ninguém precisa ir atrás dela, porque a vida vale muito mais!
(Cleydemir Santos é psicólogo sistêmico, terapeuta de casais, especialista em Psicodrama e Terapia do Esquema – 03199515-2348)
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