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ALEGRIA, TRISTEZA E ALEGRIAS

Por 20/05/2026No Comments5 min de leitura
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Escrevo este artigo no dia do meu aniversário de 61 anos. Recebi um carinhoso café na cama, abri o presente que meus filhos deixaram em cima da geladeira desde o Dia das Mães, quando vieram em casa – era uma Alexa, que ainda não fala comigo porque não consegui configurá-la –, fiz junto com minha esposa uma oração de gratidão, relembrando nossos 42 anos juntos – 37 de casamento e outros 5 que ela me enrolou antes de casar-se comigo – e agora, no meio da celebração, abro as redes sociais e sei de uma colega, da turma da graduação em psicologia, que está em morte cerebral.

Ai me lembrei do texto de C.S. Lewis que usei no final de semana:

“Não existe investimento seguro. O simples fato de se amar é uma vulnerabilidade. Ame alguma coisa e seu coração irá certamente ser espremido e possivelmente partido. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, não deve dá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em passatempos e pequenos confortos, evite todos os envolvimentos, feche-o com segurança no esquife ou no caixão do seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sombrio, imóvel, sufocante – ele irá mudar. Não será quebrado, mas vai se tornar inquebrável, impenetrável, irredimível. […] O único lugar fora do céu onde você pode se manter perfeitamente seguro contra todos os perigos e perturbações do amor é o inferno.”  (Os quatro amores – 1960)

Eu tenho corrido o risco. Tenho corrido o risco de ser amado e amar, apesar de toda a vulnerabilidade a que isso nos expõe. Percebo que não corri riscos o bastante. A colega que está em fase terminal eu não vejo há muitos anos; não promovi um encontro de nossa turma, mesmo depois de 30 anos de formados. Lembro-me de outras pessoas em quem não investi o bastante e que se foram. Para sempre. Mas meu coração está aqui, para ser apertado e espremido. Não desejo mantê-lo intacto e inquebrável. Tenho lutado muito contra o egoísmo que nos define a priori. Contra os medos que nos fazem trancar nossas emoções em caixões frios. Não quero adiantar o inferno. Nem o céu.

Porque, se o inferno é o único lugar fora do céu onde não sofreria, eu não quero ir para lá nem trazê-lo para cá. E se eu ainda não estou no céu — para onde estou indo pela misericórdia de Deus revelada em Jesus, que foi espremido literalmente e moído pelos meus pecados —, eu vou sofrer aqui o privilégio de amar e correr outros riscos: de não ser amado de volta, de não ser compreendido nos meus amores. Realmente, amar não é um investimento seguro, mas é o único investimento que vale a pena. E não podemos escolhê-lo para ter lucro, mas para termos propósito e valor dentro da gente.

Na hora de fechar a régua, valeu a pena. O casamento monogâmico e seus limites, onde você aprende a satisfazer-se no prazer de satisfazer o outro; os filhos e o preço que se paga, dando-lhes asas, bússola e motivo para voltar quando quiserem; os amigos, que também não são baratos, mas como são prazerosos! Só não custam nada aqueles em quem você não investe nada e, aí, eles se vão — e isso não é bom.

É assim a vida. Alegrias, tristezas e alegrias. Inevitáveis são as tristezas, e elas tendem a ficar. Tendem a impor-se como se fossem mais bem-vindas, mais naturais que as alegrias. Não. É mais comum, mais divulgada, mais forte até, mas a alegria tem que ser escolhida. “A alegria é a paz em movimento”, alguém disse! De fato, tudo passa, como as estações da vida. Inclusive as tristezas e as dores das perdas. Inclusive a alegria. Mas faça-a voltar. Faça-a sentir-se proprietária do espaço da sua vida, que de vez em quando tem que dar lugar às tristezas que nos mostram o quanto a alegria é valiosa. Não quero ter alegria, quero que a alegria me tenha!

Cleydemir Santos é Psicólogo Sistêmico é terapeuta de casais. Especialista em Psicodrama e TCC – Terapia Cognitivo-comportamental (31)99515-2348

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