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APRENDENDO COM A IDADE

Por 29/04/2026No Comments5 min de leitura
APRENDENDO COM A IDADE

Fui moço! não me considero velho, mas minha barba não me deixa esquecer que o tempo passa. Falo dela porque a 25 anos atrás escrevi um texto intitulado: “O Primeiro Fio”, onde eu descrevia a sensação de um primeiro fio branco que havia se destacado na multidão de pelos pretos no meu rosto. Já não era mais tão jovem com um fio branco, imagina agora com poucos fios escuros!

E uma coisa puxa outra: noutro dia alguém me olhava com uma curiosidade que me constrangeu enquanto eu falava para um publico de casais. Até que essa pessoa pediu desculpas e me deu um lenço, pensando que estava com o bigode sujo de alguma substancia que deveria ter saído de meu nariz. O que aconteceu é que uma mecha branca debaixo de meu nariz destacou no olhar daquela pessoa.  A vista cansada que precisa urgente de óculos de meu ouvinte, gerou nele uma baita ansiedade até ele me oferecer a ajuda que eu não precisava. A marca da idade não sai com um lenço. A idade não é um defeito e pelos brancos também não são. Ludicamente sugeri ao meu ouvinte um par de óculos e agradeci a boa vontade.

Me lembro de outra experiencia interessante: por ser canhoto e teimoso, aprendi a tocar violão invertendo o instrumento. Ao invés de trocar as cordas, eu o viro para o outro lado, inverto as posições e toco dentro dos limites dessa estratégia insana. Um dia cheguei em um lugar para falar e iria tocar uma música como quebra-gelo. A equipe muito bem disposta a servir ao evento, me trouxe o microfone e depois o violão. O moço me entregou o instrumento e ia colocar carinhosamente a alça para eu suportar o violão no lado direito, como a maioria das pessoas.  Começou uma queda de braço porque ele acreditava que estava me ajudando, e quando eu colocava o violão à minha maneira, ele tentava trocar o lado. Finalmente ele abriu mão e me deixou fazer de meu jeito “torto”.

Canhoto. Sinistro. Torto. Todos nós temos nossas canhotices e melecas na cara que vão chocar alguns em volta. Se eu estiver bem comigo mesmo, vou suportar a “boa vontade” daquele que quer limpar meu rosto ou trocar o lado do instrumento. Se não, vou ter aquilo tudo como rejeição, abandono, desrespeito, etc. “Como é que ele(s) pode(m) fazer isso comigo?”, “não me sinto respeitado nesse lugar” viram perguntas e reflexões que geram sofrimento dentro de mim.

De fato, esse questionamento é minha equivocada percepção de que o mundo gira em torno de mim. De que as pessoas existem só para me servir, ou para me fazer raiva, me fazer vergonha, me perseguir, me desmerecer, todos estão em um complô contra mim, eu não tenho culpa de ser canhoto, eu não queria ter a barba branca! A partir daí me sinto exposto, desrespeitado, mal amado, envergonhado, mal servido, rejeitado.

E assim, eu vou enchendo minhas frases de “eu(s)” e mim(s), e me, como se todos tivessem conspirando contra. Meu adulto saudável não está nada saudável e um menino birrento se destaca reclamando que o mundo pare para que ele seja atendido.  E muitas vezes isso acontece porque enquanto criança realmente não fui satisfeito em minhas necessidades básicas.

Fui moço e agora sou maduro. Essas coisas precisam nos fazer sorrir e aproveitar oportunidades. Que fantástica a percepção do outro! Sobre minha barba prateada, sobre a maneira como toco. Sobre o que falei. As pessoas podem comentar e discordar inclusive. Discordar não é atacar. Discordar é apenas declarar um outro lugar no mundo para olhar para  o mesmo objeto que eu comentei. Um outro ponto de vista. A maturidade me permite isso.

O EU não importa? Importa muito! Porém não importa apenas o eu, mas o ele também. Eles. Não o que eu sinto, mas o que o que sou, como faço, o que evocou neles!  E quão distante, na maioria das vezes, fica o que eu desejei ou imaginei ao falar, ao atuar do que eles entenderam, e está tudo bem. Ah se nós conseguíssemos agir assim! Teríamos tantas trocas e nem eu nem ele, mas, nós, cresceríamos juntos, tocando para a direita ou para a esquerda, com barba branca ou sem barba, jovens e velhos, pais e filhos, esposos e esposas. Que venha a idade. Ela é inevitável. Mas que traga consigo, cada dia vivido, a maturidade que deve se acrescentar.

Cleydemir Santos é psicólogo sistêmico. Terapeuta de casais com especialização em Psicodrama e TCC – Terapia Cognitivo-comportamental.

 

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