QUARTETO FANTÁSTICO: PRIMEIROS PASSOS (2025) RESENHA CRÍTICA (com spoilers)

Por 01/08/2025No Comments11 min de leitura
QUARTETO FANTÁSTICO: PRIMEIROS PASSOS (2025) – RESENHA CRÍTICA (com spoilers)

Muito BomA Marvel tem tentado levar às telonas sua primeira grande equipe de super-heróis desde a década de 90 (clique aqui para ler matéria sobre esta história), com resultados que vão de desastrosos (longas de 1994 e 2015) a até, no máximo, medianos para ruins (longas de 2005 e 2007), e parece até uma brincadeira do destino que este feito tenha sido realmente bem-sucedido somente nesta “quarta” tentativa.

Criado em 1961 por Stan Lee e Jack Kirby antes de todos os personagens icônicos que já compuseram as equipes dos Vingadores nos cinemas, o Quarteto Fantástico merecia uma adaptação digna de todo seu legado, e finalmente temos um exemplo bem-sucedido de adaptação de origem que a Marvel já não consegue realizar desde a já longínqua Fase 3, encerrada com Vingadores: Ultimato (2019) e Homem-Aranha: Longe de Casa (2019).

Dito isso, é interessante observar que este é o filme que menos se encaixa na já combalida fórmula Marvel, com uma estética única e uma história totalmente fechada em si mesma, sem o peso de trazer todo um peso narrativo de obras fracassadas em sua esteira. E chega a ser assustador pensar em como os roteiristas conseguirão levar estes personagens ao novo Universo Cinematográfico da Marvel (UCM) sem apagar toda a personalidade que criaram para este supergrupo de heróis nesta adaptação.

Com o filme ambientado num dos inúmeros universos paralelos do UCM, os roteiristas Josh Friedman, Eric Pearson, Jeff Kaplan e Ian Springer tiveram a brilhante ideia de usar a Terra 828 (provavelmente em homenagem a Jack Kirby, artista nascido em 28/08/1917) para nos apresentar ao Quarteto Fantástico. Com um visual sessentista, num cenário retrofuturista que remete muito ao desenho Os Jetsons, numa mistura deliciosa das HQs originais da década de 60 com uma visão de como imaginavam o futuro naquela época, além de uma pitada da animação Os Incríveis (2004) e de apetrechos da trilogia clássica de Star Wars (1979-1983), aqui reside uma das principais qualidades deste longa.

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Desde a paleta de cores utilizada, com foco nas cores azul, branco e marrom, até na mistura agradável de carros antigos, como fuscas, com veículos voadores e apetrechos retrô, toda a fotografia e ambientação do filme nos remete a um período do tempo nostálgico e incrivelmente satisfatório. Não por acaso o Quarteto Fantástico deste mundo tem a fama similar ao The Beatles, com muitas similaridades à Beatlemania, período de fervor intenso e generalizado em torno da banda inglesa nos anos 60 e 70. Esta ideia, inclusive, era a que o diretor Peyton Reed, um dos anteriormente escalados para comandarem este filme, havia sugerido anos atrás.

O figurino também é incrível, sempre muito bem incorporado à composição de época do longa. Os uniformes do Quarteto, em especial, chamam muito a atenção, com uma cor azul vibrante com o “4” bem estampado, sem medo do ridículo. Este belíssimo trabalho também fica óbvio na arquitetura das ruas, das casas e dos prédios daquele universo, com destaque para a base do grupo, toda inspirada em designs circulares, com um design de produção e uma direção de arte que apostam em formas geométricas, metal cromado e figuras coloridas. A atenção aos detalhes, que num momento mostram que até as pegadas dos membros deixam um “4” marcado no solo, também é um baita fan service para quem leu as HQs.

Antes de adentrar nos personagens e em detalhes da trama, vale também salientar a incrível trilha sonora do longa, composta por Michael Giacchino. Apesar de não ser uma trilha tão marcante como em outros trabalhos deste mesmo compositor (Up: Altas Aventuras, Divertida Mente, Os Incríveis, The Batman, dentre outros), ela é muito orgânica, mesclando temas de ficção científica antiga com orquestra e sintetizadores, engrandecendo tanto os momentos grandiosos quanto os mais intimistas do filme. A música tema, então, caiu como uma luva para o grupo de super-heróis que é reverenciado por todos na Terra 828.

A história inicia com a descoberta da gravidez de Sue Storm (Vanessa Kirby), a Mulher-Invisível, que é revelada ao seu marido, Reed Richards (Pedro Pascal), o Sr. Fantástico, que a recebe com extrema alegria. Recebem também a novidade, com muita festividade, seu irmão Johnny Storm (Joseph Quinn), o Tocha Humana, e o amigo da família Ben Grimm (Ebon Moss-Bachrach), o Coisa, além do simpático robozinho H.E.R.B.I.E. (voz de Matthew Wood). A felicidade da família, porém, não dura muito, pois surge na Terra a Surfista Prateada (Julia Garner) para anunciar que o planeta foi marcado para ser consumido pelo todo-poderoso Galactus (Ralph Ineson), levando o Quarteto Fantástico a embarcar em uma aventura cósmica para enfrentar a ameaça em algum lugar bem distante do universo. Diante da inevitabilidade da chegada do vilão para devorar o planeta, cabe ao grupo de heróis encontrar uma solução factível para salvar toda a humanidade.

Quarteto Fantastico 1

A montagem ágil, com 115 minutos de duração, garante ritmo, mas falha um pouco pela falta da profundidade emocional que o material exigia. A sintonia familiar entre os quatro existe, mas é confiada a cortes rápidos e expositivos — o que acaba desidratando os protagonistas. Ficaram parecendo muito uma família de “comercial de margarina”, quase sem conflitos e discussões. A direção de Matt Shakman funcionou muito melhor com a série WandaVision, provavelmente pelo tempo maior para desenvolver a história e os personagens. A história mais simples e comedida deste longa acaba por se tornar tanto sua grande qualidade, com uma trama mais enxuta, com poucos personagens para se concentrar, quanto sua maior falha, com a falta de tempo para desenvolver melhor alguns destes personagens.

A força do filme está na dinâmica íntima do casal Reed (Pedro Pascal) e Sue (Vanessa Kirby). Não por acaso, ambos acabam tendo maior destaque, com os melhores diálogos e os maiores conflitos. Apesar de confessar já estar um pouco cansado da figura de Pedro Pascal (ainda não me conformo com a decisão da produção em manter um bigode que não combina em nada com Reed Richards), sua atuação neste longa está acima da média, transmitindo com sutileza tanto a genialidade de seu personagem, conhecido como o mais inteligente dos homens daquele mundo, quanto a sua angústia quando entende que nem tudo ele conseguirá solucionar ou controlar.

No entanto, quem assume as rédeas do filme é mesmo a Sue Storm de Vanessa Kirby, tanto pela temática centrada na chegada de um novo membro da família quanto pelo papel da personagem como a força maternal e o coração do grupo. Sua presença em tela é magnética, e são dela as grandes cenas do filme, com destaque para o nascimento de Franklin Richards (numa sequência sci-Fi bem angustiante), para o discurso com o bebê nos braços e para o embate final com Galactus.

O Johnny Storm de Joseph Quinn traz leveza e sarcasmo, com um arco de amadurecimento que evita caricaturas. Ele é o personagem cujos poderes são mais bem utilizados na trama, e sua relação com a Surfista Prateada/Shalla-Bal (Julia Garner) faz uma rima interessante com o tema central da maternidade e da família. Porém, senti falta do tom jocoso do personagem, que aqui poderia se mostrar um pouco mais imaturo e intempestivo como nas HQs. Achei também meio simplória a investigação sobre as falas de Shalla-Bal, com uma conclusão repleta de conveniências e uma redenção bem piegas, mas nada que estrague a experiência.

Já quanto ao Ben Grimm de Ebon Moss‑Bachrach, apesar de carregar humanidade, melancolia e um humor resignado, como nas HQs, tem o pior dos desenvolvimentos dos protagonistas do longa. Vemos boas cenas de ação com o Coisa, que se mostra o faz-tudo do grupo, e seu visual em CGI é muito interessante e fiel às HQs, mas ao final do filme tive a impressão de que muitas de suas cenas foram cortadas. Espero poder assistir a um melhor desenvolvimento do personagem futuramente.

quarteto fantastico meio 3 plano critico

Galactus (Ralph Ineson) e Surfista Prateada (Julia Garner) cumprem bem seus papéis de antagonistas. A apresentação impactante de Galactus nos confins da Galáxia, quando ele é visto pela primeira vez em toda sua imponência, é realmente impressionante. Mas depois disso, ainda que tanto o figurino como a voz imponente de Ralph Ineson chamem muito a atenção, o personagem e a ameaça que ele representa acabam sendo engolidos por uma série de conveniências de roteiro com soluções simples e até anticlimáticas. Ele também falha como ameaça significativa no ato final pelas motivações genéricas e sem um peso devido em sua construção dramática. O mesmo vale para a Shalla-Bal de Julia Garner, que até tem uma história de origem interessante e cenas impressionantes, mas que acaba sendo apagada pela resolução rápida da trama num clímax construído bem às pressas.

Quanto aos efeitos especiais, há sim algumas cenas sofríveis, como as que mostram os poderes do Sr. Fantástico (bem inúteis), as cenas do Coisa com o bebê no colo e quase todas as cenas com o pequeno Franklin Richards no meio da ação no ato final do filme. Porém, as falhas realmente não estragam a experiência, que segue como uma das melhores do UCM desde a Fase 3. Destaque especial para os 20 primeiros minutos iniciais do filme, com um resumo interessante da origem e das aventuras do Quarteto nos seus primeiros anos, e para as cenas no espaço sideral, em especial as cenas de fuga que envolvem até um buraco negro, com designs que remetem às aventuras cósmicas desenhadas por Jack Kirby.

Ao final, Franklin Richards emerge como o elemento central da mitologia cósmica — capaz de moldar realidades, ressuscitar pessoas e até de reinventar a lógica narrativa do MCU, mas me assusta imaginar este Quarteto incorporado ao UCM no próximo filme do cronograma, Vingadores: Doomsday (2026).

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, enfim, é um exercício de identidade. Funciona como a melhor adaptação do Quarteto (não que fosse muito difícil), possui um visual inovador e emocionalmente ambicioso, com uma história fechada em si e diferente de tudo que a Marvel nos apresentou nestes últimos anos. O resultado é um bom espetáculo, representando um grandioso início da Fase 6, mas ainda é aquém dos maiores sucessos das primeiras fases do UCM. Tem grandes acertos de personagens e uma estética “fantástica”, que peca um pouco pela falta de ousadia narrativa, lembrando mais um recomeço seguro do que uma revolução, mas que entretém como há muito tempo uma obra da Marvel não fazia, valendo o ingresso nos cinemas.

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (Fantastic Four: First Steps, 2025)

Direção: Matt Shakman

Roteiro: Josh Friedman, Eric Pearson, Jeff Kaplan, Ian Springer

Elenco: Vanessa Kirby, Pedro Pascal, Joseph Quinn, Ebon Moss-Bachrach, Julia Garner, Natasha Lyonne, Paul Walter Hauser, Ralph Ineson, Sarah Niles, Mark Gatiss, Matthew Wood, Ada Scott

Duração: 115 minutos

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