Nos últimos anos, Hollywood tem investido fortemente em remakes de filmes clássicos, trazendo novas versões de histórias já conhecidas pelo público. Enquanto alguns desses remakes são bem recebidos e até superam os originais, como Duna (2022), Duna Parte 2 (2024) e It: a Coisa (2017), outros enfrentam críticas severas por falta de inovação ou por não capturar a essência dos originais.
Muitos críticos argumentam que a proliferação de remakes reflete uma crise criativa em Hollywood. Em vez de apostar em roteiros originais, os estúdios preferem investir em histórias que já possuem um público consolidado, reduzindo riscos financeiros. Isso explica porque grandes franquias, como O Rei Leão (2019) e Aladdin (2019) tiveram versões live-action, mesmo sem necessidade de atualização.
Contudo, essa estratégia nem sempre dá certo. Filmes como Psicose (1998), um remake quase quadro a quadro do clássico de 1960 de Alfred Hitchcock, Robocop (2014), uma nova visão do diretor brasileiro José Padilha para o clássico de 1987, e Ben-Hur (2016), uma tentativa de capturar a grandiosidade do épico de 1959, foram duramente criticados e tiveram desempenho pífios nas bilheteiras.
Ainda que algumas obras clássicas, em minha opinião, não mereçam ser tocadas com remakes ou continuações, como a trilogia De Volta para o Futuro (1985 / 1989 / 1990) e Curtindo a Vida Adoidado (1986), há ainda muito espaço para ótimos remakes.
As dicas abaixo são, portanto, filmes que ainda que, na minha opinião, valem muito a pena ser revisitados, com grande potencial para remakes de sucesso!
OS AVENTUREIROS DO BAIRRO PROIBIDO (Big Trouble in Little China, 1986)
Neste grande clássico oitentista, o caminhoneiro Jack Burton (Kurt Russell) precisa ajudar seu amigo Wang Chi (Dennis Dun) a resgatar sua noiva, Miao Yin (Suzee Pai), e o interesse amoroso de Jack, Gracie Law (Kim Cattrall), de um feiticeiro milenar chamado Lo Pan (James Hong), que precisa se casar com uma mulher de olhos verdes para recuperar suas forças e manter sua imortalidade, o que resulta numa batalha entre o bem e o mal em Chinatown. Se lida em voz alta, esta sinopse soa absurda e meio cafona, mas é justamente a breguice e a incoerência que transforma este filmaço de ação e comédia num dos mais cultuados dos anos 80.
Com vários sucessos no currículo, como Halloween (1978), Fuga de Nova York (1981) e Enigma de Outro Mundo (1982), o Diretor John Carpenter tinha um desejo de longa em dirigir um filme de artes marciais. O roteirista WD Richter foi contratado, então, para reescrever um roteiro que era originalmente concebido como um faroeste de 1880. Com as mudanças na história, em 1985 o filme estreou em julho de 1986 nos Estados Unidos e em outubro do mesmo ano no Brasil, e foi um fracasso comercial. Entretanto, se tornou um sucesso estrondoso nas locadoras, se tornando um clássico cultuado até nos dias de hoje.
Na minha opinião, um remake deste clássico, se mantiver toda a galhofa, coreografias bem feitas e espalhafatosas, efeitos especiais mesclados a efeitos práticos na medida certa, uma trilha sonora nostálgica e marcante, e um novo elenco bem carismático, pode resultar num grande sucesso de bilheteria! Apesar de rumores sobre um remake com Dwayne “The Rock” Johnson como o protagonista Jack Burton, não há nada confirmado.
Minhas sugestões de equipe técnica para um remake:
Diretor: John Carpenter ou Brett Ratner (de A Hora do Rush)
Elenco: Glen Powell (Assassino por Acaso) como Jack Burton, Andrew Koji (da série Warrior) como Wang Chi, e Sydney Sweeney (Imaculada) como Gracie Law
Imagem: Disney
Onde assistir: Disney+
Curiosidades:
- A produção do filme foi apressada e a pós-produção foi de apenas 3 meses. O estúdio queria que o filme estreasse antes de um outro filme com temática semelhante, O Rapto do Menino Dourado (The Golden Child, 1986), dirigido por Michael Ritchie e estrelado por Eddie Murphy. No final das contas apesar de muito menos notório, o filme de Eddie Murphy foi um grande sucesso de bilheteria.
- Os caracteres chineses no título podem ser traduzidos como “Maus espíritos fazem confusão em um pequeno estado espiritual”.
- Apesar de Kurt Russell ser a única escolha de John Carpenter para o papel principal, o estúdio sugeriu Jack Nicholson e Clint Eastwood. Assim que esses dois atores disseram que não estavam disponíveis, Carpenter pôde escolher Russel, com quem já havia trabalhado em Fuga de Nova York (1981) e Enigma de Outro Mundo (1982).
- Jackie Chan era a primeira opção de John Carpenter para o papel de Wang Chi. Como o inglês de Chan na época não era muito bom, o ator Dennis Dun acabou sendo escalado.
- Relâmpago, um dos servos de Lo Pan conhecidos como “Três Tempestades”, serviu de inspiração para a criação do visual de Raiden, no jogo Mortal Kombat. Já Lo Pan (James Hong) foi a inspiração para o vilão Shang Tsung.
- A música final foi escrita e interpretada por The Coupe de Ville, uma banda formada por John Carpenter, Nick Castle e Tommy Lee Wallace (Assistente de diretor nesse filme).
- O filme teve uma continuação na HQ da Boom! Studios, intitulada “Big Trouble in Little China: Old Man Jack“, dando uma conclusão para o personagem Jack Burton.
TUDO POR UMA ESMERALDA (Romancing the Stone, 1984)
Nesta aventura romântica de 1984, a escritora de romances Joan Wilder (Kathleen Turner) parte para a Colômbia na tentativa de resgatar sua irmã Elaine (Mary Ellen Trainor), sequestrada por criminosos locais. O preço do resgate é o mapa de uma imensa esmeralda chamada “El Corazón”. O caminho de Joan, então, é cruzado por Jack Colton (Michael Douglas), o típico mercenário aventureiro oitentista, uma mistura ranzinza de Indiana Jones com Han Solo. Parafraseando o narrador da Sessão da Tarde nos anos 80, “eles se metem numa grande aventura repleta de muitos perigos e confusões”.
A personagem de Kathleen Turner, Joan, utilizava a literatura como válvula de escape em sua entediante rotina. Enquanto na sua vida real ela não conseguia viver um romance inebriante, nas páginas de seus livros ela satisfazia todos os seus desejos. Quando a personagem é jogada num perigoso contexto similar às aventuras retratadas em seus livros, a sua maneira de lidar com todas as ameaças é hilária, e o carisma da atriz conquista logo nos primeiros minutos. E no momento em que a trama insere Jack Colton, o “herói ranzinza” vivido por Michael Douglas, e o trambiqueiro adorável, Ralph, defendido com o timing cômico impecável de Danny DeVito, a química perfeita se estabelece.
É um típico e divertidíssimo filme da Sessão da Tarde!
O estúdio esperava que Tudo por uma Esmeralda fracassasse, mas surpreendentemente, o filme se tornou um enorme sucesso, tanto em bilheteria quanto com os críticos. O filme foi premiado com o Globo de Ouro na categoria “melhor musical ou comédia” e “melhor atriz de musical ou comédia”, para Kathleen Turner, e teve ainda uma indicação ao Oscar por melhor edição. O sucesso foi tanto que engatilhou a sequência A Jóia do Nilo (1985), desta vez sem Zemeckis, mas novamente com o casal Turner e Douglas. A sequência, no entanto, foi um grande fracasso.
O filme ainda conta a trilha sonora do renomado compositor Alan Silvestri, ainda um iniciante à época. Contratado para “tapar buraco”, o encantamento de Zemeckis com Silvestri foi tão grande que os dois formaram uma longa e produtiva parceria, rendendo grandes sucessos como a trilogia De Volta para o Futuro, a comédia Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988), o oscarizado Forrest Gump (1994), dentre vários outros.
Este foi o filme que alavancou a carreira do diretor Robert Zemeckis, que estava desempregado até Michael Douglas convidá-lo para dirigir o projeto. A paixão de Zemeckis pela teoria das câmeras e efeitos especiais foi responsável por garantir todo o caráter aventuresco do filme que inicialmente havia sido planejado somente como um romance. Segundo o próprio diretor, este foi um grande laboratório para amadurecer seu próximo grande projeto: a trilogia De Volta Para o Futuro.
Há alguns anos, foi considerado um reboot com os papéis de Jack Colton e Joan Wilder nas mãos de Gerard Butler e Katherine Heigl, respectivamente, mas o projeto não seguiu adiante. Desde então, não mais mais previsão de um remake.
Em 2022, o filme Cidade Perdida (The Lost City) trouxe uma trama com certa similaridade mas com um tom maior de comédia satírica, que claramente teve inspiração em Tudo por um Esmeralda. Com Sandra Bullock, Channing Tatum, Daniel Radcliffe e uma ponta de Brad Pitt, o filme teve uma clara inspiração em Tudo por uma Esmeralda mas sem sua genialidade.
Minhas sugestões de equipe técnica para um remake:
Diretor: Richard Linklater (Assassino por Acaso) ou Will Gluck (Todos Menos Você)
Elenco: Daisy Edgar-Jones (Twisters) como Joan Wilder e Sebastian Stan (Um Homem Diferente) como Jack Colton
Imagem: 20th Century Studios
Onde assistir: Prime Video
Curiosidades:
- Michael Douglas teve que brigar para estrelar o filme. Mesmo com um Oscar como produtor, o astro ainda era visto como ator de televisão, sem apelo para o cinema. Com isso, mesmo sendo o produtor de Tudo por uma Esmeralda (Romacing the Stone), não foi considerado para ser a estrela do filme. Somente após a recusa de Clint Eastwood, Burt Reynolds, Sylvester Stallone, Paul Newman e Christopher Reeve, Douglas foi aceito, se tornando uma grande estrela dos cinemas após o sucesso do filme.
- A escolhida para estrelar a protagonista Joan Wilder também não era Kathleen Turner, e sim Debra Winger (de A Força do Destino e Laços de Ternura).
- Quanto os executivos da Fox assistiram ao primeiro corte do filme, ficaram tão desanimados que demitiram o diretor Robert Zemeckis de seu próximo projeto, Cocoon (1985), entregando para o diretor Ron Howard.
- A frase “romancing the stone“, usada como título original do filme, é na verdade um jargão muito usado entre os joalheiros, se referindo ao processo de preparar uma gema para ser utilizada em uma joia.
- A floresta colombiana que aparece no filme, na verdade, era no México. Os anos 80 na Colômbia foram marcados por extrema violência e insegurança, portanto não haveria como filmar no país.
- Na cena em que Joan Wilder (Kathleen Turner) é “derrubada” por um deslizamento de lama na floresta, e arrastada por muitos metros até cair em uma poça, a força da água na cena foi tão real que a atriz realmente se cortou e precisou levar vários pontos.
- Tudo por Uma Esmeralda foi o primeiro e último roteiro de Diane Thomas. A ex-garçonete escreveu a história que rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original, mas ela morreu tragicamente num acidente de carro poucas semanas antes da cerimônia. A tristeza é presente até hoje para todos que trabalharam no filme, pois ela nunca viu que seu trabalho viria a ser um clássico tão duradouro. O acidente, inclusive, aconteceu no porsche que ela ganhou de presente do ator e produtor Michael Douglas.
- A amizade de Kathleen Turner com Michael Douglas e Danny DeVitto permanece intacta até os dias de hoje. Juntos, eles participaram do filme Guerra dos Rosas (1989) e recentemente, ela fez uma ponta na série O Método Kominsky (2018-2021), como ex-mulher do ator. A química do trio nunca se perdeu.
O FEITIÇO DE ÁQUILA (Ladyhawke, 1985)
Neste clássico de aventura, fantasia medieval e romance, uma maldição separa dois amantes. O guerreiro Etienne de Navarre (Rutger Hauer) se transforma em um lobo selvagem à noite, enquanto Isabeau d’Anjou (Michelle Pfeiffer) assume a forma de um falcão durante o dia. Cabe ao ladrão Philippe Gaston, “O Rato” (Matthew Broderick), ajudar o casal a quebrar o feitiço e derrotar o Bispo de Áquila (John Wood) para que possam viver juntos.
Lançado em abril de 1985 nos Estados Unidos, o filme foi um fracasso de bilheteria, mas como muitos outros dos anos 80 se tornaria um grande clássico nas locadoras e ao ser reprisado inúmeras vezes na TV. Chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Som e de Melhor Edição de Efeitos Sonoros, e se destacou pela fotografia do mestre Vittorio Storaro e pela trilha sonora de Andrew Powell e Alan Parsons, numa mistura de música orquestrada com rock progressivo.
As atuações magistrais do casal trágico, interpretado pelo saudoso e solene Rutger Hauer e pela belíssima e talentosa Michelle Pfeiffer, abrilhantaram esta obra inesquecível, com uma história emocionante e que merecia um bom remake. Ainda que as lutas vistas nos dias de hoje sejam mal coreografadas e meio que inverossímeis, as atuações, inclusive dos coadjuvantes Matthew Broderick e John Wood, e a direção segura de Richard Donner (Superman e Máquina Mortífera) tornam a experiência de assistir ao filme em algo mágico.
Minhas sugestões de equipe técnica para um remake:
Diretor: Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno) ou Denis Villeneuve (Duna)
Elenco: Alexander Skarsgård (O Homem do Norte) como Etienne de Navarre; Emily Blunt (O Dublê) como Isabeau d’Anjou; Gaten Matarazzo (Stranger Things) como Philippe Gaston; Mark Strong (série Pinguim) como Bispo de Áquila.
Imagem: Disney
Onde assistir: Disney+
Curiosidades:
- Kurt Russell e Sean Connery foram cogitados para o papel do protagonista, que acabou sendo interpretado por Rutger Hauer após a recusa dos dois.
- Rutger Hauer era um exímio cavaleiro, o que ajudou bastante nas cenas do filme.
- Antes de Matthew Broderick aceitar o papel de Philippe Gaston, Dustin Hoffman e Sean Penn foram cogitados.
- As filmagens foram realizadas inicialmente na Espanha e, em grande parte, na Itália. Elas levaram cinco meses durante o outono e o inverno europeus, e isso gerou vários momentos estressantes para os atores. Matthew Broderick filmou por dois dias numa água congelante na cena nos esgotos de Áquila para uma cena de poucos minutos no início do filme.
- Alfred Molina, o eterno Doutor Octoppus (de Homem-Aranha 2) aparece neste longa como um caçador de lobos.
- Para as filmagens foram utilizados 3 falcões e 4 lobos siberianos.
- No roteiro original, a princesa Isabeau era retratada com cabelos longos e vestidos compridos, mas a atriz Michelle Pfeiffer insistiu em estabelecer uma princesa diferente, com cabelos curtos e com vestidos mais simples.
- O cantor Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, foi considerado para o papel do vilão, o Bispo de Áquila, mas sua agenda cheia acabou impossibilitando sua participação.
- Nos materiais promocionais da época, era dito que o filme era baseado numa história real, mas o roteirista Edward Khmara desmentiu e processou a Warner Bros, em um acordo resolvido fora dos tribunais e com valores não divulgados.