
Às vezes, não é preciso viajar para muito longe para sentir que o ritmo mudou. Basta deixar a cidade para trás por alguns quilômetros. A paisagem começa a se transformar, o movimento diminui e o verde aparece entre as casas. O som dos carros dá lugar ao canto dos pássaros, ao vento nas árvores e, em alguns lugares, ao barulho da água correndo. Estamos na Serra dos Cocais, Coronel Fabriciano, Minas Gerais.
Localizada bem próxima à área urbana, a localidade surpreende justamente por essa mudança tão rápida de cenário. Em pouco tempo, a cidade parece ficar distante e dá lugar a estradas e propriedades rurais, montanhas, árvores, córregos e uma paisagem que convida a olhar com mais calma. É como se o caminho pedisse outro ritmo. Ali, a natureza se mistura à vida cotidiana. Remanescentes de Mata Atlântica, quaresmeiras, ipês, bromélias, cachoeiras e uma grande diversidade de pássaros compõem uma paisagem que revela diferentes formas de viver e de se relacionar com o lugar.
Mas a Serra dos Cocais não está apenas naquilo que os olhos conseguem alcançar. Está também nas histórias contadas por quem vive ali. Nos causos que atravessam gerações, nas lembranças das famílias, nos conhecimentos sobre a terra, na maneira de preparar uma comida, no jeito de receber quem chega e em saberes que muitas vezes não estão escritos, mas fazem parte da identidade de uma comunidade.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores riquezas da Serra dos Cocais: na simplicidade somada à natureza. Há algo especial em perceber que nem tudo precisa ser grandioso para se tornar memorável.
Foi a partir desse olhar sobre a região e de suas potencialidades que surgiu o “Serra dos Cocais Roteiro Turístico”. A iniciativa teve início em 2022, a partir da mobilização do poder público municipal, e, posteriormente, ganhou força com a articulação de diversas entidades e organizações, sendo oficialmente lançada em junho de 2024. Mais do que reunir atrativos, a proposta é valorizar aquilo que já faz parte do cotidiano e da identidade local, aproximando visitantes das paisagens, dos sabores, dos saberes e, principalmente, das pessoas que dão vida à região.
E é nesse encontro com o território que estão algumas das suas riquezas. Na região, o leite vira queijo e iogurte. A jabuticaba pode se transformar em licor, doces e outros produtos. Preparações artesanais feitas a partir de ingredientes locais revelam uma relação próxima com aquilo que a terra oferece.
A comida, aliás, é um capítulo à parte. Ela aparece como parte da identidade do lugar, seja em uma mesa posta para receber visitantes, em um café, em um almoço ou em uma receita que carrega a memória de uma família.
Por falar nisso, quem visita a Serra dos Cocais não pode deixar de experimentar o famoso fubá suado com a tradicional carne de lata, uma combinação que carrega o sabor, a simplicidade e a memória da cozinha mineira. E olha que essa é só uma das delícias da região! Tem também o frango com palmito e a banana-verde frita, sabores que despertam a curiosidade e convidam a experimentar. Você já provou?
Por trás desses sabores e saberes, há pessoas. Muitas vezes, são mulheres, junto de suas famílias, que mantêm vivas receitas, formas de produzir, conhecimentos e maneiras de receber. São histórias de trabalho, criatividade e continuidade que ajudam a revelar uma Serra dos Cocais que vai muito além da paisagem. E há ainda outras formas de transformar os elementos do lugar em produtos.
Na saboaria, por exemplo, insumos naturais encontrados na região inspiram criações artesanais. Aromas, texturas e ingredientes ganham novos significados e mostram que os recursos locais podem despertar diferentes sentidos.
Ah, sem falar na gente festeira que mora por ali! A cultura também se revela na celebração: no Batuque, na Festa do Rosário, com sua tradicional Marujada, na Noite da Prosa e, claro, nos casamentos que também movimentam e celebram a comunidade.
Tudo isso acontece em uma região onde a vida parece seguir outro compasso. Onde a paisagem convida a olhar com mais calma, os sons da natureza ocupam espaço e uma conversa sem pressa pode revelar histórias que não estão nos mapas.
Talvez seja esse o convite mais bonito da Serra dos Cocais: desacelerar para perceber. Perceber a natureza, os sabores, os saberes e as pessoas. Caminhar sem tanta pressa, ouvir os sons ao redor, conversar com quem vive ali e provar uma comida que carrega memória.
Porque, quando diminuímos o ritmo, começamos a enxergar aquilo que a pressa costuma esconder.
E talvez seja justamente aí que esteja o encanto da Serra dos Cocais: mostrar que não é preciso ir longe para descobrir algo novo. Às vezes, basta mudar o ritmo para enxergar de outro jeito aquilo que sempre esteve por perto.
PARA CONHECER MAIS
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