A PONTE QUE DÁ VOZ AO SILÊNCIO

Por 28/09/2026No Comments7 min de leitura
A PONTE QUE DÁ VOZ AO SILÊNCIO

A PONTE QUE DÁ VOZ AO SILÊNCIO

Falar sobre inclusão escolar vai muito além de garantir a matrícula de um aluno com deficiência em sala de aula. É preciso assegurar que o espaço educacional seja, de fato, um lugar de troca, pertencimento e aprendizado real. E é exatamente aí que entra uma das figuras mais essenciais e, muitas vezes, invisibilizadas em sua grandiosidade: o intérprete (em especial o Intérprete de Libras).

No próximo dia 30 de setembro, data em que celebraremos o Dia do Intérprete e do Tradutor, será mais do que oportuno refletir — e já começarmos a celebrar — o impacto desses profissionais na construção de uma educação verdadeiramente democrática.

Para quem observa de fora, a função do intérprete pode parecer apenas a de “passar” o conteúdo falado pelo professor para a Língua Brasileira de Sinais (Libras) ou para outro código de comunicação. No entanto, quem vive o cotidiano escolar sabe que o trabalho vai muito além da transposição literal.

Quem transita pelas escolas e acompanha de perto o trabalho nas Salas de Recursos Multifuncionais e no Atendimento Educacional Especializado (AEE) sabe bem o tamanho desse desafio. O intérprete é um mediador cultural e cognitivo. Na prática diária, ele não traduz apenas fórmulas matemáticas ou fatos históricos; ele traduz o tom de uma brincadeira no recreio, contextualiza realidades sociais, transmite emoções e garante que o aluno surdo compreenda e participe ativamente de um debate de ideias com seus colegas ouvintes. Sem esse profissional, a sala de aula se torna um ambiente de silêncio e exclusão velada.

Um dos maiores equívocos pedagógicos é confundir o intérprete com o cuidador ou com o professor de apoio. O intérprete está na escola para garantir o direito à comunicação.

Quando observamos a dinâmica de uma aula mediada por um bom profissional, percebem-se os frutos: ele não faz o trabalho pelo aluno; pelo contrário, capacita o estudante a pensar por si mesmo, a argumentar, a questionar o professor e a interagir com a turma sem intermediários desnecessários. Ele é a ponte que permite ao aluno transitar pelo saber com autonomia, construindo sua própria jornada acadêmica e cidadã, exatamente como qualquer outro estudante.

Rostos e histórias que transformam a teoria em prática

Para celebrarmos esta data com o coração, precisamos olhar para quem faz essa engrenagem acontecer no nosso dia a dia. É impossível falar de excelência na tradução e na acessibilidade no Vale do Aço sem mencionar a trajetória inspiradora de Viviane Laranjo.

Casada e mãe de três filhos incríveis, Viviane é professora, tradutora e intérprete de Libras com uma bagagem impressionante de 26 anos dedicados à educação e à inclusão. Graduada em Licenciatura Normal Superior, Bacharel em Letras-Libras e pós-graduada em Psicopedagogia, ela transita com maestria por múltiplos contextos. Sua marca está presente na promoção da acessibilidade em eventos culturais e artísticos de toda a nossa região, atuando fortemente na infraestrutura acessível de grandes eventos e acompanhando pessoas surdas e com outras deficiências rumo à autonomia.

Sua vocação para servir transborda para além dos muros formais do ensino: Viviane realiza um belíssimo trabalho voluntário na Igreja Presbiteriana onde congrega, atuando como intérprete e ministrando cursos de Libras para crianças e adultos. Atualmente, ela está à frente de importantes frentes de ensino de Libras para a comunidade, cujas aulas contam com um diferencial valioso: são ministradas com professores surdos, garantindo que o aluno aprenda a língua de forma contextualizada e tenha contato direto com falantes nativos em todas as aulas, o que impulsiona o aprendizado de forma única.

As turmas e programações lideradas por essa iniciativa são organizadas da seguinte forma:

Curso de Libras no Contexto Religioso: Acontece às terças-feiras, das 19h às 21h, na Igreja Presbiteriana do Centro.
Libras Básico / Intermediário: Acontece às segundas-feiras, das 19h às 20h40.
Libras Kids: Acontece às sextas-feiras, das 18h30 às 20h.
(Nota: Os cursos Básico/Intermediário e Kids acontecem na SOS Orientação Familiar – Centro Educacional, situada na Rua João Monlevade, nº 568, bairro Cidade Nobre).

Para inscrições e mais informações, o contato telefônico é (31) 97537-7667. Profissionais como a Viviane nos lembram que a inclusão, quando feita com alma, competência e afeto, reconstrói o mundo.

A inclusão precisa ir além das paredes da escola

Se a presença do intérprete é inegociável na sala de aula, precisamos lembrar que o direito à comunicação não tira férias quando o aluno ou o cidadão surdo sai da escola. Teatros, bancos, hospitais, shows, repartições públicas e tantos outros espaços sociais deveriam contar rotineiramente com intérpretes de Libras, em total cumprimento às exigências legais. Afinal, a cidadania plena acontece quando a pessoa surda pode acessar uma consulta médica, desfrutar de um espetáculo cultural ou resolver uma burocracia financeira com a mesma autonomia e dignidade que qualquer outra pessoa. Garantir essa infraestrutura em todos os setores da sociedade é uma obrigação que ainda exige muito esforço e fiscalização.

Apesar de toda essa relevância inegável, a profissão de intérprete educacional e social ainda enfrenta barreiras estruturais significativas. A sobrecarga de trabalho — afinal, traduzir exige um desgaste cognitivo intenso —, a falta de reconhecimento salarial adequado, a ausência de momentos de planejamento conjunto com os professores regentes e a carência de concursos públicos estruturados são realidades que afetam diretamente a saúde desses profissionais e a qualidade da inclusão.

Valorizar o intérprete é, em última análise, valorizar o próprio cidadão. É entender que investir em intérpretes qualificados nas redes de ensino e em toda a rede de serviços é uma exigência legal, mas, acima de tudo, um compromisso ético com a justiça social.

A inclusão não é responsabilidade de um único profissional. Ela exige que gestores, empresários, professores, famílias e a comunidade escolar compreendam que a Língua Brasileira de Sinais e outras formas de comunicação acessíveis pertencem a todos nós.

À medida que nos aproximamos do dia 30 de setembro, deixo aqui meu reconhecimento e aplauso antecipado a cada intérprete — em especial à nossa querida Viviane e a todos os profissionais — que, com as mãos, com o olhar e com a alma, transformam o silêncio em conhecimento e constroem, dia após dia, uma sociedade onde caibam todos os mundos.

E você, leitor que nos acompanha por aqui: já parou para observar a força desse trabalho na escola do seu bairro ou a falta de acessibilidade que ainda encontramos nos espaços da nossa cidade? Como a inclusão tem acontecido no seu dia a dia?

Deixe nos comentários a sua história, sua dúvida ou sua mensagem de carinho para esses profissionais extraordinários. Vamos, juntos, manter essa conversa viva e transformar o respeito à diversidade em um hábito de todos os dias.

Um abraço afetuoso e até o próximo texto!

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