ANABOLIZANTES E SAÚDE: QUAIS SÃO OS RISCOS DO USO DE TESTOSTERONA PARA GANHAR MASSA MUSCULAR?

Por 04/09/2026No Comments10 min de leitura

Anabolizantes e saúde: quais são os riscos do uso de testosterona para ganhar massa muscular?

Por trás do aumento de massa muscular e da melhora do desempenho físico, o uso inadequado de anabolizantes pode provocar alterações importantes no coração, fígado, sistema hormonal, fertilidade, saúde mental e função sexual.

Ganhar músculos mais rapidamente, aumentar a força, melhorar o desempenho nos treinos, alcançar um determinado padrão estético e até mesmo melhorar energia no dia-a-dia e disposição sexual. Esses são alguns dos motivos que levam pessoas a utilizar anabolizantes, principalmente no ambiente esportivo e nas academias.

O problema é que o efeito desejado sobre os músculos não acontece de forma isolada.

Os esteroides anabolizantes androgênicos são substâncias semelhantes aos hormônios masculinos, como a testosterona. Quando utilizados sem indicação e acompanhamento médico, podem interferir no funcionamento natural do organismo e provocar consequências que nem sempre aparecem imediatamente.

E, em alguns casos, o preço pode ser muito maior do que simplesmente “ter alguns efeitos colaterais”.

O que são os anabolizantes?

Os esteroides anabolizantes androgênicos são medicamentos  ou substâncias sintéticas que reproduzem parte dos efeitos da testosterona e de outros hormônios androgênicos.

Existem situações médicas específicas em que determinados hormônios podem ser prescritos, como nos casos de homens que possuem hipogonadismo, o que leva a uma diminuição real dos níveis de testosterona. O problema está principalmente no uso com finalidade estética ou de aumento de desempenho, sem indicação e acompanhamento adequados.

Quando uma pessoa utiliza doses elevadas de hormônios por conta própria, o organismo recebe uma quantidade de andrógenos muito superior àquela produzida naturalmente.

Isso pode alterar o equilíbrio hormonal e interferir em diversos sistemas do corpo.

 

“Se aumenta a testosterona, por que pode diminuir a produção natural?”

Essa é uma das questões mais importantes.

O organismo possui um sistema de controle hormonal extremamente complexo. Quando percebe que existe uma quantidade elevada de hormônios circulando, o cérebro pode reduzir os sinais responsáveis por estimular os testículos a produzirem testosterona. 

Como consequência, a produção natural pode diminuir.

Nos homens, isso pode estar associado à redução da produção de espermatozoides, diminuição do volume testicular e alterações na fertilidade. Também podem ocorrer alterações na função sexual, incluindo disfunção erétil.

Ou seja:

mais hormônio circulando não significa necessariamente mais saúde hormonal.

 

Anabolizantes podem afetar a fertilidade?Sim.

Um dos efeitos que muitas vezes é ignorado é a interferência na produção de espermatozoides.

Quando o organismo recebe hormônios androgênicos externamente, os sinais necessários para manter a produção normal de testosterona e espermatozoides podem ser reduzidos.

Isso pode levar à diminuição da contagem de espermatozoides e, em alguns casos, à infertilidade.

Por isso, homens que desejam ter filhos precisam conversar com um médico antes de iniciar qualquer tratamento hormonal.

A preocupação não deve ser apenas estética.

A pergunta também deveria ser: “o que isso pode fazer com a minha capacidade reprodutiva?”

E a ereção? Anabolizante melhora ou piora?

Essa é uma questão que gera muita confusão.

Como a testosterona está relacionada à função sexual, algumas pessoas imaginam que aumentar seus níveis necessariamente melhorará a ereção, o desejo e energia.

Mas não é tão simples.

A função erétil depende da integração entre sistema nervoso, circulação sanguínea, hormônios, saúde metabólica, aspectos psicológicos e funcionamento adequado dos tecidos envolvidos. Quando falo de tecidos, não é só a musculatura, mas a qualidade dos tecidos da parede arterial.

O uso inadequado de anabolizantes pode provocar alterações hormonais e cardiovasculares que, em vez de melhorar a função sexual, podem contribuir para problemas como disfunção erétil.

Portanto, músculos maiores não significam necessariamente melhor desempenho sexual.

O coração também entra nessa conta

Talvez esse seja um dos riscos mais importantes.

O uso inadequado de anabolizantes pode estar associado a alterações como aumento da pressão arterial, alterações no colesterol e maior risco de eventos cardiovasculares, incluindo infarto e acidente vascular cerebral. 

Isso acontece porque os anabolizantes não atuam apenas nos músculos.

O sistema cardiovascular também é afetado pelas alterações hormonais e metabólicas provocadas por essas substâncias. Aumenta a viscosidade do sangue, influenciando assim, em maior esforço cardíaco, maior chance de provocar trombose e placas de ateroma.

Por isso, uma pessoa pode aparentar estar extremamente saudável, musculosa e condicionada fisicamente e, ainda assim, apresentar alterações importantes em seu sistema cardiovascular.

A aparência externa não é um exame de saúde.

Fígado e rins também podem sofrer

Alguns esteroides podem provocar alterações hepáticas e problemas relacionados ao funcionamento do fígado. Dependendo da substância utilizada, da dose e da forma de administração, os riscos podem variar.

Também podem ocorrer problemas renais.

O uso de produtos adquiridos de fontes não confiáveis acrescenta outro problema: a pessoa pode não saber exatamente qual substância está utilizando, sua concentração, se passou por um controle de qualidade ou mesmo se o produto contém aquilo que está descrito na embalagem.

E os efeitos psicológicos?

O cérebro também pode ser afetado.

Alterações de humor, irritabilidade, comportamento agressivo, ansiedade, paranoia, sintomas maníacos e outros problemas psicológicos podem ocorrer com o uso inadequado de esteroides anabolizantes.

Além disso, a interrupção do uso pode ser acompanhada por sintomas de abstinência, incluindo queda do humor, ansiedade, cansaço, alterações do sono e redução da libido.

Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas podem entrar em um ciclo difícil de interromper.

Até mesmo a disfunção erétil pode acontecer por motivo de dependência psíquica. Alguns homens começam a achar que só terão desempenho sexual satisfatório se estiverem em uso das substâncias. “Ah, eu falhei porque estou com testosterona baixa, preciso repor” – isso é desculpa.

“Mas eu conheço pessoas que usam e não tiveram problemas”

Esse é um argumento bastante comum.

O problema é que ausência de sintomas não significa ausência de alterações.

Pressão arterial elevada, alterações do colesterol, alteração na viscosidade sanguínea, redução da produção de espermatozoides e algumas alterações hormonais podem passar despercebidas durante bastante tempo.

Além disso, os riscos não são iguais para todas as pessoas. Entenda isso, os efeitos colaterais ocorrem a longo prazo, não é imediato.

Eles podem variar de acordo com a substância utilizada, dose, duração do uso, combinação de diferentes substâncias, características individuais e presença de outros fatores de risco.

Por isso, comparar dois usuários e concluir que determinada prática é segura pode ser enganoso.

“Ciclo” protege contra os efeitos colaterais?

Não existe garantia de que estratégias como “ciclar”, combinar diferentes substâncias ou fazer períodos de pausa eliminem os riscos.

O fato de uma pessoa utilizar o produto durante determinado período e depois interromper não significa que seu organismo estará protegido contra as possíveis consequências.

Da mesma forma, utilizar outras substâncias para tentar “corrigir” os efeitos colaterais pode criar novos riscos.

O problema não é apenas o anabolizante

É importante entender que saúde não pode ser avaliada apenas pela quantidade de massa muscular.

Uma pessoa pode estar treinando todos os dias, seguindo uma dieta rigorosa e apresentando um físico impressionante, mas isso não significa necessariamente que seus sistemas cardiovascular, hormonal e reprodutivo estejam funcionando adequadamente.

Saúde é muito mais do que aparência.

É capacidade física, equilíbrio hormonal, saúde cardiovascular, qualidade do sono, saúde mental, função sexual, fertilidade e qualidade de vida.

Quando procurar ajuda?

Quem utiliza ou já utilizou anabolizantes não deve ter vergonha de conversar com um profissional de saúde.

O ideal é buscar avaliação individualizada, especialmente diante de sintomas como:

  • redução importante da libido;
  • dificuldade de ereção;
  • redução do volume testicular;
  • alterações na fertilidade;
  • mudanças importantes de humor;
  • pressão arterial elevada;
  • palpitações;
  • dor no peito;
  • falta de ar;
  • alterações importantes no sono;
  • cansaço persistente.

A avaliação pode envolver diferentes profissionais, como endocrinologista, cardiologista, urologista e outros profissionais dependendo das necessidades de cada pessoa.

Não é preciso esperar aparecer um problema grave para procurar ajuda.

E a fisioterapia pélvica?

A fisioterapia pélvica pode fazer parte do cuidado de homens que apresentam alterações relacionadas à função urinária, sexual ou à musculatura do assoalho pélvico.

Entretanto, é importante deixar claro que a fisioterapia não “anula” os efeitos dos anabolizantes e não substitui a avaliação médica ou endocrinológica.

Quando existem alterações de ereção, ejaculação, sintomas urinários, dores pélvicas ou disfunções da musculatura pélvica, a avaliação fisioterapêutica pode contribuir para identificar fatores relacionados ao funcionamento do assoalho pélvico e estabelecer uma estratégia de tratamento adequada.

O cuidado mais completo acontece quando diferentes profissionais trabalham em conjunto.

O que realmente vale a pena buscar?

Construir massa muscular e melhorar o desempenho físico não são objetivos ruins.

O problema começa quando o resultado estético passa a ser considerado mais importante do que a saúde.

Treinamento adequado, alimentação equilibrada, sono, acompanhamento profissional e estratégias individualizadas podem produzir resultados importantes sem transformar o corpo em um experimento.

E quando existe indicação médica para utilização de hormônios, o caminho é outro: avaliação, indicação adequada, acompanhamento e monitoramento.

Para lembrar
Um corpo maior não necessariamente significa um corpo mais saudável.

Antes de pensar apenas em quantos quilos de músculo uma substância pode acrescentar, talvez seja mais importante perguntar:

“Qual pode ser o preço disso para a minha saúde daqui a 5, 10 ou 20 anos?”

Cuidar da saúde significa olhar para o corpo inteiro inclusive aquilo que não aparece no espelho.

Henrique Ferrarezi da Fonseca

Fisioterapeuta Pélvico

Crefito 4/ 311271-F

Instagram: @centropelvico.vda

Fonte:

1 Anabolic steroid misuse

2 National Institute on Drug Abuse

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