
Anabolizantes e saúde: quais são os riscos do uso de testosterona para ganhar massa muscular?
Por trás do aumento de massa muscular e da melhora do desempenho físico, o uso inadequado de anabolizantes pode provocar alterações importantes no coração, fígado, sistema hormonal, fertilidade, saúde mental e função sexual.
Ganhar músculos mais rapidamente, aumentar a força, melhorar o desempenho nos treinos, alcançar um determinado padrão estético e até mesmo melhorar energia no dia-a-dia e disposição sexual. Esses são alguns dos motivos que levam pessoas a utilizar anabolizantes, principalmente no ambiente esportivo e nas academias.
O problema é que o efeito desejado sobre os músculos não acontece de forma isolada.
Os esteroides anabolizantes androgênicos são substâncias semelhantes aos hormônios masculinos, como a testosterona. Quando utilizados sem indicação e acompanhamento médico, podem interferir no funcionamento natural do organismo e provocar consequências que nem sempre aparecem imediatamente.
E, em alguns casos, o preço pode ser muito maior do que simplesmente “ter alguns efeitos colaterais”.
O que são os anabolizantes?
Os esteroides anabolizantes androgênicos são medicamentos ou substâncias sintéticas que reproduzem parte dos efeitos da testosterona e de outros hormônios androgênicos.
Existem situações médicas específicas em que determinados hormônios podem ser prescritos, como nos casos de homens que possuem hipogonadismo, o que leva a uma diminuição real dos níveis de testosterona. O problema está principalmente no uso com finalidade estética ou de aumento de desempenho, sem indicação e acompanhamento adequados.
Quando uma pessoa utiliza doses elevadas de hormônios por conta própria, o organismo recebe uma quantidade de andrógenos muito superior àquela produzida naturalmente.
Isso pode alterar o equilíbrio hormonal e interferir em diversos sistemas do corpo.
“Se aumenta a testosterona, por que pode diminuir a produção natural?”
Essa é uma das questões mais importantes.
O organismo possui um sistema de controle hormonal extremamente complexo. Quando percebe que existe uma quantidade elevada de hormônios circulando, o cérebro pode reduzir os sinais responsáveis por estimular os testículos a produzirem testosterona.
Como consequência, a produção natural pode diminuir.
Nos homens, isso pode estar associado à redução da produção de espermatozoides, diminuição do volume testicular e alterações na fertilidade. Também podem ocorrer alterações na função sexual, incluindo disfunção erétil.
Ou seja:
mais hormônio circulando não significa necessariamente mais saúde hormonal.
Anabolizantes podem afetar a fertilidade?Sim.
Um dos efeitos que muitas vezes é ignorado é a interferência na produção de espermatozoides.
Quando o organismo recebe hormônios androgênicos externamente, os sinais necessários para manter a produção normal de testosterona e espermatozoides podem ser reduzidos.
Isso pode levar à diminuição da contagem de espermatozoides e, em alguns casos, à infertilidade.
Por isso, homens que desejam ter filhos precisam conversar com um médico antes de iniciar qualquer tratamento hormonal.
A preocupação não deve ser apenas estética.
A pergunta também deveria ser: “o que isso pode fazer com a minha capacidade reprodutiva?”
E a ereção? Anabolizante melhora ou piora?
Essa é uma questão que gera muita confusão.
Como a testosterona está relacionada à função sexual, algumas pessoas imaginam que aumentar seus níveis necessariamente melhorará a ereção, o desejo e energia.
Mas não é tão simples.
A função erétil depende da integração entre sistema nervoso, circulação sanguínea, hormônios, saúde metabólica, aspectos psicológicos e funcionamento adequado dos tecidos envolvidos. Quando falo de tecidos, não é só a musculatura, mas a qualidade dos tecidos da parede arterial.
O uso inadequado de anabolizantes pode provocar alterações hormonais e cardiovasculares que, em vez de melhorar a função sexual, podem contribuir para problemas como disfunção erétil.
Portanto, músculos maiores não significam necessariamente melhor desempenho sexual.
O coração também entra nessa conta
Talvez esse seja um dos riscos mais importantes.
O uso inadequado de anabolizantes pode estar associado a alterações como aumento da pressão arterial, alterações no colesterol e maior risco de eventos cardiovasculares, incluindo infarto e acidente vascular cerebral.
Isso acontece porque os anabolizantes não atuam apenas nos músculos.
O sistema cardiovascular também é afetado pelas alterações hormonais e metabólicas provocadas por essas substâncias. Aumenta a viscosidade do sangue, influenciando assim, em maior esforço cardíaco, maior chance de provocar trombose e placas de ateroma.
Por isso, uma pessoa pode aparentar estar extremamente saudável, musculosa e condicionada fisicamente e, ainda assim, apresentar alterações importantes em seu sistema cardiovascular.
A aparência externa não é um exame de saúde.
Fígado e rins também podem sofrer
Alguns esteroides podem provocar alterações hepáticas e problemas relacionados ao funcionamento do fígado. Dependendo da substância utilizada, da dose e da forma de administração, os riscos podem variar.
Também podem ocorrer problemas renais.
O uso de produtos adquiridos de fontes não confiáveis acrescenta outro problema: a pessoa pode não saber exatamente qual substância está utilizando, sua concentração, se passou por um controle de qualidade ou mesmo se o produto contém aquilo que está descrito na embalagem.
E os efeitos psicológicos?
O cérebro também pode ser afetado.
Alterações de humor, irritabilidade, comportamento agressivo, ansiedade, paranoia, sintomas maníacos e outros problemas psicológicos podem ocorrer com o uso inadequado de esteroides anabolizantes.
Além disso, a interrupção do uso pode ser acompanhada por sintomas de abstinência, incluindo queda do humor, ansiedade, cansaço, alterações do sono e redução da libido.
Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas podem entrar em um ciclo difícil de interromper.
Até mesmo a disfunção erétil pode acontecer por motivo de dependência psíquica. Alguns homens começam a achar que só terão desempenho sexual satisfatório se estiverem em uso das substâncias. “Ah, eu falhei porque estou com testosterona baixa, preciso repor” – isso é desculpa.
“Mas eu conheço pessoas que usam e não tiveram problemas”
Esse é um argumento bastante comum.
O problema é que ausência de sintomas não significa ausência de alterações.
Pressão arterial elevada, alterações do colesterol, alteração na viscosidade sanguínea, redução da produção de espermatozoides e algumas alterações hormonais podem passar despercebidas durante bastante tempo.
Além disso, os riscos não são iguais para todas as pessoas. Entenda isso, os efeitos colaterais ocorrem a longo prazo, não é imediato.
Eles podem variar de acordo com a substância utilizada, dose, duração do uso, combinação de diferentes substâncias, características individuais e presença de outros fatores de risco.
Por isso, comparar dois usuários e concluir que determinada prática é segura pode ser enganoso.
“Ciclo” protege contra os efeitos colaterais?
Não existe garantia de que estratégias como “ciclar”, combinar diferentes substâncias ou fazer períodos de pausa eliminem os riscos.
O fato de uma pessoa utilizar o produto durante determinado período e depois interromper não significa que seu organismo estará protegido contra as possíveis consequências.
Da mesma forma, utilizar outras substâncias para tentar “corrigir” os efeitos colaterais pode criar novos riscos.
O problema não é apenas o anabolizante
É importante entender que saúde não pode ser avaliada apenas pela quantidade de massa muscular.
Uma pessoa pode estar treinando todos os dias, seguindo uma dieta rigorosa e apresentando um físico impressionante, mas isso não significa necessariamente que seus sistemas cardiovascular, hormonal e reprodutivo estejam funcionando adequadamente.
Saúde é muito mais do que aparência.
É capacidade física, equilíbrio hormonal, saúde cardiovascular, qualidade do sono, saúde mental, função sexual, fertilidade e qualidade de vida.
Quando procurar ajuda?
Quem utiliza ou já utilizou anabolizantes não deve ter vergonha de conversar com um profissional de saúde.
O ideal é buscar avaliação individualizada, especialmente diante de sintomas como:
- redução importante da libido;
- dificuldade de ereção;
- redução do volume testicular;
- alterações na fertilidade;
- mudanças importantes de humor;
- pressão arterial elevada;
- palpitações;
- dor no peito;
- falta de ar;
- alterações importantes no sono;
- cansaço persistente.
A avaliação pode envolver diferentes profissionais, como endocrinologista, cardiologista, urologista e outros profissionais dependendo das necessidades de cada pessoa.
Não é preciso esperar aparecer um problema grave para procurar ajuda.
E a fisioterapia pélvica?
A fisioterapia pélvica pode fazer parte do cuidado de homens que apresentam alterações relacionadas à função urinária, sexual ou à musculatura do assoalho pélvico.
Entretanto, é importante deixar claro que a fisioterapia não “anula” os efeitos dos anabolizantes e não substitui a avaliação médica ou endocrinológica.
Quando existem alterações de ereção, ejaculação, sintomas urinários, dores pélvicas ou disfunções da musculatura pélvica, a avaliação fisioterapêutica pode contribuir para identificar fatores relacionados ao funcionamento do assoalho pélvico e estabelecer uma estratégia de tratamento adequada.
O cuidado mais completo acontece quando diferentes profissionais trabalham em conjunto.
O que realmente vale a pena buscar?
Construir massa muscular e melhorar o desempenho físico não são objetivos ruins.
O problema começa quando o resultado estético passa a ser considerado mais importante do que a saúde.
Treinamento adequado, alimentação equilibrada, sono, acompanhamento profissional e estratégias individualizadas podem produzir resultados importantes sem transformar o corpo em um experimento.
E quando existe indicação médica para utilização de hormônios, o caminho é outro: avaliação, indicação adequada, acompanhamento e monitoramento.
Para lembrar
Um corpo maior não necessariamente significa um corpo mais saudável.
Antes de pensar apenas em quantos quilos de músculo uma substância pode acrescentar, talvez seja mais importante perguntar:
“Qual pode ser o preço disso para a minha saúde daqui a 5, 10 ou 20 anos?”
Cuidar da saúde significa olhar para o corpo inteiro inclusive aquilo que não aparece no espelho.
Henrique Ferrarezi da Fonseca
Fisioterapeuta Pélvico
Crefito 4/ 311271-F
Instagram: @centropelvico.vda
Fonte:
2 National Institute on Drug Abuse
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