TERAPIA DE CASAL NÃO MUDA NINGUÉM

Por 29/07/2026No Comments5 min de leitura
psicologo para terapia de casal

Muita queixa e pouca solução. Assim terminam as primeiras sessões de terapia de casais, afinal, a criança dentro de cada adulto fala mais alto que o adulto saudável que deveria estar gerindo as dificuldades naturais de um relacionamento que deseja ser duradouro.  Clement Rousset, filosofo francês, citado por alguém muito inteligente que ouvi nesses dias, dizia que “o ser humano tem uma imensa capacidade de sentir e uma mínima capacidade de processar o que sente”, então, cada sensação vai me afastando do outro, pois não sinto que ele me ama (como eu gostaria de ser amado).  

Na terapia do esquema essa estranheza de sentir e expressar sentimento chama-se INIBIÇÃO EMOCIONAL. Referindo a um padrão psicológico (desadaptativo) onde a pessoa suprime sistematicamente emoções e impulsos, temendo rejeição, punição ou vergonha. De fato, ela não processa o que sente, não devolve, não doa. Só guarda consigo. Originado em ambientes familiares rígidos ou punitivos, leva ao foco excessivo na racionalidade, frieza aparente, dificuldade em expressar vulnerabilidade e, muitas vezes, em se conectar intimamente. Mas está casado! E ama de forma desadaptativa atraindo o pior do outro.

Na inibição emocional acontece a supressão das emoções positivas – afeto e alegria – e das emoções negativas – medo e raiva. Uma pessoa que não reage, nem positivamente, nem negativamente, por mais que ame, não está exercendo o amor, ao contrário, deixará o outro no vácuo, com uma sensação de cansaço da relação. Além de evitar a espontaneidade essa pessoa vai gerar um controle excessivo sobre o outro, com monitoramento desnecessário. Não por desconfiança, mas por uma rigidez que vem de sua história. É assim que foi amado. É assim que ama.

Onde foi que aprendemos que ser espontâneo é perigoso? Quando foi que aprendemos que ocultar os sentimentos é importante para não nos ferirmos? A muito tempo atras! E é difícil acessar essa memória pedagógica que nos formou. Mas se insistirmos em mudar esse esquema, vamos encontrar uma educação rígida e invalidante desde cedo.  Cuidadores que puniam, ridicularizavam ou ignoravam expressões emocionais na infância. Não estamos falando necessariamente dos pais, mas foram experiencias distantes e de acesso difícil.  Possivelmente, os pais ou pessoas importantes eram também pessoas que inibiam, suprimiam seus próprios afetos. Quem nunca ouviu “eu te amo”, vai ter muita dificuldade de dize-lo. E inibição emocional é mais que isso.

Pessoas que não se expressam tem o risco aumentado de doenças físicas e as relações interpessoais são distantes por falta de suporte emocional. Mesmo em meio a pessoas que ama, a sensação de vazio é real e gera um entorpecimento emocional em si e culpa no outro.

É preciso sentir, para sentir amor. E ao contrário do que a inibição emocional reclama, sentir amor é doar-se. Dar-se. É arriscar ser incompreendido e rejeitado enquanto cuida, serve, ama, se expressa, se afeta e afeta o outro com esse amor. Sem arder em ciúmes, sem controle, sem medo.

Nas outras sessões, aprendendo a validar as próprias emoções e a diminuir racionalidade – importa é o que o outro sentiu, não quem está certo ou errado! –  vamos perceber que praticar a expressão de sentimentos em ambiente da relação é seguro e vale a pena. Desmontar a inibição emocional na relação, descobrir que veio ao mundo não para ser amado, mas para transbordar em amor em alguém que você escolheu. E esse alguém não é perfeito.

Amar é amar o outro, doar-se, arriscar-se. Para ter saúde emocional eu arrisco e expando meu amor. Se eu não amar, eu não amo. Redundante? Mas é isso. A terapia não é para consertar alguém para você, mas para você conhecer o seu cônjuge, perder o medo dele (não te amar). Processar o que sente e o que seu cônjuge te faz sentir.  Amadurecer – e se isso acontecer você muda para cuidar ainda melhor do outro. Benvindos.

Cleydemir Santos é psicólogo sistêmico. Terapeuta de casais, especialista em Psicodrama e Terapia do Esquema.

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