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IRMÃOS – PARCEIROS PARA A VIDA OU CONCORRENTES?

Por 03/06/2026No Comments5 min de leitura
IRMÃOS – PARCEIROS PARA A VIDA OU CONCORRENTES?

Terminei a palestra para os pais em uma instituição que atende crianças no contra turno escolar semana passada. Eles estão trabalhando um projeto em que semente são metáfora para valores e cuidado como na jardinagem é o investimento perene para uma colheita que faça diferença na vida da próxima geração. Nesse contexto, aproveitei a presença de uma jovem grávida, onde uma “semente” tinha sido plantada para trazer um irmãozinho para uma menininha que estava por ali entre nós.

Na hora do lanche, outra menininha veio a mim, com olhinhos brilhando e me conta com orgulho: “também vou ser irmã mais velha”. Eu a parabenizei, perguntei se sabia se era irmãozinho ou irmãzinha, se já tinha nomes escolhidos; e ela se sentia realmente muito feliz, mesmo que fosse alguém para tirar dela um pouco do espaço na vida.  “Há muita coisa bonita no mundo. Ser irmão é uma delas”, confessa Clarice Lispector, em sua carta para sua irmã Elisa em 1945, que resume bem  a beleza do vínculo fraterno. Irmãos representam parceria, abrigo e um amor incondicional que transforma a jornada da vida.

Lá em casa, “Éramos Seis”. Nome de novela que vale a pena ver de novo.  Depois de duas perdas dolorosas, sobramos quatro e estamos espalhados pelo mundo, dois morando bem longe e 2 aqui em nossa terra natal. Nos encontramos pouco, mas é sempre uma festa quando isso ocorre.  Ser adulto muda tudo, mas os laços são profundos.

Olho para dois filhos que temos e vejo isso ainda mais sólido. Apenas dois irmãos, mas que se curtiram e se protegeram, competiram entre si e se estimularam durante toda a infância e adolescência e vivem uma solida amizade como adultos, cada um no seu quadrado. Foi profundamente importante na formação deles a presença um do outro.

Se os pais/cuidadores podem ser fonte natural de esquemas desadaptativos e de traumas os irmãos podem ser um amortecedor do peso e fonte de cura por estarem do outro lado juntos! Crescemos naturalmente no excesso, quer seja excesso de zelo, ou de cuidado que impede uma pessoa de aprender a se mexer porque está muito cercado, ou excesso de “liberdade” que faz um ser humano crescer sem habilidade com as regras.  

irmaos coragem por onde andam os atores das duas versoes da novela 5566

Afinal, quem estava pronto para ser pai ou mãe? Quem sabia a dose certa para disciplina ou carinho? Quem sabia discernir a necessidade emocional de um bebe? Quanto mais de seis? Nem com toda tecnologia que temos hoje, quando já se sabe o sexo tão cedo e no ventre se fazem intervenções, estamos prontos para o mistério da maternidade/paternidade. Como diria Khalil Gibran, “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem.”

Não estou procurando culpado, afinal, sou pai também. Tenho muitas culpas no cartório. Quero lembrar da minha história emocional e avaliar a importância da parceira de irmãos na formação de um indivíduo completo e saudável. O Filho único pode e vai se virar, mas vai perder privilégios que só quem teve irmãos tem, na infância e na continuidade da vida; inclusive para cuidar dos pais na velhice, e curtir juntos outras tantas alegrias que não cabem no Instagram – pois as que cabem estão formatadas para os likes, não para o coração.

A vida passa. No curso natural da história os irmãos vão durar mais tempo que os pais. Se não for um livro inteiro na vida da gente, eles são capítulos cheios de emoções e muitas alegrias, principalmente se tiveram a oportunidade de ficar nesse lugar especial de irmão, não de cuidador. É uma maldade ter que desviar o lugar magico de parceiro para a responsabilidade do cuidador, principalmente na primeira infância, o que acontece muito em casa de muitos filhos ou quando os cuidadores adultos estão muito ocupados com outras coisas.

Quero apenas celebrar. Ser irmão, ter irmão, em qualquer idade nos sustenta, retroalimenta, consola, gera esperança, quebra solidão. Como não foram só flores como nesse texto nostálgico, quero terminar lembrando que entre irmãos se aprende cedo que temos que perdoar. Esquece disso não!

Cleydemir Santos é Psicólogo, Terapeuta de casais, especialista em TCC e Psicodrama (31.99515-2348)

 

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