
No Dia da Mulher, a reflexão deve ir além da homenagem. Por trás da fachada do “dar conta de tudo”, escondem-se o trabalho invisível, a sobrecarga e a exaustão física e mental que ainda recaem majoritariamente sobre elas.
Durante décadas, a sociedade exaltou a figura feminina que equilibra múltiplas jornadas: o cuidado com a família, a gestão do lar, a ascensão na carreira e a disponibilidade emocional constante. Essa narrativa da “mulher multitarefa” tornou-se um símbolo de força, mas carrega uma realidade pouco romantizada: a fadiga cotidiana.
Neste 8 de março, mais do que reforçar o mito da super-heroína, especialistas e pesquisas reforçam a urgência de olhar para a mulher real — aquela que tem limites, sente cansaço e precisa, acima de tudo, de responsabilidades compartilhadas.
O peso do trabalho invisível
Grande parte dessa sobrecarga origina-se no chamado “trabalho invisível” , atividades essenciais para o cotidiano, mas raramente reconhecidas como labuta.
Organizar a rotina doméstica, gerir compromissos familiares, cuidar de crianças ou idosos e manter o equilíbrio emocional do lar são tarefas frequentemente atribuídas, de forma automática, às mulheres. Além dessas, o preparo de refeições, a limpeza e a resolução de imprevistos compõem uma jornada que não para.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), do IBGE, comprovam que a desigualdade ainda é profunda: em 2022, as mulheres dedicaram 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas , uma diferença de quase 10 horas semanais de sobrecarga para elas.
O cenário se reflete também na abrangência: mais de 91% das brasileiras realizam algum tipo de tarefa doméstica ou de cuidado, contra cerca de 79% dos homens, evidenciando que a responsabilidade pelo lar ainda não é compartilhada de forma equitativa.
Dupla jornada e menos reconhecimento
Quando o trabalho doméstico é somado ao trabalho remunerado, a carga total de horas também revela desigualdade.
Segundo as Estatísticas de Gênero do IBGE, as mulheres trabalham, em média, 54,4 horas por semana, considerando emprego formal, cuidados e tarefas domésticas — cerca de 2,3 horas a mais do que os homens.
Mesmo assim, elas ainda recebem menos.
No Brasil, o rendimento médio feminino corresponde a cerca de 78,9% do que ganham os homens, mesmo tendo, em média, maior nível de escolaridade.
Essa combinação de responsabilidades também impacta a carreira. Muitas mulheres acabam reduzindo a jornada ou aceitando empregos com menos horas para conseguir conciliar trabalho e cuidados familiares.
A fadiga de quem cuida de todos
Especialistas apontam que essa dinâmica gera um fenômeno cada vez mais discutido: a fadiga física e mental feminina.
Não se trata apenas do cansaço do trabalho doméstico ou profissional, mas da soma de responsabilidades contínuas — muitas vezes acompanhadas pela expectativa social de que a mulher seja a principal responsável pelo cuidado, pela organização e até pelo equilíbrio emocional da família.
É uma espécie de “estado permanente de atenção”, no qual quase sempre há algo para resolver.
Repensar o significado da força
Por muito tempo, a força feminina foi associada à capacidade de suportar tudo.
Mas a reflexão que ganha espaço neste Dia da Mulher propõe outro olhar: força também pode significar estabelecer limites, dividir responsabilidades e priorizar o próprio bem-estar.
Reconhecer a existência da sobrecarga não diminui a importância das mulheres. Pelo contrário: ajuda a tornar visível uma realidade que por muito tempo foi naturalizada.
Talvez esteja na hora de ressignificar o símbolo que tantas vezes acompanha o feminino.
O M maiúsculo não precisa ser de Mulher maravilha.
Pode e deve ser de Mulher real.
Aquela que não precisa salvar o mundo todos os dias.
Aquela que também merece ser cuidada.
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